Era a bolinha no sorteio que todos queriam. O dark horse nas casas de apostas um pouco por todo o Mundo. Adivinhamos o sorriso de Putin no final do primeiro jogo. Mas o futebol é assim. Mágico até à medula. Um golpe de oportunismo foi suficiente para fazer história. Oito anos depois a Eslovénia está num Mundial de Futebol. E com as chuteiras bem limpas...

Já não estamos diante da geração do virar de século, aquela capitaneada pelo genial Zlatko Zahovic que levou a Eslovénia de forma consecutiva a Euro 2000 e ao Mundial de 2002. No final dessa prova, com a reforma de Pavlin, Zahovic e companhia, os adeptos eslovenos baixaram os braços. Nunca mais pensaram. Num país onde os desportos mais populares têm forçosamente de ter neve, ninguém acreditava que o desporto-rei voltasse a dar tantas alegrias. Os anos passaram, a equipa foi perdendo a importância que tinha na sua era dourada. As pessoas esqueceram-se. Dentro e fora de portas. Até ontem à noite. O golpe de oportunismo de Dedic, a um minuto do intervalo, foi suficiente. Akinfeev estava batido, prostrado no chão e os adeptos nem acreditavam. Faltava ainda muito tempo mas já ninguém acreditava que o destino seria madrasto. O tento oportunista na Rússia do jogador do Nacional, Pecknik, tinha deixado a esperança, De tal forma que até o primeiro-ministro esloveno prometeu engraxar as chuteiras dos jogadores, se lograssem eliminar a Rússia.
Os últimos dois anos foram de sonho para os eslovenos. No grupo mais débil e equilibrado da fase de qualificação vinham lá no fundo da casa de apostas. Atrás da Republica Checa, Polónia, Eslováquia e Irlanda do Norte. A pulso foram trepando na classificação e lograram o apuramento para o play-off. Parecia que a festa estava montada e quando se anunciou o rival, os mais optimistas deixaram de acreditar. Afinal a Russia de Hiddink vinha de um brilhante europeu e contava com estrelas espantosas. Arshavin, Akinfeev, Zhirkov, Dzagoev, Denisov, Ignatschievich, Prognebyak ou Palvuychenko. Enfim, um exército temivel. Só que em Moscovo os russos foram perdulários. Em demasia. E apenas apontaram dois golos. Ao que os eslovenos responderam com um tento oportuno. Decisivo. Ganharam moral e encheram o peito para atacar. Maribor esperava-os com um carinho especial. Afinal a selecção tinha deixado a capital, Ljubliana, para fazer desta pequena cidade a sua sede. Um estádio pequeno mas rendido à selecção, e preparado para gritar do principio ao fim. Hiddink esteve menos ágil do que noutras ocasiões. A sua equipa foi inofensiva e nunca deu sinais de controlar o jogo. Mesmo assim sabiam que um golo obrigava os eslovenos a marcarem, pelo menos, dois tentos. E confiava em Akinfeev, que em Moscovo tinha estado brilhante. A equipa russa mostrou-se lenta e demasiado confiante. Os eslovenos entraram de rompante.
Subitamente ao minuto 44 um livre, descaído ligeiramente para a direita. Um centro milimetrico e o certeiro desvio do ponta-de-lança, Dedic. Numa equipa sem estrelas ele foi o herói. Letal como a equipa precisva. Depois do golo chegou o intervalo. Os eslovenos vieram ainda mais motivados. Acarinhavam já o voo em Junho. Os russos, pelo contrário, estiveram a anos luz do que se esperava. E rapidamente começaram a perder a cabeça. Primeiro Kerzakhov, depois Zhirkov. Duas expulsões evitaveis que deixaram tudo ainda mais facilitado para a equipa da casa. Que se limitou a controlar o jogo e procurar surpreender os russos no contra-golpe. O marcador não se voltou a mexer. No final do jogo os gélidos russos não queriam acreditar. A história sempre nos ensina que um favorito fica pelo caminho na fase de qualificação.A Rússia cumpriu com a tradição e verá o Mundial à distância. Perdem-se algumas das melhores individualidades e certamente, um dos mais fascinantes técnicos. Mas ganha-se uma equipa modesta mas com uma alma gigante.

A Eslovénia estará certamente no alvo da cobiça dos cabeças-de-serie. Inserido no mesmo grupo que Portugal, Holanda e Dinamarca, os grandes procurarão defrontar os pequenos eslavos mas o futebol já nos ensinou por diversas vezes que a teoria e a prática funcionam de forma bem distinta. E quiçá o sonho esloveno, de tão improvável, tenha apenas começado com esta épica vitória. Que ainda ecoa nos imensos vales verdes.

