Na época passada o Hertha de Berlin lutou até às derradeiras jornadas pelo título da Bundesliga. Perdeu o sprint final e acabou no quinto posto. Na vizinha França o Montpellier lutou pelo triunfo na Ligue 2, mas também acabou por soçobrar. Mesmo assim conseguiu a ansiada subida de divisão. Hoje, seis meses depois, os dois históricos clubes vivem situações diametralmente opostas. Em França o Montpellier luta pelo título. Na Alemanha o Hertha caminha solitário no último posto...

Imaginem desfazer a estrutura base de uma equipa. Não ter orçamento para reforços. E ter de viver com as altíssimas expectativas de uma época que correu muito melhor do que o esperado. Foi com esse cenário que se depararam os dirigentes do Hertha de Berlin. Já se podia antecipar que a coisa não ia correr muito bem. E assim foi.
Lucien Favre, o artesão da notável campanha da época passada, destituido sem apelo nem agravo. O novo técnico, Friedheim Funkle, repleto de ideias, não logrou ainda um só triunfo. E com esse cenário desolador o Hertha de Berlin é último numa das ligas mais equilibradas do espectro europeu. Uma só vitória em dez jogos. 23 golos sofridos e apenas 7 apontados. Numeros preocupantes para um conjunto de nível europeu - está no grupo do Sporting na Europe League - que paga cara a política de contenção veraneia que destroçou a base ganhadora do ano passado.
Voronin, o grande avançado ucraniano, voltou a Liverpool contra a própria vontade. Tudo porque em Berlim não havia orçamento que pagasse a sua transferência definitiva. Pantelic (Ajax) e Simunic (Hoffenheim) também deixaram o barco porque a direcção não lhes podia renovar o contrato com os números que acreditavam que mereciam. E com um orçamento de transferência a 0, assim ficou o plantel.
O Hertha não só perde. Joga mal. Sem alma nem critério.
A equipa arrasta-se pelo relvado, sempre sujeita a humilhações como a aplicada pelo recém-promovido Freiburg (0-4). No Olympiastadion de Berlin o desespero dos adeptos é notório. Uma das mais frenéticas massas adeptas da Alemanha, os azuis e brancos não conseguem aceitar a situação desesperada em que vive o conjunto. O medo agora é imitar outros clássicos do futebol germânico como o Kaiserlautern ou Eintracht Frankfurt, que das provas europeias acabaram na II Divisão num só ano. Um cenário imprevisto no inicio de época mas que acaba por ser inevitável quando se destrói uma base de sucesso. Ao contrário do que se vive em Montpellier.

Na solarenga provincia do Herault a alegria é facilmente contagiaso.
Mais ainda se o mitico clube local voltou aos grandes momentos. Algo absolutamente impensável há um ano. O clube azul e laranja militava na Ligue 2 e tinha dificuldades em chegar-se aos postos de promoção. Muito pouco para um clube onde jogaram Bellone, Blanc, Valderrama, Cantona ou Milla. Depois de conseguir a subida de divisão a direcção confiou em Rene Girard, antiga estrela dos Bleus dos anos 80, e o técnico provou que estavam certos. Criou uma onda de optismo à volta da equipa apesar de que o objectivo para este ano era claro: não voltar a cair no poço. Mas como em França nada é realmente o que parece, eis que os ocitânios aí estão, de volta aos lugares cimeiros do futebol gaulês.
A equipa do Montepellier é um deserto de estrelas. Mas um poço de trabalho e dedicação. Com muita juventude e dois sul-americanos letais, o argentino Alberto Costa e o colombiano Victor Montano, o onze de Girard tem espalhado o perfume do seu jogo por todo o hexágono. A equipa esteve perto de liderar a prova, mas um tropeção este fim de semana atirou-a para o quarto posto. A dois do líder, o campeão Girondins Bordeaux. Os criticos acreditam que ao longo do ano o Montpellier vai acabar por cair no esquecimento do meio da tabela. Mas no La Mosson, um dos mais belos estádios franceses, a crença é de que a equipa pode ser a grande surpresa do ano e rivalizar com os eternos adversários, Marseille, Lyon, Toulouse e Bordeaux, a dominante conecção do sul.
Hertha e Montepellier são dois rostos do imeditaismo do futebol. A verdade ontem hoje é mentira. Os alemães têm ainda quase 30 jogos para dar a volta à dramática situação em que se encontram. Os franceses têm quase o mesmo número de desafios para provar que os criticos estão errados, e que têm estofo para lutar até ao final pelos postos de glória. Talvez daqui a uns meses voltemos a olhar pelas tabelas classificativas e tudo esteja na mesma. Ou talvez esteja tudo diferente. Assim é o futebol. Objectivamente imprevisível.

