Um verdadeiro amante do desporto-rei descobre-se realmente quando consegue deixar de lado a intensa paixão clubística e reconhecer a beleza onde ela é evidente. Este é o dilema que Jorge Jesus apresenta aos adeptos portugueses. Seja qual for a cor ou paixão, é inegável que nos terrenos de jogo lusos há uma equipa que joga como os anjos...e outras que se vão arrastando. O Benfica volta a ser temível, quinze anos depois!

Foi na época de 1993/1994 que se viu a última grande versão das águias. Um titulo épico, pela recuperação na classificação, pela vitória por goleada diante do rival directo. Mas, acima de tudo, pelo notável jogo ofensivo dos comandados de Toni. Quinze anos depois o Benfica regressa às suas origens, ao futebol de puro ataque que o celebrizou durante mais de quarenta anos. E que andava adormecido entre crise e desespero. Hoje nas bancadas da Luz já não ve vêm lágrimas, mãos na cabeça e adeptos desalentados. Esses rostos transferiram-se para os terrenos rivais. Em Alvalade cada jogo é uma tragédia. No Dragão um drama de suspense. Na Luz é uma alegria intensa. Cada passa, cada movimentação ofensiva é seguida com o mesmo entusiasmo que levou um dia o France Football a sequência do ataque benfiquista entre Coluna, Jaime Graça, Simões, José Augusto, Eusébio e Torres, uma simulação futebolistica da capela Sistina.
A equipa de Jorge Jesus ainda não atingiu esse nível. Aliás, é preciso ser justos. A equipa de Jesus beneficia dos últimos 15 anos de desastres, onde o conjunto com mais titulos no palmarés nacional apenas juntou um à galeria. E do fraquíssimo nível dos rivais directos. Se o Sporting adormece qualquer estoico com o seu estilo de passe inconsequente, o tal "futebolzinho" de que falava Pedroto nos anos 70, já o FC Porto desespera pela sua falta de nível e argumentos. Face a estes dois espelhos, é normal que as águias se engrandeçam ainda mais. Mas humilhar Everton e Nacional, duas equipas da Europe League, num espaço de cinco dias é obra. Obra de Jorge Jesus.
O técnico provou já ser capaz de viver às expectativas que ele próprio ajudou a criar.
O seu Benfica é uma tremenda máquina de jogar futebol. As unhas ruídas deram lugar aos constantes saltos da cadeiro. Uma média de 3,7 golos por jogo, uma verdadeira barbaridade numa liga habituada aos 0-0 e aos 1-0...a sofrer. O traça distintivo desta equipa é a ansia pelo golo. Nunca estão satisfeitos. Nunca o pé pisa o travão. Ao quarto golo, uma outra qualquer equipa portuguesa começava o habitual exercicio de contenção e poupança. Na Luz procura-se já o quinto, sexto e afins. E é dessa forma que nascem as goleadas. Não diremos que o Benfica é o único clube em Portugal com arsenal ofensivo para atingir estes números. Mas é o único que os procura. Ver o FC Porto sofrer até ao final num jogo que tinha praticamente controlado e que podia acabar, também ele, em goleada, espelha bem a diferença de atitude e de espirito competitivo. Os dragões fazem de cada encontro um drama kafkiano, entre os desacertos do meio campo e a inoperância ofensiva, passando por um estático Jesualdo no banco. Na Luz respira-se movimentação e dinamismo. O tridente argentino é a palete onde Jesus pinta a sua melhor obra. Um Di Maria endiabrado, um Aimar solto, um Saviola endiabrado, são meio caminho para a vitória. Cardozo limita-se a não falhar e Javi Garcia e Ramires a dar o equilibrio necessário no pressing central. O mérito de Jesus passa por atacar sem descurar em demasia a defesa. O seu Benfica é uma equipa equilibrado em todos os sentidos e que já não treme ao primeiro sobressalto. A lesão de César Peixoto no aquecimento antes seria um drama. Agora é a oportunidade de Fábio Coentrão voltar a mostrar serviço, com três assistências para golo. No Dragão, um fenómeno similar (a lesão de Fucile e a sua substituição por Sapunaru) tornou ainda mais frágil um onze já de si titubeante. As comparções são odiosas, mas inevitáveis. O FC Porto há anos arrasta um estilo de jogo criticamente defensivo. O Benfica voltou a recuperar a sua identidade ofensiva.
O jogo da Luz teve mais casos do que merecia. Dois penaltys mal assinalados, um golo em fora de jogo validado (ao Nacional) e um outro mal anulado (ao Benfica), ensombrecem um espectáculo desportivo de primeiro nível. Porque o Nacional perdeu por goleada, mas perdeu bem. Particularmente na primeira parte. Manuel Machado soube estancar a hemorragia goleadora do Benfica e Ruben Micael continua a perguntar porque ainda está na Choupana e longe das escolhas de Queiroz. Mas a falta de condições fisicas, os riscos necessários e a diferença de nível do sector chave a meio campo ditaram a diferença. Enquanto que no Dragão os madeirenses só perderam quando o árbitro decidem começar a mostrar cartões a torto e a direito, na Luz a equipa mostrou poder dar mais luta. Mas até aí se observa a diferença de atitude deste Benfica para com os rivais. Inevitavelmente, este era um jogo que o Nacional não podia - nem sabia como - ganhar.

Na próximo fim de semana os dois lideres procuram desempatar as contas. Um Braga seguro e mais maturo, mas ainda com fortes problemas de finalização que espelham bem a liga portuguesa. E um Benfica com a confiança em alta e uma armada preparada a esclarecer a questão da liderença de forma definitiva. De longe os dragões esperam o empate que lhes permita encostar. A Liga Sagres aparenta um equilibrio que no terreno de jogo não é real. O jogo na Cidade dos Arcebispos poderá confirmar isso mesmo. E lançar a águia para voos ainda mais altos.

