Na época passada a dupla presidencial norte-americana Tom Hicks e George Gillet tentaram substituir Rafa Benitez pelo controverso Jurgen Klinsmann. A mitica Kop, bancada habituada a idolatrar os grandes técnicos que deram vida a Anfield Road, inventou um novo cântico: "In Rafa We Trust". Hoje, nas vésperas de defrontar o eterno rival de Manchester, a dúvida instala-se em Merseyside. E Rafa Benitez tem, pela primeira vez, a corda na garganta.

Depois de uma etapa notável ao serviço de Valencia (2 Ligas, 1 Taça UEFA, 1 Taça do Rei), em 2004 o espanhol Rafa Benitez mudou-se de armas e bagagens para Liverpool. A mitica equipa inglesa vivia dias dificeis depois da saída de Gerard Houllier. Uma geração de talentos desaproveitada e muitos problemas financeiros a resolver. A venda do simbolo do clube, Michael Owen, tinha deixado os adeptos furiosos. E todos suspeitavam de um técnico espanhol na exigente Premier League. O ano correu mal na prova doméstica - o clube terminou em quinto, atrás do rival Everton. Mas uma noite inesquecível em Istambul fez de Benitez um idolo para a mítica Kop. Ao intervalo a equipa perdia por 3-0 com o AC Milan na final da Champions. No final acabaria por levar o trofeu para casa. Pela quinta vez na sua história. Graças a Jerzy Dudek, que parou tudo o que pode na marcação de grandes penalidades. Graças ao caracter do capitão Steven Gerrard. E graças ao espirito de Rafa Benitez. Voltava o grande "Pool".
A partir daí Rafa tornou-se no 4 grande para os adeptos depois da mágica tríade Shankly-Paisley-Fagan. A nível doméstico o Liverpool passou de lutar para conseguir participar na Taça UEFA a disputar os primeiros lugares. O técnico foi renovando a equipa e montando um onze à sua medida. Exagerou na armada espanhola que foi incorporando - pelo clube passaram Josemi, Nuñez, Morientes, Reina, Luis Garcia, Arbeola, Xabi Alonso, Riera e Torres - e apesar de exibir-se a bom nível, acabava sempre por falhar o ataque ao titulo. Uma segunda final europeia em 2006 - derrota diante do AC Milan - lançou uma nova etapa. A chegada de uma administração americana azedou as relações com o técnico que fez tudo para trazer Torres desde Madrid. O clube voltou então ao ser melhor e durante duas épocas lutou até às últimas jornadas pelo titulo. Na Europa continuava a mostrar o seu melhor rosto, mas viu-se batido pela efectividade do rival Chelsea. E apesar das saídas de jogadores descontentes. Apesar da falta de atenção à formação local. Apesar da falta de titulos, a Kop continuava a gritar a plenos pulmões "In Rafa We Trust". Até agora.

A derrota no último instante diante do Olympique de Lyon abriu uma ferida que teima em não sarar. O Liverpool leva já cinco derrotas esta época. Na Premier League encontra-se em nono a 7 pontos do lider. O Manchester United. O mesmo conjunto que defronta este fim de semana e que no ano passado derrotou por 4-1. Na Champions a derrota diante dos franceses atirou o Liverpool para o fundo da tabela. A equipa precisa de uma segunda volta perfeita para apurar-se para os Oitavos de Final. E o tempo começa a escassear.
Benitez queixa-se das lesões. Fernando Torres e Steven Gerrard, os jogadores chave da equipa, regressaram lesionados da semana internacional. A eles juntam-se Skrtl, Johnsson e Aquilani. O italiano foi contratado para substituir Alonso, mas ainda não disputou um minuto de jogo. O público está impaciante e a direcção espera o momento certo para acabar uma refrega que começou há um ano. Nessa altura os adeptos apoiaram o técnico de tal forma que obrigaram a equipa directiva a voltar atrás. Agora começam a questionar-se. E olham para os números.
Benitez contratou 70 jogadores em 5 anos como treinador. Muitos para a equipa de júniores que logo foram vendidos. Muitos outros passaram ao lado de uma longa carreira em Anfield. De todos estes apenas Reina, Mascherano e Torres se transformaram em peças chave do conjunto. Àparte dos negócios falhados (Keane, Kromkamp, Degen, Leto, Bellamy, Crouch, Josemi, Mark Gonzalez, Morientes) poucos foram os jogadores que se impuseram no onze. Ryan Babel, Dirk Kuyt, Lucas Leiva, Dossena, Insua, Voronin e Benayoum teimam em não mostrar o seu real valor. E o técnico começa a ter de recolher à equipa júnior para tapar buracos.

Os próximos quinze dias serão determinantes para Rafa Benitez. Uma derrota diante do eterno rival ampliará a diferença com o líder a 10 pontos. Em Outubro. Uma "não vitória" em Lyon implica praticamente o adeus à Champions League. E o final da época para um clube que almeja voltar aos títulos. Benitez tem pouquíssima margem de manobra e a ideia de construir-lhe uma estátua às portas de Anfield Road começa a parecer mirabolante para muitos. O seu futuro em Merseyside é cada vez mais negro e a Kop espera impaciante um futuro que muitos temem que se torne ainda mais tenebroso.

