Qualquer semelhança entre este Benfica e qualquer outra versão de outros temporadas é, definitivamente, pura coincidência. Exibição e resultados históricos, murro na mesa e delírio nas bancadas. A águia regressou às épicas noites europeias e massacrou o Everton. Às portas do seu primeiro grande teste de fogo interno.

A hora (18h00) não convidava muito a enchentes. Mas o público lá respondeu, mais uma vez, mostrando que está em total sintonia com este equipa. Cerca de 45 mil pessoas para testemunhar mais uma jornada europeia. E a equipa não os defraudou. A história do clube encarnado está marcada por grande noites europeias. As goleadas da era de Eusébio, os golos decisivos de Nené e Águas, a vitória diante do Arsenal, o empate em Leverkusen ou a eliminação do Liverpool em pleno Anfield. Mas há muitos anos que os encarnados não viviam uma noite assim. O rival nem convidava a grandes optimismos. Não é a versão perfeitamente oleada da época passada mas era lider de grupo e um dos mais sólidos conjuntos da Premier. Orientada por um dos mais capazes técnicos britânicos, o Everton vinha para ganhar. Saiu humilhado como nunca na sua longa história. 5-0 é um resultado que, a esta altura do campeonato, é cada vez mais improvável. Mas quando Jesus solta o seu circo ofensivo, torna-se inevitável.
Se as debilidades defensivas das águias ficaram a nú na derrota em Atenas - com uma versão muito soft do AEK - a eficácia ofensiva do Benfica ficou comprovada definitivamente diante dos toffees. Os ingleses não contavam com alguns titulares mas apresentavam quase toda a sua artilharia pesada no ataque. O Benfica mostrou o seu melhor rosto. Julio César voltou às redes com Luisão e David Luiz à frente. Pela direita Amorim, pela esquerda Peixoto. A partir daí a orquestra pura e dura. Javi Garcia a pautar o jogo e Ramires a dar velocidade às transições. A conexão sul-americana tratou do resto. Di Maria rasgava pela esquerda, Aimar deslocava-se para o eixo central e Saviola e Cardozo entendiam-se às mil maravilhas. O Everton nem tinha tempo de reagir ao primeiro golpe. Aos 14 minutos El Conejo - mais eficaz na Europa do que na Liga - abriu a contagem com total oportunismo. Jesus pedia mais acutilância mas os ingleses iam aguentando a carga e esboçando, aqui e ali, uma timida reacção. Pouco, muito pouco. Ao intervalo o técnico voltou a provar que é um motivador nato. E lançou as bestas selvagens. Bastaram 15 minutos para fazer história. Cardozo (por duas vezes) e Luisão, ampliaram o marcadora para uns inesperados 4-0. Sem que Moyes tivesse tempo de ajustar as peças. Um vendaval ofensivo que terminou a sete minutos do fim, com Saviola a bisar. O público delirava e lembrava-se de dias que os mais novos nem conhecem e que os mais velhos se cansaram de lembrar depois de anos de tanta mediocridade. Ontem a águia avisou a Europa que estava de volta.

Ao contrário do FC Porto diante do Apoel, os encarnados encaram o jogo com um despeito insultante. Procuram constantemente as linhas ofensivas e não se cansam até ver a bola dentro das redes. Uma acutilância que traz os seus frutos e transforma o ataque encarnado num dos mais concretizadores de toda a Europa. O mérito é todo de Jesus que soube espalhar bem as peças no terreno e sacar delas a máxima produtividade. Javi Garcia, um médio ofensivo de combate, também ajuda na criação. Aimar, um jogador a quem o fisico atraiçoou vezes demais, deambula como um gigante. E a dupla Saviola-Cardozo tem a mesma eficácia da longinqua época gloriosa de Águas e Magnusson. A vitória - aliada à derrota do AEK diante do BATE - lançou os encarnados para a liderança do grupo. O apuramento não está garantido mas bem encaminhado. A equipa mostra-se atrevida e aguenta o ritmo de estar, pela primeira vez em largos anos, activa em três frentes. E mais do que isso, a sintonia criada com os adeptos é superior àquela que conseguiu na época do último titulo nacional. À indiferença dos adeptos no Dragão e ao desespero dos sócios de Alvalade, na Luz respira-se uma tremenda vontade de vencer a jogar bem. Algo raro em Portugal.
Na próxima segunda-feira vem o primeiro teste a doer. Se na Europa o clube mostrou ter nível para ir longe - especialmente se melhorar o aspecto defensivo que continua a dar uns valentes sustos - a nível doméstico o Benfica encontra o primeiro rival "a sério". O Nacional é um claro candidato aos postos europeus e viajar à Madeira é sempre um pesadelo para qualquer equipa. Se a prova for superada a candidatura encarnada ganha ainda mais força. E o que mais surpreende neste conjunto encarnado é o acreditar. E quando alguém acredita que é o melhor de forma tão clara, é díficil de travar.

