Quando ninguém parecia acreditar, Portugal realizou uma das melhores exibições dos últimos anos. Um jogo de garra e de carácter que demonstrou, uma vez mais, que um colectivo organizado e calculista vale muitas vezes mais que uma constelação de estrelas. Controlar era preciso e assim se fez, do principio ao fim. O golo que tantos reclamavam surgiu com naturalidade. A Equipa das Quinas viaja à África do Sul contra as expectativas dos incrédulos e a natural inveja de quem não acreditou no grupo que se formou na era pós-Scolari. Obra de um grupo de jogadores aplicados e de um seleccionador que sempre insistiu que as maratonas acabam na meta.

No final do jogo Carlos Queiroz dedicou o apuramento "aos jogadores e a quem acreditou".
Foram poucos os que nos últimos dois anos acreditaram no seleccionador nacional. Herdeiros da politica de conflito e guerrilha do brasileiro Luiz Filipe Scolari, o público português nunca gostou do planteamento desportivo do novo seleccionador. Precisamente o "pai" dos grandes sucessos logrados nos últimos 20 anos do nosso futebol. Incluidos os "quase triunfos" do seleccionador brasileiro. A imprensa também foi impiedosa e depois da derrota contra o Brasil - jogo que só a Nike e a FPF queriam - havia já quem pedisse o regresso do "sargentão". Sem tempo para experiências e herdando uma selecção já em declinio, Queiroz teve de apostar na base herdada com alguns retoques pessoais. Eduardo passou para as redes, Pepe foi colocado estrategicamente a médio-defensivo - posição orfã ainda do melhor Costinha - e depois de não encontrar um goleador, apostou no naturalizado Liedson. Com um Cristiano Ronaldo em baixo, Deco na sua pior forma e com alguns erros arbitrais à mistura Portugal foi tremendo aqui e ali. Arrancou bem em jogo e mal em resultados. Acabou na forma inversamente proporcional. Com a diferença de que o pior Portugal de então parecia melhor que a versão mais optimista de há dois anos. Coisas do destino. Não deu para o apuramento directo mas enviou a selecção a um duelo fraticida com a Bósnia.
Depois do primeiro jogo - onde a equipa atacou mais do que controlou - sabia-se que Portugal tinha de ser frio e calculista. Algo que nunca mostrou ser verdadeiramente nos últimos anos e que custou caro aos comandados por Scolari. Mas Queiroz é tacticamente superior e soube montar um esquema perfeito para controlar a ofensiva rival. Manteve a estrutura da Luz com a alteração forçada de Deco por Tiago. O médio da Juventus não foi dos melhores mas acabou por ser importante em tarefas defensivas. Apesar do 4-3-3 no terreno ontem, em Zenica, não houve táctica. Houve solidariedade e espirito de luta. Nenhum jogador de vermelho virou as costas. Simão funcionou muitas vezes como o melhor amigo de Duda. Do outro lado Paulo Ferreira assinava uma das suas melhores exibições com a camisola das quinas. Os centrais mantinham-se atentos às movimentações ofensivas de Dzeko e Ibisevic e Pepe voltou a ser imperial. Foi o terceiro central necessário para defender, o bombeiro de todos os fogos no meio-campo e ainda teve tempo para apoiar o ataque. Jogo completissimo.
Portugal entrou bem, aguentou a primeira carga e não se deixou intimidar por um inferno que nunca o chegou a ser. Aos assobios ao hino nacional, os jogadores responderam com caracter. Foram neutralizando as transições bósnias e controlando a bola. Circulavam no miolo sem deixar os rivais aproximarem-se demasiado da baliza de Eduardo. E sempre que possivel lançavam ataques venenosos. Num deles Raul Meireles falhou claramente. Mas nem isso desmotivou os jogadores.

Para a segunda parte surgiu um Portugal ainda mais maturo. Nani, o mais perdulário do primeiro tempo, esteve mais apagado mas abriu espaço para as subidas dos médios centros. Num desses lances surgiu Raul Meireles diante da baliza Bósnia. O médio do FC Porto redimiu-se do erro do primeiro tempo e resolveu a eliminatória. Portugal tinha cumprido todos os objectivos. Os bósnios causavam pouco perigo e nunca davam um verdadeiro sinal de poder surpreender. O golo premiou a coragem do ataque português e a solidez de uma equipa que continua sem sofrer golos. Uma das melhores da fase de qualificação, é preciso não esquecer.
De cabeça perdida os bósnios tentaram o tudo por tudo mas foi Portugal quem esteve uma e outra vez perto do golo. Contra-golpes venenosos, falhanços clamorosos. O público começava a demonstrar o mau-perder que já se conhecia ao seu técnico e os jogadores não ficaram atrás. Expulsão de Sahilovic, e jogo resolvido. Edinho, Deco e Miguel Veloso entraram para ajudar à festa depois de Paulo Ferreira, Pepe e Bruno Alves terem evitado o tento do empate da equipa da casa. No banco começava a celebrar-se o apuramento ainda faltavam dez minutos. Três golos dos bósnios era um cenário altamente implausivel. E assim foi. Categoricamente Portugal carimbou o bilhete para a África do Sul.
É fácil agora olhar para trás e dizer que Portugal não cumpriu mais do que com a sua obrigação. Talvez o seja, mas olhando para o caso russo, egipcio e até mesmo para a França, ficou claro que nestas fases nem sempre ser favorito chega. Portugal disputou um dos mais complicados grupos em plena renovação geracional. Apresentou uma óptima defesa e descobriu algumas inovações interessantes. Agora o seleccionador terá tempo para preparar o futuro. Os amigáveis que se seguem darão forma ao grupo que viajará à África do Sul. A equipa não deixa de ter debilidades estruturais graves, mas passou a ser uma selecção de todos, onde nenhum jogador está excluido à partida. A época ainda é larga e a forma dos jogadores determinará muito a prestação de Portugal. No Verão o seleccionador não tinha problemas em dizer que Portugal ia ao Mundial para ganhar. Parte em igualdade de condições com qualquer outra das 31 equipas. E deve ambicionar tudo. Mas também deve ter a humildade e o sacrificio de entender que nem todos podem ganhar. Com essa atitude a equipa nacional irá certamente mentalizada para todos os cenários. E sem a aura de favorita - como há dois anos atrás - terá liberdade para jogar o seu futebol. E ás vezes é só isso que é realmente necessário para ir longe. Desta selecção pode-se esperar um pouco de tudo. Mas o que não se lhe pode acusar é falta de atitude.

Uma última palavra para o seleccionador. Não tem o génio táctico de José Mourinho, esse seleccionador porque o país suspira mesmo sem o querer admitir. Mas na conjuntura em que chegou à selecção, Carlos Queiroz fez um notável trabalho. Agora ultrapassada a pressão do apuramento - cumprindo uma década de sonho do futebol português - terá a possibilidade de por em prática toda a sua filosofia. Mas, como nenhum português parecia querer acreditar, a verdade é que o triunfo de ontem é mais dele do que qualquer outro. Do que mais acreditou!

