Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

 

O futebol é injusto. Uma máxima gasta através do tempo e bem presente na cabeça de qualquer um que esteja apaixonado pelo “beautiful game”. Não se percebe, não se aceita. Mas é inevitável. Mas há injustiças…e há injustiças. As irremediáveis e aquelas que se eternizam no tempo sem que nada, ou ninguém, tome uma decisão. E se para umas coisas a UEFA é rápida a propor e aplicar mão pesada – que o diga o FC Porto – para outras, fazer ouvidos moucos aos gritos clamorosos de injustiça, é marca registada da casa. 

 

Lembro-me bem da mítica final da Champions League de 1999, a noite mágica em Barcelona que marcou a reviravolta nos descontos do Man Utd. Lembro-me particularmente do rosto de Paul Scholes e Roy Keane. Os esteios dos Red Devils durante todo o ano estavam na bancada, de fato e gravata, a ver os companheiros protagonizar uma das noites mais épicas da história deste desporto. Mas não estavam lesionados. Tinham sido admoestados quinze dias antes, no estádio Dell Alpi, onde o Manchester carimbou o apuramento para a grande final. Scholes viria a história devolver-lhe o direito a erguer a taça no relvado o ano transacto. Mas o genial Roy Keane nunca voltou a pisar um palco europeu. O motivo? Acumulação de amarelos nas eliminatórias prévias. Uma situação que se repete – e cada vez mais – nas grandes competições – e que deixou de fora de grandes noites a vários craques. Mas craque ou não craque, algo parece óbvio. A final de uma grande competição, seja a Champions League, Taça UEFA, Europeu, Mundial, …, é o momento alto na vida de um desportista. O culminar muitas vezes de uma longa e angustiosa carreira à espera desses 90 minutos. Privar um jogador, seja uma celebridade ou um simples operário, de estar presente nessa noite, apenas pelo argumento do acumular de cartões nos jogos prévios, é de uma temível injustiça. 

 

Da mesma forma que se limpam os cartões ao passar de uma fase para a outra, a UEFA – e FIFA e todas as demais organizações – necessitam perceber que a final é uma fase à parte. A ultima. A decisiva. O momento mágico. E se estamos a falar de cartões injustos – e aí estamos a entrar na subjectividade – a situação é ainda mais grave. A expulsão no jogo da passada terça feira de David Fletcher, foi, nas palavras do seu treinador, Sir Alex Ferguson, “um drama pessoal”. E é que Fletcher, que não é um craque mediático, tornou-se naquele operário útil a todo o treinador. E que merece muito mais estar em Roma que muitas das vedetas do plantel, que viram, tranquilamente, o jogo no banco. Evra e Rooney estavam igualmente ameaçados. Controlaram-se. Mas saíram antes. Apenas e só por esse maldito cartão que podia cair do céu. Fletcher não teve hipótese. Pode discutir-se o penalti a Cesc, não se pode discutir a injustiça de o deixar de fora da grande final. Ontem, voltamos a ver a mesma história. Entre o Chelsea e o Barcelona havia vários jogadores ameaçados de suspensão. O apuramento, in extremis, do clube catalão, deixou a nu mais uma vez esse calcanhar de Aquiles da legislação actual. Daniel Alves, que fez um dos seus piores jogos desde que chegou ao Barca, levou cedo o amarelo e soube que com ou sem milagre, em Roma estaria na bancada. Do outro lado, Eric Abidal, atrapalhado pela velocidade de Anelka, não teve outro remédio senão fazer falta. Resultado igual ao da véspera. Vermelho, expulsão e adeus glória.
 
Mais do que o aspecto técnico-táctico (Guardiola ficou sem os laterais titulares e terá de adaptar Puyol e jogar com Silvinho, enquanto que Ferguson perde um forte operário no centro do miolo) o que ressalva aqui é a injustiça recorrente. Todos os anos há jogadores que, por essa acumualção de amarelos perdem as grandes noites. Nomes que também marcaram a história pela sua ausencia. No final perde o espectáculo. No final perdemos todos. A começar e a acabar sempre no jogador. E dizer a um homem, que batalhou mil refregas, que um simples cartão, seja pelo motivo que for, o pode afastar da noite da sua vida, é de uma crueldade que não combina em nada com a magia que é a essencia do futebol.


Miguel Lourenço Pereira às 12:27 | link do post | comentar

9 comentários:
De Ricardo L. a 7 de Maio de 2009 às 16:19
No caso do Fletcher, não tinha necesidade de fazer uma entrada daquelas quando o jogo já estava mais do que ganho (a eliminatória estava 4-0 a favor do MU). É bom que os jogadores tenham bem presente nas suas mentes que podem falhar jogos - sejam eles importantes ou não - por acumulação de cartões, de forma a evitar comportamentos selváticos como o do Pepe, p.e.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Maio de 2009 às 16:42
Concordo em absoluto que atitudes como a de Pepe devem ser irradicadas com sanções exemplares. A violencia no futebol é algo a controlar e há entradas e entradas, nisso estamos de acordo.

