Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

É quase paradoxal que a época mais dourada da história do Futebol Clube do Porto (que se vem arrastando há quase três décadas), tenha ocorrido ao mesmo tempo que vivemos praticamente o fim do futebol na cidade do Porto. Para lá dos dragões, está claro!

 
A Invicta sempre foi um dos pólos nucleares do futebol nacional. Nunca chegou a ter o impacto da capital, onde SL Benfica e Sporting disputaram, até meados dos anos 70, a primazia do futebol a nível nacional, mas a verdade é que a partir dessa mesma década tanto o Boavista como o Salgueiros se afirmaram como habitues dos principais palcos nacionais. Com Pedroto e Valentim Loureiro o Bessa tornou-se num forte quase inexpugnável enquanto que a “Alma Salgueirista”, alimentada pelo lado mais popular da cidade, mantinha sempre o Salgueiros entre os grandes. Durante quase vinte anos o Porto conseguiu ombrear com Lisboa e a vitória do Boavista no campeonato nacional – numa era onde o FC Porto já era claramente o primeiro clube português dentro e fora de portas – confirmou esse afirmar definitivo do futebol portuense.
 
Mas hoje a Invicta é uma cidade fantasma para o futebol.
 
Envoltos em dividas, escandalos e gestões no mínimo condenáveis por presidentes com muitos anos de casa, Salgueiros, primeiro, e o Boavista agora, rapidamente começaram a sua particular descida aos infernos. Hoje o primeiro já nem existe, pelo menos competindo sobre essa designação. As dívidas e os escândalos forçaram o mítico “salgueiral” a competir nos escalões mais pequenos do futebol distrital com uma nova designação: Salgueiros 08. A equipa, amadora por completo, tenta agora recuperar uma imagem que pertence ao imaginário do futebol português. A sede, um degradante cubiculo onde se acumulam papeis, velhas camisolas usadas e galhardetes do passado, é o espelho desse vazio administrativo, dessa incapacidade de reagir e mostrar que há esperança para o futuro. A pensar assim, pelo menos, não há hoje esse sinal de ressuscitar, qual fénix, esse clube histórico. O velhinho Vidal Pinheiro já não existe. O megalómano estádio novo nunca chegou a ter sequer uma viga. E por aí passeia a “alma”, perdida nas ruas mais escondidas da capital do Norte.
 
Já o Boavista vive uma situação ainda mais dramática. Se o Salgueiros sempre conviveu bem com a sua condição de pequeno (apenas logrou uma presença na Taça UEFA, no longínquo ano de 90/91, eliminado à primeira pelo Caen de Zidane), já o Boavista habituou-se mais ás vitórias. Foi o primeiro campeão do novo século, chegou ás meias-finais da Taça UEFA em 2003 e deixou sempre boa figura nas prestações na Champions League. O Bessa, reconstruído de raiz, tornou-se num dos melhores estádios do país e as panteras eram já, claramente, o quarto grande. Até que chegou o Apito Dourado, as demissões apressadas, os buracos nas contas, a descida de divisão e agora o fantasma do fim. Que um clube que há dez anos quebrava um domínio de cinquenta anos dos três grandes esteja perto do final é sintomático da realidade do futebol português. Que o Porto esteja perto de perder mais um dos seus três clubes, é espelho da pobreza de espírito e de falta de iniciativa que paralizou a “capital do Norte”.
 
O Leixões – outro histórico –, o Rio Ave e o Trofense são clubes dos subúrbios, tal como o Penafiel ou Varzim, outros históricos com muitos anos de I Divisão. Mas o coração da cidade, sem sopro de sangue nas veias, subsiste agora, qual sanguessuga, do sucesso dos dragões. Sem isso hoje o Porto desaparecia do mapa do futebol, como teima em querer fazer o mesmo com quase todas as áreas da sociedade. Mais, a cidade e a sua gente merece algo mais do que um clube simbolo. Merece que ressurjam outros simbolos, defensores de sectores que não se vem representados no colosso azul e branco. O FC Porto é, hoje em dia, o maior clube portugues. Mas isso deveria ser pouco para os portuenses. O destino de Salgueiros e Boavista, no entanto, apenas demonstram resignação. Do futebol portuense e da Invicta. E esta para já continua aí, uma cidade fantasma!


Miguel Lourenço Pereira às 21:23 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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