Os prédios cinzentos e tristes de Alcorcón hoje amanheceram com uma luz especial. A noite foi longa na pequena localidade, 10 kilómetros a sul do centro de Madrid. Afinal, não é todos os dias que se aplica a maior humilhação da história de um clube que tem um orçamento 300 vezes superior. O Alcorconazo volta a colocar a nú toda a podridão do reino de Concha Espina.

Despertar em Madrid e dar uma rápida vista de olhos às capas de jornais será um exercicio dificil para a multidão de merengues que se encaminham para o trabalho. Muitos apanharão a notícia em primeira mão, tão seguros que estavam numa vitória que nem se deram ao trabalho de ouvir o relato do jogo. Mas quem esteve no San Domingo, o pequeno estádio de 3 mil lugares do modestíssimo Alcorcón, já conhece os contornos desta história. Desta história épica, ou cómica, vá-se lá saber em que lado da barricada se acaba. É o tipico David e Golias, com todos os detalhes apimentados de uma humilhação em toda a ordem. O jogo era da Taça do Rei, essa mesma prova que desde 1993 não ganha o Real Madrid. Por algo será, devem pensar os seus adeptos, que já no ano passado sofreram a vergonhosa eliminação do Real Union, um histórico na Segunda B. A mesma divisão onde está este Alcorcón. Uma equipa de uma cidade-dormitório que tem como estrela um sócio de lugar anual no Bernabeu e que até fez a formação no clube. Como tantos outros. Um Alcorcón que apenas ganhou uma em oito vezes o desafio que o opôs ao Real Madrid Castilla, a equipa B dos merengues que disputa a mesma divisão. Um Alcorcon que ontem tinha a lição muito bem estudada.
Ao contrário de Manuel Pellegrini.
O técnico chileno vive um periodo de contestação desde que tomou cargo da equipa. Depois de cinco épocas de bom nível com o Villarreal - que há 10 anos andava na mesma divisão que o Alcorcón - a sua performance no Bernabeu não convence ninguém. Florentino Perez ofereceu-lhe uma equipa com 300 milhões de euros gastos e a base da equipa bicampeã do reinado de Calderon. Material suficiente para bater o pé ao super-Barça, pensavam. Mas exceptuando Cristiano Ronaldo, não há Madrid. Foi o português lesionar-se e a equipa perdeu o norte. Derrota em Sevilla, um rival directo. Derrota com o Milan, em casa, com o jogo controlado. Empate no modesto Molinon, o terreno do Sporting Gijon. E agora a humilhação completa.
Não foi a tipica derrota de Taça, com muitos juniores e falta de empenho. Estavam praticamente todos os titulares no terreno de jogo. Dudek no lugar de Casillas (como é habitual na prova), Arbeola no posto de Sergio Ramos e Metzelder por Pepe, lesionado. No meio campo saiu Kaka e entrou Guti. No ataque lá estavam Benzema e Raul. De nada lhes valeu. Os amarelos de Alcorcon correram mais. Jogaram mais. E marcaram mais. 4 golos sem resposta. 4 golos inquestionáveis e que podiam ter sido bastante mais, não fosse a habilidade de Dudek evitar males maiores. Borja e Ernesto, são os nomes próprios de um colectivo que vive modestamente. Mas que tem o mesmo direito a sonhar. E há sonhos que se tornam realidade.

A falta de interesse dos grandes na Taça já vem de há muito e por isso a Federação espanhola instaurou um sistema a duas mãos, de forma a evitar eliminações prematuras dos grandes face aos mais modestos. A tipica injustiça do futebol espanhol. Por isso o Real Madrid ainda não está eliminado. Mas quase. Curioso é que o Villarreal de Pellegrini viveu uma situação similar na época passada. 5-0 diante do Poli Ejido, outro da Segunda B. E nem o segundo jogo lhes valeu. Como ao Madrid contra o Union. No Bernabeu os merengues acreditam que podem dar a volta, especialmente se já está Cristiano. Quem ainda não sabe se vai estar no banco é Pellegrini. A contestação é muita mas alternativas há poucas. Perez gastou muito e quer retorno imediato. Valdano não quer voltar a um banco maldito. E os nomes tardam em tornar-se em colectivo. Vem aí um derby, um jogo chave em Milão e a contagem decrescente para o confronto com o Barcelona já começa. Os adeptos rezam pelo rápido regresso de CR9. O extremo consegue, pela sua ausência, ganhar contornos cada vez mais decisivos neste Real Madrid. Porque ningum outro jogador conseguiu pegar na equipa na sua ausência. E porque o nível de profissionalidade que se lhe questionava, começa a contestar-se agora nos restantes elementos do plantel.

Para muitos esta derrota é apenas um fait-divers de uma época longa. Nem significa uma eliminação, nem deixará de ser uma anedocta no final do ano. Uma para os livros. Mas deixa a nu todos os problemas de uma equipa que tenta repetir a era dos Galácticos e que recai nos mesmos erros do passado. Obcecada com uma final da Champions no Bernabeu, paralizada pelo o estilo de jogo atractivo do eterno rival, a direcção do Real Madrid tentou com nomes tapar os buracos do colectivo. Mas nem os milhões gastos conseguem mudar uma situação critica. Abandonando uma vez mais a cantera - quando os seus melhores jogadores jovens brilham noutras equipas - e vivendo uma vez mais do marketing, ao clube da capital resta-lhe o espirito guerreiro de Cristiano Ronaldo para dar a volta por cima. No final ainda pode ganhar tudo. Mas há noites que não se esquecem nunca. Esta ainda se celebra pelas ruas de Alcorcon...

