É ciclíco na vida da Invicta. De dois em dois anos Jorge Nuno Pinto da Costa anuncia que pensa que a sua hora chegou. Imediatamente as ruas da cidade enchem-se de "sócios" azuis-e-bancos com petições para que o grande chefe não se vá embora. E pouco tempo depois este anuncia, com palavras escolhidas a dedo, que está pronto para mais dois anos. Mas como o próprio presidente do FC Porto diria, largos dias têm dois anos...

É inevitável desassociar Jorge Nuno Pinto da Costa do FC Porto. É o presidente há mais tempo no activo e o mais galardoado da história, superando inclusive o até agora intocável Santiago Bernabeu. Números que justificam bem os vários mandatos que leva já na presidência de um clube que ajudou a refundar, depois de 19 anos de seca de titulos e de total organização. Pinto da Costa formou com José Maria Pedroto uma dupla inesquecível que marcou um antes e um depois na história do futebol português. A forma como deram forma ao actual FC Porto, onde já não havia medo de atravessar a ponte D. Maria, de olhar na cara dos jogadores de Sporting e Benfica ou de desafiar árbitros com viagens e trajes encomendados à medida tornou o clube das Antas no grande rival do sistema desportivo, há decadas implementado no futebol português. Uma história de sucesso tal que rapidamente saltou fronteiras e transformou os portistas no clube português com mais trofeus internacionais, batendo até então o que se pensava impossível, o recorde do Benfica de Eusébio e companhia. São já mais de 30 anos ligado à direcção portista, 27 dos quais como presidente no activo. E agora que o clube atravessa mais uma série de titulos conquistados, o presidente prepara-se para anunciar que continua, um pouco mais. Será a decisão correcta. Terá o FC Porto inevitavelmente de ser dirigido por Pinto da Costa?
Olhando bem para os mandatos do actual presidente azul e branco há claramente quatro fases bem distintas que espelham bem a evolução da própria postura de Pinto da Costa dentro da organização. Os primeiros anos do mandato - já depois dos titulos conquistados com Américo de Sá e do inesquecível Verão Quente nas Antas - foram pautados pela mesma politica desportiva que tinha unido Pinto da Costa a José Maria Pedroto. Confrontação directa com a FPF e os clubes de Lisboa, dinamização da massa associativa (nasce a primeira claque oficial, a revista do clube, rebaixa-se o estádio das Antas) e reforço desportivo da equipa. A morte de Pedroto (e mais tarde de Morais, que muitos viam como o seu sucessor natural), abre a porta a um novo mandato. Agora com Artur Jorge no banco, Pinto da Costa perde a única figura que lhe poderia fazer sombra junto dos adeptos. Começa a presidencialização do clube, onde todos os titulos, contratações e ataques aos rivais giram à volta da figura de Pinto da Costa. A crispação com Lisboa atinge o seu auge assim como as conquistas desportivas europeias. Um período que se alastra até 2003, com o auge no Pentacampeonato logrado entre 1995-1999. Pinto da Costa chega a liderar a Liga de Clubes e torna-se na primeira referência do dirigismo nacional. Com a chegada de José Mourinho ao banco das Antas a situação altera-se, O clube vem de três anos negros e o técnico de Setúbal consegue em dois anos tudo o que havia para ganhar. Pela primeira vez desde os dias de Pedroto a figura do presidente é suplantada pela do técnico. A saída conflictuosa e a consequente limpeza de balneário da herança de Mourinho espelham bem o carácter de um presidente que, por essa altura, tinha perdido o Norte. Até que chega o célebre Apito Dourado, as escutas ilegais, a corrupção provada e por provar e a suspensão que o remetem ao silêncio e à contenção. Uma direcção na sombra, com um técnico de perfil silencioso e uma administração cada vez mais burocrática.

São muitos anos e isso torna inevitável esta constante mutação. Pinto da Costa é o presidente dos titulos, das conquistas, do estádio novo e da dinamização das modalidades amadoras. É, inequivocamente, o melhor presidente da história desportiva do clube azul e branco. E do futebol português. Mas depois há também o lado escuro, negro da figura. Um homem controlador, centralizador que tornou o clube no seu feudo particular. Com a conivência dos sócios, com o apoio das claques, e com a cumplicidade da imprensa. Hoje a estrutura burocrática da direcção e da SAD - uma iniciativa sua - consomem grande parte do orçamento do clube. Números que não se coadunam com as receitas conseguidas com as consecutivas vendas das jóias que foram delapidando o património desportivo. A ponto da equipa actual ser um exemplo de vulgaridade comparado com plantéis anteriores. Os constantes negócios no mercado argentino sucederam aos constantes negócios no mercado brasileiros. Agentes, intermediários e comissões pelo meio, o FC Porto tornou-se numa ponte suspeita de negócios pouco claros. Que se repercutiram na performance desportiva, apesar dos quatro titulos consecutivos logrados.
Ignorar o passado de Pinto da Costa é uma injustiça que a história não deixará cometer. Mas a era do presidente está no seu final. Hoje em dia é dificil olhar para Pinto da Costa e ver que tem ainda algo de especial para oferecer ao clube. O facto de ao longo da sua carreira presidencial ter afastado sucessivamente os eventuais sucessores (excepto Teles Roxo, tristemente desaparecido quando parecia ter o perfil ideal para suceder a Pinto da Costa em poucos anos) faz com que hoje exista um oásis. Haverá certamente vários nomes de continuidade, mas isso seria simplesmente mudar os rostos. Não as politicas. Não a estrutura. É urgente que surja uma força politica sólida alternativa à existente actualmente. Lembramos o caso do Barcelona, que viveu com Josep Lluis Nuñez uma era de glória mas que caminhou para o seu final de forma inglória, especialmente quando um grupo de sócios formaram o grupo Elefant Blau, e se prepararam para terminar com essa particular era. Grupo de onde saiu o actual presidente, Joan Laporta, que é ainda aquele que tem o melhor registo de titulos conquistados. No Porto há esse medo de não haver clube para lá de Pinto da Costa. Os mais velhos lembram-se dos anos onde pululavam figuras polémicas como Nascimento Cordeiro. Os mais novos nasceram já sob os designios reais de Pinto da Costa. E o medo do desconhecido pode sempre mais. Mas no clube mais titulado do futebol português é preciso olhar para lá do horizonte e perceber que mais dois anos da mesma política - numa era onde o clube vive uma clara encruzilhada - pode ser prejudicial.

Um dos méritos dos grandes homens é saber retirar-se quando chega a sua hora. A morte trata de impedir que uns se eternizem nos seus postos. Outros são forçados a sair pelo meio. Saber a hora de saída com antecipação é algo ao alcance de muito poucos. Mais dois anos podem significar que Pinto da Costa perderá esse timing certo. Com consequências imprevisiveis, para ele e para a instituição. Afinal, largos dias poderão ter dois anos que ainda não estão escritos nas estrelas que iluminam o inesquecível luar da cidade Invicta.

