Quando o sorteio da Champions League colocou o Barcelona no mesmo grupo que o Inter de Milão todos enfocaram a eliminatória num duelo entre Guardiola e Mourinho, entre Etoo e a sua antiga equipa. E esqueceram-se do poderio de leste. Se a Ucrânia há muito se confirmou como uma nova potência, que dizer do futebol russo? Duas Taças UEFA em quatro anos e um nível competitivo cada vez mais evidente, o futebol russo é claramente a mais forte alternativa actual às grandes ligas europeias. E ontem o Rubin Kazan provou, uma vez mais, que é perigoso subestimar a armada russa.

Alvalade, Maio de 2005. O Sporting cai, estrepitosamente, aos pés do CSKA Moskow e perde a primeira final da Taça UEFA que disputa. No seu próprio estádio. Os russos celebram o seu primeiro trofeu europeu. Manchester, Maio de 2008. O atrevido Zenith surpreende tudo e todos e arrebata a Taça UEFA aos escoceses do Glasgow Rangers com uma exibição estelar das suas maiores figuras. Dois triunfos europeus que fazem da Rússia a segunda nação com mais vitórias em provas europeias nos últimos cinco anos, apenas superada pelos 4 trofeus espanhois. E mesmo assim as equipas russas continuam a ser olhadas com desprezo.
A recuperação económica russa pode demorar uns meses mas o elevado nível dos salários praticados na liga russa tem garantido um aumento de competetividade na prova. Os grandes jogadores locais demoram cada vez mais em sair dos seus clubes de origem. E cada vez há mais jogadores estrangeiros de nível a chegar à liga. Do leste da Europa - sérvios em particular - e da América do Sul. Longe vão os dias em que as equipas russas se dedicavam a contratar jogadores sem nível. Hoje são equipas bem preparadas tacticamente, com imensos recursos e planteis equilibrados. Lançam jovens promessas, acariciam os seus melhores cracks e seduzem jogadores de ligas aparentemente mais mediáticas. E na Europa começam a fazer cada vez mais estragos. Perguntem ao Manchester United, que diante do Zenith perdeu a Supertaça Europeia. Perguntem ao Barcelona. Que ontem provou o veneno russo.

No jogo do Camp Nou o Barça foi superior. Mas não foi suficiente.
A armada defensiva do conjunto russo esteve impecável. Impediu a fluída circulação de bola do tridente mágico do ataque catalão e travou os lançamentos letais de Xavi desde a origem. Marcou nas poucas oportunidades que teve e não se limitou a defender o resultado. Sempre que tinham a bola, os russos lançavam contra-ataques venenosos que levavam os adeptos blaugrana ao desespero. Foi uma vitória justíssima de um conjunto que só agora se estreia na alta roda. Que atacou menos e teve menos posse de bola. Mas que foi tremendamente eficaz. E que já logrou roubar pontos aos dois favoritos e que aparece como um claro candidato aos Oitavos de Final. Quem diria?
Nem por isso. O conjunto da longinqua estepe russa de Kazan não é só o campeão russo em titulo, algo pouco habitual fora do circulo de Moscovo e St. Petersburg (desde que nasceu a liga pós URSS só o Alania da ponta mais a leste da Rússia conseguiu vencer a liga fora deste duplo eixo urbano). É o actual lider da prova, a par do Spartak Moscow, e tem tudo para revalidar o trofeu. Algo que nenhum conjunto consegue há largos anos numa prova cada vez mais competitiva e que acenta em quatro conjuntos fortíssimos como são Spartak, CSKA, Zenith...e Rubin.
Uma equipa orientada pelo fervoroso Kurban Berdyev (que passa todos os jogos com um rosário na mão) mas que longe do fanatismo religioso, está montada na mais lógica táctica pura. Um fabuloso lateral esquerdo, o argentino Ansaldi, um meio campo fortissimo com Ryazantsev, Dominguez, Semak e Kaleshin e um ataque eficaz sob os designios de Gokdeniz Karadeniz, um turco adorado nas bancadas de Kazan, foram suficientes para trovar o todo poderoso campeão europeu.

O Rubin já tinha vulgarizado o Inter na Rússia e ameaçado o Dynamo em Kiev. Agora tem 4 pontos e receberá os dois rivais directos ao apuramento na longinqua estepe. Só tem de se deslocar a Milão, um terreno cada vez mais acessível. A disciplina táctica russa e as temiveis condições que Barcelona e Dynamo vão encontrar, deixam antever dois duelos temíveis. No final, hoje, há poucos que possam antever que o campeão russo não estará nos 16 finalistas. Num grupo cada vez mais equilibrado o inesperado pode mesmo suceder. Com o pior rosto do Inter e Barcelona a surgir e a intermitência do Dynamo Kiev, a fase pode mesmo terminar com um vencedor surpresa. Uma equipa que hoje, poucos, se atreveriam a desafiar.

