Sábado, 21 de Novembro de 2009

É ciclíco na vida da Invicta. De dois em dois anos Jorge Nuno Pinto da Costa anuncia que pensa que a sua hora chegou. Imediatamente as ruas da cidade enchem-se de "sócios" azuis-e-bancos com petições para que o grande chefe não se vá embora. E pouco tempo depois este anuncia, com palavras escolhidas a dedo, que está pronto para mais dois anos. Mas como o próprio presidente do FC Porto diria, largos dias têm dois anos...

 

É inevitável desassociar Jorge Nuno Pinto da Costa do FC Porto. É o presidente há mais tempo no activo e o mais galardoado da história, superando inclusive o até agora intocável Santiago Bernabeu. Números que justificam bem os vários mandatos que leva já na presidência de um clube que ajudou a refundar, depois de 19 anos de seca de titulos e de total organização. Pinto da Costa formou com José Maria Pedroto uma dupla inesquecível que marcou um antes e um depois na história do futebol português. A forma como deram forma ao actual FC Porto, onde já não havia medo de atravessar a ponte D. Maria, de olhar na cara dos jogadores de Sporting e Benfica ou de desafiar árbitros com viagens e trajes encomendados à medida tornou o clube das Antas no grande rival do sistema desportivo, há decadas implementado no futebol português. Uma história de sucesso tal que rapidamente saltou fronteiras e transformou os portistas no clube português com mais trofeus internacionais, batendo até então o que se pensava impossível, o recorde do Benfica de Eusébio e companhia. São já mais de 30 anos ligado à direcção portista, 27 dos quais como presidente no activo. E agora que o clube atravessa mais uma série de titulos conquistados, o presidente prepara-se para anunciar que continua, um pouco mais. Será a decisão correcta. Terá o FC Porto inevitavelmente de ser dirigido por Pinto da Costa?

 

Olhando bem para os mandatos do actual presidente azul e branco há claramente quatro fases bem distintas que espelham bem a evolução da própria postura de Pinto da Costa dentro da organização. Os primeiros anos do mandato - já depois dos titulos conquistados com Américo de Sá e do inesquecível Verão Quente nas Antas - foram pautados pela mesma politica desportiva que tinha unido Pinto da Costa a José Maria Pedroto. Confrontação directa com a FPF e os clubes de Lisboa, dinamização da massa associativa (nasce a primeira claque oficial, a revista do clube, rebaixa-se o estádio das Antas) e reforço desportivo da equipa. A morte de Pedroto (e mais tarde de Morais, que muitos viam como o seu sucessor natural), abre a porta a um novo mandato. Agora com Artur Jorge no banco, Pinto da Costa perde a única figura que lhe poderia fazer sombra junto dos adeptos. Começa a presidencialização do clube, onde todos os titulos, contratações e ataques aos rivais giram à volta da figura de Pinto da Costa. A crispação com Lisboa atinge o seu auge assim como as conquistas desportivas europeias. Um período que se alastra até 2003, com o auge no Pentacampeonato logrado entre 1995-1999. Pinto da Costa chega a liderar a Liga de Clubes e torna-se na primeira referência do dirigismo nacional. Com a chegada de José Mourinho ao banco das Antas a situação altera-se, O clube vem de três anos negros e o técnico de Setúbal consegue em dois anos tudo o que havia para ganhar. Pela primeira vez desde os dias de Pedroto a figura do presidente é suplantada pela do técnico. A saída conflictuosa e a consequente limpeza de balneário da herança de Mourinho espelham bem o carácter de um presidente que, por essa altura, tinha perdido o Norte. Até que chega o célebre Apito Dourado, as escutas ilegais, a corrupção provada e por provar e a suspensão que o remetem ao silêncio e à contenção. Uma direcção na sombra, com um técnico de perfil silencioso e uma administração cada vez mais burocrática.

 

São muitos anos e isso torna inevitável esta constante mutação. Pinto da Costa é o presidente dos titulos, das conquistas, do estádio novo e da dinamização das modalidades amadoras. É, inequivocamente, o melhor presidente da história desportiva do clube azul e branco. E do futebol português. Mas depois há também o lado escuro, negro da figura. Um homem controlador, centralizador que tornou o clube no seu feudo particular. Com a conivência dos sócios, com o apoio das claques, e com a cumplicidade da imprensa. Hoje a estrutura burocrática da direcção e da SAD - uma iniciativa sua - consomem grande parte do orçamento do clube. Números que não se coadunam com as receitas conseguidas com as consecutivas vendas das jóias que foram delapidando o património desportivo. A ponto da equipa actual ser um exemplo de vulgaridade comparado com plantéis anteriores. Os constantes negócios no mercado argentino sucederam aos constantes negócios no mercado brasileiros. Agentes, intermediários e comissões pelo meio, o FC Porto tornou-se numa ponte suspeita de negócios pouco claros. Que se repercutiram na performance desportiva, apesar dos quatro titulos consecutivos logrados.

 

Ignorar o passado de Pinto da Costa é uma injustiça que a história não deixará cometer. Mas a era do presidente está no seu final. Hoje em dia é dificil olhar para Pinto da Costa e ver que tem ainda algo de especial para oferecer ao clube. O facto de ao longo da sua carreira presidencial ter afastado sucessivamente os eventuais sucessores (excepto Teles Roxo, tristemente desaparecido quando parecia ter o perfil ideal para suceder a Pinto da Costa em poucos anos) faz com que hoje exista um oásis. Haverá certamente vários nomes de continuidade, mas isso seria simplesmente mudar os rostos. Não as politicas. Não a estrutura. É urgente que surja uma força politica sólida alternativa à existente actualmente. Lembramos o caso do Barcelona, que viveu com Josep Lluis Nuñez uma era de glória mas que caminhou para o seu final de forma inglória, especialmente quando um grupo de sócios formaram o grupo Elefant Blau, e se prepararam para terminar com essa particular era. Grupo de onde saiu o actual presidente, Joan Laporta, que é ainda aquele que tem o melhor registo de titulos conquistados. No Porto há esse medo de não haver clube para lá de Pinto da Costa. Os mais velhos lembram-se dos anos onde pululavam figuras polémicas como Nascimento Cordeiro. Os mais novos nasceram já sob os designios reais de Pinto da Costa. E o medo do desconhecido pode sempre mais. Mas no clube mais titulado do futebol português é preciso olhar para lá do horizonte e perceber que mais dois anos da mesma política - numa era onde o clube vive uma clara encruzilhada - pode ser prejudicial.

 

Um dos méritos dos grandes homens é saber retirar-se quando chega a sua hora. A morte trata de impedir que uns se eternizem nos seus postos. Outros são forçados a sair pelo meio. Saber a hora de saída com antecipação é algo ao alcance de muito poucos. Mais dois anos podem significar que Pinto da Costa perderá esse timing certo. Com consequências imprevisiveis, para ele e para a instituição. Afinal, largos dias poderão ter dois anos que ainda não estão escritos nas estrelas que iluminam o inesquecível luar da cidade Invicta.

 


Categorias: , ,

Miguel Lourenço Pereira às 16:15 | link do post

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
Só espero que os Merengues consigam levar a melhor...
O Universo do Desporto é um projeto com quase cinc...
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO