Depois de ter dado um festim aos adeptos diante de um dos mais temiveis adversários do Calcio, o Inter voltou a desiludir na Europa. Já lá vão oito jogos sem vitórias. Um registo negro para um técnico habituado a vencer e que tem na Champions o grande objectivo da época...e da sua carreira. Que se passa Zé?

Tacticamente imperfeitos. Sem velocidade nem garra. Foi assim que se apresentou ontem o Inter diante dos seus adeptos no Giuseppe Meazza. E foi assim que voltou a conceder um empate. É o terceiro consecutivo da prova que, chegada a meio, ainda não viu o conjunto neruazurri celebrar um só triunfo. É muito pouco para um campeão de Itália. Para uma equipa que aposta tudo em voltar às noites gloriosas europeias. A grande obsessão de Moratti. A grande obsessão de José Mourinho. O técnico português cada vez mais se afasta do perfil de vencedor inquestionável que manteve na sua etapa no Porto e em Londres. Nota-se em Mourinho algo diferente desde que chegou a Milão. A sua equipa funciona à base de serviços minimos. Foi assim que arrecadou o titulo - mais sofrido do que se esperava - e foi assim que se apresentou ao futebol europeu. Na fase de grupos da época transacta até sofreu a particular humilhação de perder ante o conjunto cipriota do Anorthosis em casa. Este ano ainda não perdeu. Mas também não ganhou. É assim o Internazionale, uma equipa demasiado morna para assustar. Para cumprir com o que se espera dela.

Data de 22 de Outubro de 2008 a última vitória europeia do Inter. Ontem Mourinho começou logo a sofrer aos 5 minutos de jogo. O Dynamo Kiev já tinha provado que era um osso duro de roer e a eficácia ucraniana ficou mais uma vez comprovada. Para quem tinha ainda dúvidas.
Apesar da rápida reacção a verdade é que os italianos nunca controlaram o encontro e tiveram mais oportunidades em contra do que propriamente a favor. Um excelente passe de Lúcio permitiu a Stankovic bater um precipitado Bogshun mas o próprio central brasileiro acabaria, pouco depois, por devolver a vantagem ao conjunto de Kiev com um auto-golo. Com Etoo perdido entre a defesa ucraniana teve de ser Walter Samuel a colocar o resultado num empate justo e merecido. Para o Dynamo que foi incisivo nos lances ofensivos, brilhantemente orquestrados por Milievsky e competente a defender. E para o Inter que não mereceu, tal como na Rússia, tal como em casa contra o Barcelona, outro resultado. Começa a ser recorrente esta análise e a verdade está à vista. Depois de um plantel herdado, Mourinho teve finalmente a oportunidade de fazer uma equipa à sua medida. É verdade que a lista de jogadores que chegaram não era exactamente igual à lista de jogadores pedidos à direcção, que agora que tem técnico para fazer milagres deixou de ter dinheiro para gastar em estrelas. Mas um grande treinador é aquele que sabe fazer omoletes sem ovos. E Mourinho deveria já ter sido capaz de montar um onze coeso e incisivo, à sua medida.
A defesa continua a acumular erros de palmatória. Ontem foi Lúcio, sempre inseguro quando o central brasileiro era conhecido na Alemanha por ser um muro infranqueável. Ao seu lado Samuel perdeu, claramente, a vitalidade de outros tempos. Maicon apaga-se facilmente e Júlio César não pode parar tudo. No meio campo a confusão é evidente. Stankovic não encontra a sua posição natural e vagueia sem ter alguém que lhe diga onde e como jogar. Ao seu lado a orquestra desafina todos os acordes possíveis e imaginários. Mourinho tem apostado numa formação altamente conservadora, uma especie de 4-3-2-1. E não tem funcionado o eixo de transição. Sem um médio box-to-box como eram Maniche no FC Porto e Lampard no Chelsea, a equipa parte-se facilmente em dois. Sneijder e Stankovic vivem mais de iniciativas individuais do que, propriamente, um sólido jogo colectivo. E atrás de si Muntari, Cambiasso e Zanetti preocupam-se sempre mais em defender do que em criar lances de ataque. Com um conjunto assim é fácil perceber porque é que este Inter adormece mais do que entusiasma.
E claro, se o camaronês Etoo o ano passado era uma fera indomável diante do ataque blaugrana, agora parece um leão domado por qualquer defesa mais sóbria. Não ter colegas com quem jogar também não ajuda e o olhar desesperado do avançado diz tudo. Olha para o banco à procura de auxilio. Mas Mourinho baixa os braços. Uma vez mais.

Com o passar do tempo o técnico português tornou-se cada vez mais conservador. Do arrojado 4-3-3 que o celebrizou no FC Porto passou a um contido 4-4-1-1, que experimentou na etapa final portista e no inicio da carreira inglesa. Em Itália tem sempre priveligiado o sector defensivo. Em demasia. No banco tinha ainda Santon, Vieira, Materazzi e Córdoba. Para atacar apenas Mancini e Suazo. Muito pouco para quem quer ir tão longe. As lesões e suspensões já não explicam tudo. Num jogo em que tinha de vencer, sim ou sim, o técnico nunca arriscou. Agora é último do Grupo da Morte e começa a parecer cada vez mais provável que depois de precoces eliminatórias nos Oitavos de Final, este o Inter pode mesmo acabar por nem se apurar para a próxima fase. Será o principio do fim do Il Speciale?

