É provavelmente o melhor ponta de lança do futebol europeu actual. E o baluarte do mitico Liverpool. Estava lesionado e ninguém acreditava que iria jogar no derby contra o Manchester United. Mas jogou. E inventou um golo do nada salvando assim o emprego ao seu mentor. Nem as dores conseguem travar Fernando Torres, a grande estrela da Premier League.

Só no autocarro a caminho de Anfield soube Torres que ia jogar. Benitez duvidou até ao final mas, como ele próprio confirmou, ter um Fernando Torres a 80% vale muito mais que ter outro jogador a 100%. E assim foi. O avançado madrileño fez um jogo de esforço. Calcorreou o ataque do Pool e dispôs de várias ocasiões. Com apertada marcação de Ferdinand soube criar espaços para os companheiros lançarem os dardos envenenados. Mas nada parecia capaz de bater van der Saar. Até que um lançamento em profundidade de Benayoum descubriu no espaço vazio a corrida do veloz espanhol. Torres dominou a bola com elegância e manteve durante largos metros um ombro a ombro com o possante Ferdinand. Há dois anos atrás provavelmente o central venceria o duelo. Mas não. Torres ganhou posição. Fuzilou. E matou o jogo. O Liverpool batia o eterno rival e Benitez continuava vivo. Com a corda ao pescoço mas bem mais desafogada. Cortesia da sua grande aposta pessoal. Da grande estrela actual da Premier League.

Quando Torres chegou à liga inglesa, chegou rodeado de duvidas.
Se tinha fisico para aguentar o duro futebol inglês. Se era maturo o suficiente. Se conseguiria adaptar-se ao estilo de jogo do Pool. Mil e uma dúvidas que ensombravam a chegada do mais promissor avançado europeu. Depois de anos a levar às costas o Atlético de Madrid, o seu clube de coração, Torres fartou-se. Depois de uma derrota por 6-1 com o Barcelona disse chega. Era o capitão e estava farto de não ter ninguém que o acompanhasse na sinfonia de ataque do Manzanares. De Inglaterra Benitez ouviu os suspiros e forçou a sua compra. Prometeu um goleador. Os adeptos franziam o olho ao Niño. Hoje têm-no como um idolo, ao nível de Owen, Rush, Keegan e Toshack, esses dianteiros endiabrados que fizeram história com a camisola dos reds.
No seu primeiro ano Torres explodiu como goleador e levou de novo o Liverpool a lutar pelos postos cimeiros. Mas vivia debaixo da sombra de Cristiano Ronaldo, a estrela da prova. Ficou a uns poucos golos do português, obtendo o melhor registo de estreia de um avançado na Premier. Mas poucos lhe deram importância. No ano seguinte viu-se afectado pelas lesões que lhe custariam muitos jogos e golos perdidos. O Liverpool ressentiu-se e o titulo ficou mais longe. E Torres provava ser indispensável. Cada vez mais.
Curiosamente o avançado idolatrado em Inglaterra é cada vez mais polémico em Espanha.
Na selecção sempre viveu sob a sombra de ser considerado como um menino prodigio, num país que ainda idolatra o seu anterior prodigio adolescente, Raul, hoje cada vez mais perto da reforma desportiva. No Euro 2008, em que a selecção espanhol bateu tudo e todos, perdeu o protagonismo para David Villa. Que acabou por se sagrar o goleador da prova. Mas o golo decisivo, na final, foi dele. Um gesto tipico de Torres, um nunca desistir de acreditar que surpreendeu Lahm e Lehman. Um golo à Torres que o país não soube apreciar. Meses depois, com todo o rebuliço à volta do Ballon D´Or, o avançado queixava-se de que em Espanha ninguém o queria. A imprensa de Barcelona apoiava Xavi e Messi. A de Madrid a Casillas. A ele, ninguém. Acabou por conseguir o terceiro posto. Só pelos seus próprios méritos. Soltou palavras imperdoáveis num país que se ama demasiado. Disse que a Premier era superior à Liga. Responderam-lhe da terra dos touros que, quando marcasse pela selecção, teria direito a opinar. Ele que nunca ganhou um trofeu em Espanha. Nem em Inglaterra. Mas que o persegue loucamente.

Hoje em dia há poucos avançados como Fernando Torres. Atlético, possante e rápido, o espanhol é um animal de área que sabe vir buscar jogo quando a equipa não consegue romper as filas. No Liverpool é pouco mais que essencial e pela Espanha, por muito que não lhes entre no goto, é fundamental para atacar o tal Mundial que em Madrid já dão por ganho. Com 25 anos está melhor do que nunca e a caminho de se tornar uma lenda viva em Liverpool. E isto sem ter ganho nada. Imaginemos só o que acontecerá se El Niño, o homem que nem a dor consegue travar, acaba com essa sede de duas décadas. Talvez seja o seu destino!

