Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Carlos Queiroz proclama, a quem o quer ouvir, que Portugal é candidata a campeã da Mundo. Se bater a Bósnia, subentende-se. O público português no entanto tem vivido um progressivo afastamento da equipa que na última década de se tornou a "selecção de todos nós". Mas nem sempre foi assim. Houve largos períodos em que a equipa das quinas era apenas mais um pretexto da eterna guerra Norte-Sul. Como a 24 de Setembro de 1979, na estação da Campanhã no Porto. Onde se começou a forjar uma lenda...

 

Às 14h00 desse dia ainda com tons de Verão um comboio vindo de Lisboa pára na estação de Campanhã no Porto. A paragem final é Vigo e a bordo segue a selecção nacional de futebol. Ou melhor, os jogadores dos clubes lisboetas da selecção nacional. À frente da comitiva, Mário Wilson. O "velho capitão" da Académica, internacional nos anos 50, tinha o posto de seleccionador-treinador depois de um largo e polémico mandato de José Maria Pedroto, intercalado com a performance de Juca, antigo técnico de campo do então treinador do FC Porto. O comboio tinha ordem para parar e receber os 9 jogadores dos azuis e brancos que estavam convocados para defrontar a Espanha, no dia seguinte, no estádios dos Balaídos. Pela primeira vez na história havia 9 jogadores dos dragões (e já não "andrades") numa convocatória. E o que parecia motivo de orgulho para o Bicampeão nacional, tornou-se num episódio que iria deixar a nu a clara guerra Norte-Sul que o país desportivo vivia. E que serviria para lançar o mito de Jorge Nuno Pinto da Costa como o elemento nuclear do novo FC Porto.

 

Toda a polémica estava já herdada da etapa de Pedroto como seleccionador nacional.

O técnico de Lamego abandonou o cargo numa era de grandes tumultos desportivos entre a classe de treinadores. Como era também presidente do sindicato, optou por dimitir-se quando entrou em divergência moral com a FPF. O seu mandato como técnico tinha ficado marcado pela reforma definitiva da geração de 66 e o lançamento de novos internacionais. Mas a nível de jogo a equipa não logrou melhor do que três empates com a Inglaterra. A saída do técnico foi colmatada com a entrada de Juca. O "Zé do Boné" achou um ataque pessoal o seu antigo técnico de campo ter ficado com o seu posto e cortou relações com este. Juca durou seis jogos até ser substituido por Mário Wilson. O técnico, antigo rival de Pedroto da época em que este era técnico da Académica capitaneada por Wilson,  aproveitou imediatamente para lançar os primeiros ataques ao rival de sempre, criticando a sua gestão na selecção. Mas a provocação maior estava guardada para Setembro de 1979. A FPF marcou um amigável em Espanha, com visto a preparar a futuro participação na fase de apuramento para o Euro 1980. A uma semana de um decisivo encontro para a Taça dos Campeões Europeus do FC Porto em Milão contra o AC. O clube protestou e mais ainda quando foi divulgada a convocatória. Estavam 9 jogadores elegidos para juntar-se à equipa das Quinas. Algo nunca visto.

 

Pedroto reagiu de imediato, bem ao seu estilo. O técnico portista, que tinha quebrado 19 anos de seca e procurava o inédito Tri nessa época, chamou o seleccionador de "palhaço". Foi imediatamente suspenso por 30 dias em multado em 500 contos. Não contente, voltou à carga e acrescentou que "ao chamar Mário Wilson de palhaço eu certamente não quis ofender a classe dos palhaços, até porque todos sabem que são brancos e não negros, e que mesmo que o sejam têm o hábito de pintar a cara de branco". E pediu um castigo mais de acordo com as suas declarações: 30 anos.

