O deslumbrante Barcelona não reluz esta temporada com o mesmo brilho. Continua a contar com a mais artistica armada mundial mas Pep Guardiola tem um desafio imenso à sua frente: reinventar um clube que não se soube preparar ao máximo para um ano histórico.

Depois de ter vencido o histórico Triplete (Champions, Liga e Taça), o Barcelona defronta uma longa época onde todos esperam ainda mais de um dos conjuntos que mais deslumbrou os adeptos na última década. A forma de jogar dos comandados de Pep Guardiola fez escola e tornou-se na referência numero 1 mundial. Os rivais de Madrid viviam sob o fantasma do belo futebol jogado em Camp Nou e nem a armada inglesa, aparentemente invencível, pode contrariar o melhor futebol do Barcelona. Guardiola, um técnico inexperiente que levava apenas um ano a orientar a equipa B do clube blaugrana, surpreendeu tudo e todos com um arrojo que há largos anos não se via. Montou uma equipa tremendamente ofensiva que acentava o seu futebol na máxima "a bola é minha". O controlo de jogo do Barcelona da época transacta chegou a ser avassalador. Ao contrário do mitico Dream Tem de Johan Cruyff, o novo técnico percebeu que marcar golos não é suficiente hoje em dia se não existe uma total coordenação entre os três sectores no terreno. A defesa com Guardiola é extremamente segura e apoia constantemente as transições ofensivas quando com Cruyff era de três homens, frágil e limitava-se a lançar o ataque em profundidade com lançamentos largos de Koeman. O ataque tem por missão exercer a primeira onda de pressão mas também de recuperar posição no terreno para provocar desiquilibrios e dar início a um contra-golpe acente no toque e não no lançamento rápido. E no meio está a virtude, a chave. Coordenação defesa-ataque, toques rápidos, circulação constante e incorporações decisivas. Assim se viu Daniel Alves a fazer todo o lado direito. Gerard Pique a lançar ataques desde o meio campo adversário. Xavi e Iniesta pautar a troca de bola no centro e Messi, Henry e Etoo a desiquilibrar no ataque. Imbatível!

Só que com o arranque de uma nova época o cenário alterou-se subtilmente. Pequenas diferenças que no final podem tornar-se pesadelos.
Por questões internas, Guardiola abdicou de Samuel Etoo. De um avançado móvel, capaz de actuar bem de costas para a baliza e com um imenso faro de golo. Em troca recebeu Zlatan Ibrahimovic, um atleta artista que procura mais a finalização e não actua tão bem em colectivo. A diferença está à vista. Com a mudança desse elemento nuclear, toda a estratégia sofreu um duro revés. Zlatan não recua tanto no terreno para abrir espaços para as rápidas incorporações laterais. O Barça ganha em lances aéreos mas perde no desiquilibrio no terreno.
Da mesma forma, à venda de Etoo juntou-se a saída de Gudjhonsen, elemento polivalente entre o ataque e o centro do terreno. Isto num ano de cinco competições distintas. Um ano em que há CAN - onde estarão Keita e Touré - e Mundial de Clubes em Dezembro. E um ano que faz Henry ligeiramente mais velho...mais lento e mais permeável a lesões. Lesões que minaram a pré-época de Iniesta, um dos elementos mais desiquilibrantes do ano passado. E que tornam o eixo ofensivo quase inofensivo. Em Valencia o Barcelona empatou a 0 muito por culpa da dinamica ofensiva. Se defensivamente a incorporação de Maxwell e Chryginsky ajudaram a consolidar um sector chave (que já tinha Puyol, Alves, Pique, Abidal, Marquez e Milito por recuperar), do meio campo para a frente só chegou Zlatan. E La Masia é brilhante, mas não faz milagres. Hoje em dia Pep Guardiola tem um banco curtíssimo e começa-se a notar. Em Outubro.
O empate com o Valencia e a derrota com o Kazan apenas espelham o que há já um mês se começava a notar. A marcação homem a homem de Malaga e Almeria a Xavi deram a ideia clara de que os técnicos rivais sabem como travar a máquina. Alves está a anos luz da velocidade do ano passado e Henry não consegue desiquilibrar pela esquerda. Messi é um fantasma, um vulto errante e incapaz de deslumbrar como o fez ao largo da última época. Vencerá os trofeus individuais mas há largos meses que ninguém o vê realmente no terreno de jogo. Com tudo isso ao técnico a quem a direcção não deu os nomes pedidos (Suarez, Robinho, Villa, Silva e Mata) não resta outra solução do que lançar Pedro Rodriguez às feras. O jovem canterano cumpre a sua missão e até decidiu a Supertaça Europeia. Mas não faz milagros. E nem Bojan, que tarda em explodir, nem Asulin, Muniesa, Jeffren ou Thiago podem resolver um grave problema estrutural. Ao contrário do Real Madrid, que reforçou bem o onze inicial e manteve um banco de luxo, no Barcelona a manta é curta e os pés estão de fora.

Guardiola não deixou de ser um excelente técnico nem os jogadores pioraram com o defeso. Simplesmente o sistema não funciona tão bem com Zlatan (que até tem sido eficaz) como funcionava com Etoo. E com os jogadores em baixa de forma fisica e psicológica (Iniesta e Henry no primeiro caso, Messi e Alves no segundo) a magia desvanece-se. A direcção deixou a equipa demasiado curta e agora Pep tem apenas uma solução. Começar do zero e reinventar de novo uma equipa maravilhosa. Tem toda a temporada para o lograr mas o peso de ganhar tudo é alto e o preço a pagar por desiludir elevado. Resta saber com quantos ovos a menos sabe Guardiola fazer uma omelete.