O que eu aponto, neste caso, é que, da mesma forma que a UEFA ou FIFA permitem "limpar" o cadastro dos jogadores da fase de grupos á fase seguinte a eliminar. Porque entendem (e bem, a meu ver), que estamos a falar de um realidade nova. O que defendo é que as finais sejam vistas do mesmo prisma, tal é a importancia e magnitude do encontro. Fletcher toca na bola antes de tocar em Cesc. É penalti pelo contacto mas é excusada a expulsao. Anelka e Abidal praticamente tropeçam um no outro, e no entanto o posicionamento torna a falta e expulsao inevitaveis. Mas terá sido um acto de violencia. E quantos nao sao os casos de amarelos por protestos, indecisoes polemicas, discussoes sem sentido...enfim, todos sabemos que se um arbitro quer sacar um amarelo, pode faze-lo...como também o pode guardar.

E como acho incorrecto que sejam os arbitros quem se retraiam de dar amarelos a jogadores à beira da suspensao (nao é da sua competencia) cabe a quem legisla abrir a excepçao com relaçao às finais, apenas e só. Já o fizeram antes, podem fazer outra vez. E nao acredito que se o fizerem, que isso degenerará em meias-finais mais violentas. Será uma carga menos na mente de um jogador que assim poderá entregar-se ao jogo por completo.

Cumprimentos


De Ricardo a 7 de Maio de 2009 às 19:43
Uma final é só o seguimento de uma sucessão de jogos da mesma competição e por isso não tem lógica abrir excepções. As finais são para os melhores e os melhores sabem gerir bem a sua condição em campo. Neste caso o Fletcher não tinha necessidade de entrar daquela forma sobre o Adebbayor. Compreendo que apoies a ideia de premiar jogadores que trabalham muito e mercem estar numa final e que se abra essa excepção mas eu sou mais darwinista e acredito que só os melhores devem sobreviver. Com essa medida corrias o risco de os jogadores ficarem demasiados relaxados e aproveitarem-se dessa brecha tornando os jogos em autênticas batalhas campais.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Maio de 2009 às 20:47
Bem sei que a final é esse culminar, mas sob esse ponto de vista - que também é válido - porque se limpam os cadastros quando os clubes ou selecções passam da fase de grupos para as fases a eliminar?

Entendo que a maturidade de um jogador também significa avaliar - como fez bem Rooney por exemplo - como deve actuar sob o fantasma da suspensão, mas continuo a acreditar que para as finais de todas as competições deveria ser aberta a excepão. Ou isso ou eliminar-se qualquer "limpeza" durante uma prova, da mesma forma que passa com as ligas regulares.

Um abraço


De jotas a 7 de Maio de 2009 às 22:34
Meu caro, visito este espaço pela 1ª vez, é com muito gosto que aqui comento e espero voltar, independentemente da diferença da nossas cores clubísticas, afinal, o que seria do futebol se todos fossemos do mesmo clube?
Em relação ao jogo do Chelsea-Barcelona, o que se passou oi um verdadeiro atentado à verdade desportiva, o norueguês que apitou esta partida, nem na nossa liga tinha lugar.
O chelsea merecia e devia estar na final, não está, apenas porque alguém adulterou a verdade do jogo.
Um abraço e apareça no desporto e lazer online


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Maio de 2009 às 14:06
Caro Jotas,

Estou tentado a concordar consigo até porque esta é, seguramente, uma das arbitragens mais patéticas da história da CL. Que o Chelsea foi superior, não há dúvidas, mas como já tinha antes, repetir a mesma final não interessa a ninguém.

Cumprimentos e aí estarei


De Manuel António a 9 de Maio de 2009 às 00:33
E agora, Diego do lado da UEFA também nao joga, ele que foi dos melhores da competição. E que falta não vai fazer ao Bremen... Tal como o Nedved fez na final com o Milan aqui ha uns anos!

Acho que a regra devia ser revista sim, mas apenas na situação da acumulação de amarelos. O vermelho directo castiga uma acção faltosa muito grave e como tal o jogo de suspensão impõe-se. O duplo amarelo também é algo semelhante e que merece mais discussão, mas de facto, apanhar o 5º amarelo em 15 jogos não deveria excluir qualquer jogador da final.

É de facto uma questão que a UEFA já devia ter resolvido há montes de tempo porque só teria a ganhar com isso, os melhores jogadores querem-se sempre nos melhores palcos!


De Ricardo a 11 de Maio de 2009 às 02:40
Depois de ter visto mais atentamente as imagens devo confessar que sou da opinião que se deveria despenalizar Fletcher . Ele só toca na bola e o contacto torna inevitável a queda de Cesc . Contudo, continuo a defender que não se deve limpar cartões por limpar. Se forem justificados por consequência de uma má decisão por parte do árbitro sou a favor, caso contrário os jogadores e os clubes têm que aprender a conviver com as consequências dos seus actos.


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Maio de 2009 às 10:22
Tanto o caso do Fletcher como do Abidal o vermelho parece-me excessivo e resulta mais do posicionamento em campo do que do contacto em si.

Nao teria expulso nenhum e certamente que ao recorrerem, tanto Barça como Man Utd teriam direito a ver reduzida a suspensao.

O caso de Diego confirma a minha teoria, se fosse uma agressao com vermelho directo o jogador estaria excluido, mas limpar cadastro numa final continua a parecer-me uma má táctica da UEFA.

Um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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