Wilson não respondeu mas deixou antever que esperava os jogadores azuis e brancos às 14h00 na Campanhã. Quando lá chegou deparou-se com Jorge Nuno Pinto da Costa, então director desportivo do conjunto azul e branco. Ao seu lado centenas de adeptos portistas. E nenhum jogador. O clube tinha proibido os atletas de sair de casa e em seu lugar a massa adepta surgia insultando a equipa nacional, o seleccionador e os atletas do eterno rival. À cabeça o director desportivo, mostrando pela primeira vez o seu poder. Meia hora depois o comboio arrancou e seguiu caminho. Sem os jogadores portistas. A equipa azul e branca começou a preparar a eliminatória com o AC Milan. E uma semana depois um empate a zero deixava tudo para a segunda mão na Invicta, onde Pedroto afirmava que uma arbitragem similar seria suficiente. E foi! Uma vitória histórica que ia servir para eliminar os italianos.

 

Estavamos em vésperas do Verão Quente. O FC Porto de Pedroto falharia o Tricampeonato. A guerra com a selecção tinha assustado o então presidente, Américo de Sá, que temia que a atitude dos seus dirigentes dificultasse a sua carreira politica na Assembleia da República, onde era deputado pelo CDS. Exonerou Pinto da Costa do cargo e demitiu Pedroto no final do ano em que a equipa não ganhou nada. Antonio Oliveira e Octávio Machado deixaram o clube e o Verão Quente deixou a nu as fortes clivagens dentro do clube das Antas. Ao velho FC Porto, subserviente, surgia como contraposição um grupo de revolta que começava já a preparar a candidatura presidencial de Pinto da Costa. Que demoraria dois anos a chegar ao posto mais alto, onde se encontra até hoje. Pedroto entretanto passou por Guimarães - depois de recusar um convite de João Rocha, presidente do Sporting - antes de voltar ao banco azul e branco onde não voltou a vencer nenhum titulo, antes de falecer, tristemente, em 1985 vitima de doença prolongada. Mário Wilson viu o seu mandato interromper-se pouco depois, com a selecção a falhar de novo o apuramento para um Europeu. E Portugal, então ainda a lamber as feridas do PREC, passava de uma guerra política a uma nova guerra desportiva. Nasceram as claques organizadas na Invicta, o "Lisboa a arder" em cada festejo nos Aliados. Os adeptos dos clubes de Lisboa uniam-se a cada visita de um clube que tinha deixado de ter medo ao atravessar a ponte D. Maria. Durante os seis anos seguintes o clube das Antas pouco venceu. Mas lançou as bases de um domínio que se prolongaria até hoje. 

 

Naquela tarde de início de Outono quem esteve presente em Campanhã desconfiava que este era mais do que um simples fait-divers. Ali lançou-se o definitivo domínio de Pinto da Costa sob a massa associativa dos dragões e ali começou a desmoronar-se o domínio clubistico dos dois grandes de Lisboa. O nascimento definitivo de uma terceira força a nível social e desportivo tornava-se inevitável. Pela primeira vez desde que o Benfica entrara em guerra com a FPF nos anos 60 que um clube ousava bater o pé à Federação. Começava um confronto ainda hoje não totalmente sanado e que espelha bem o quão frágil pode ser a "equipa de todos nós". 



Miguel Lourenço Pereira às 07:22 | link do post | comentar

3 comentários:
De Pedro Serra a 30 de Outubro de 2009 às 22:49
Acho que não foi exactamente assim. Os jogadores da selecção e Mário Wilson foram de autocarro até Vigo para fintar a "manifestação" portista.
Disseste bem: até hoje...


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Novembro de 2009 às 16:08
Esta é, pelo menos, a informação que tenho.

E sim, efectivamente até hoje nenhum presidente desportivo português nem nenhuma instituiçao desportiva tinha logrado tantos titulos, incluindo um Pentacampeonato, um Tetracampeonato, 2 Taças dos Campeoes, 1 Taça UEFA, 2 Intercontinentais, etc..

Mas todos os mandatos e eras têm, efectivamente, um fim. Resta saber é quando porque, "até hoje" aí estão...

cumprimentos


De Seismilhoesum a 7 de Janeiro de 2015 às 23:21
A sequêncioa dos jogos não foi 1º em Milão, vitória por 1-0 e 2º nas Antas, empate a zero?


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