Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Apresentada na sede da FIFA a candidatura conjunta de Portugal e Espanha à organização do Mundial de 2018 ou 2022, começa a ficar a nu a frágil posição portuguesa num negócio que só interessa aos espanhóis. 40% dos custos e apenas três, máximo quatro recintos, num certame que cumpre a ambição de Espanha de voltar a albergar uma grande prova internacional. No final Portugal fica com o habitual ar de idiota!

 

Há cinco anos atrás o Euro 2004 conseguiu unir o país à volta de um grande evento desportivo. À parte do mês da prova - onde os portugueses sentiram, pela primeira vez em largos anos, orgulho do seu país - a verdade é que os efeitos do Euro não foram totalmente benéficos. Os chamados grandes enceteram a construção de novos recintos, mas esses eram planos prévios à organização do torneio e realizar-se-iam com ou sem este. Tal como a reformulação do Bessa, D. Afonso Henriques e Municipal de Coimbra. E se exceptuarmos o estádio de Braga, a jóia arquitectónica da coroa, todos os restantes investimentos tornaram-se rapidamente em pesadelos logisticos e financeiros. A ponto que se estude hoje a sua (polémica) destruição. Os gastos do orçamento previsto foram largamente ultrapassados, as contrapartidas financeiras infimas e a balança pendeu para o lado negativo. E como desportivamente o titulo até voou para Atenas, pior cenário ainda.

 

Surgiu então a ideia de utilizar as infra-estruturas e partir para uma nova aventura.

Os tempos de crise não o aconselhavam e depois de descartada uma candidatura olimpica de Lisboa chegou a ideia de um Mundial de Futebol. Só que a exigência da FIFA é superior à da UEFA tal como o leque de rivais. Para o Europeu tinha-se batido a toda poderosa Espanha e a candidatura conjunta de Áustria e Hungria. Para o Mundial haveria projectos vindos dos quatro cantos do Mundo. Mais, a FIFA tem padrões de exigência a nivel de capacidade de recintos superiores ao minimo de 30 000 da UEFA - que foi utilizada em cinco dos recintos. E para as grandes jornadas de fecho e abertura um estádio com capacidade por cima dos 70 mil lugares. Nada assim existe nas fronteiras lusas pelo que a ideia parecia ridicula já à partida. Mas eis que entra Espanha e complica as contas.

 

Desde o Mundial de 1982 - um sucesso desportivo e um desastre logistico - que os espanhois não organizam uma grande prova de selecções. Viram a Alemanha receber um Euro e um Mundial, passando o mesmo com a França e quase com a Itália (falta o previsivel Euro de 2016). Superados por Portugal quando já davam por certo a organização do Euro 2004, em Espanha rapidamente começou uma fortíssima campanha para a organização de um novo Mundial. Só que a candidatura a sós parecia frágil se avançassem outras potências europeias. E como a Inglaterra (que não tem um Mundial desde 1966) e a Rússia (nunca organizou uma grande prova futebolistica) anunciaram cedo o seu interesse em suceder ao Brasil, as contas começavam a sair mal a Angel Villar, Jaime Lissavetsky e todo o exército da federação espanhola. E no entanto, eis que se fez luz. Os votos portugueses - conseguidos através dos "Palops", especialmente a influência brasileira - seriam ideais para garantir uma maioria diante da Commonwealth inglesa ou a esfera de influência russa em África. E nasceu a candidatura ibérica, a súbtil "união de dois povos".

 

Olhando claramente para os números é fácil ver que a Espanha, só, consegue organizar um Mundial de futebol sem problemas.

A candidatura ibérica existe apenas por dois motivos: necessidade de votos e de partilhar gastos. A apresentação da malfadada candidatura na Suiça espelha bem o plano espanhol que a federação portuguesa vê com bons olhos e com a habitual pequenês que caracteriza este país. Aproveitar os recursos existentes, publicitar o nome do país e atrair ainda mais turistas. Contas simples nas mentes pequenas de Madail, Dias e companhia. Esquecem aqui o principal. A figura de idiotas que os portugueses farão caso a candidatura ibérica, essa união tão bela de duas nações tão intimamente unidas, siga em frente.

A FIFA já alertou contra o problema de candidaturas conjuntas ao largo do último ano. Não as pode rejeitar mas não é a aposta ideal. E não o é por questões logisticas e de identidade. Modelo adoptado já por uma vez, e com má experiência, a candidatura conjunta tem sido mais recorrente na Europa. E nos três casos conhecidos até hoje sempre se verificou uma ideia base: 50% dos gastos. 50% dos jogos. 50% do protagonsimo. Só Portugal está disposto a fazer história e abdicar dessa percentagem apenas e só para rentabilizar três estádios (fala-se num quarto, altamente improvável no Algarve) que se rentabilizam a si mesmo porque são os únicos que existiriam se o Euro 2004 não tivesse seguido em frente. Ao estádio do Algarve - zona sudoeste da Peninsula, Espanha pode responder com Huelva, Cádiz e um segundo recinto em Sevilla. Ao estádio de Braga, no Noroeste, há a opção Coruña. Ambas são, claramente, mais rentáveis!

 

Os espanhóis preparam-se para apresentar entre 9 a 13 estádios. Num projecto que varia entre os 12 - minimo - ou 16 recintos no dossier final. E ficarão várias cidades do país vizinho de fora com capacidade logistica, hoteleira e desportiva para fazer parte da organização. Por outro lado Portugal apresenta duas cidades, três estádios e nada mais. Nem jogo de abertura, nem jogo de encerramento, nem grandes encontros. Meia dúzia de encontros sem grande mediatismo. E prometem arcar com 40% dos gastos da organização. Falha-me a matemática. A Madail não, estranhamente. Portugal não tem, claramente, estofo para organizar um Mundial a sós. E não o deve fazer nunca com outro país - inevitavelmente Espanha - por perder em toda a linha. É contra-producente. É inútil. E um péssimo investimento. Em 2022, por exemplo, os estádios construídos para o Euro 2004 terão 20 anos aproximadamente. Uma idade já significativa com todas as alterações a que seriam obrigados. Enquanto isso há vários projectos actuais e para a próxima década de construção de novos estádios em Espanha (Madrid, Bilbao, Valencia, Sevilla, Barcelona, Malaga). São gastos já suportados pelos clubes e municipios, previstos e que não dependem desta organização. Tal como o aspecto logistico e hoteleiro, onde o país vizinho supera de longe os objectivos minimos. De tal forma que os gastos pela parte espanhola serão inferiores aos que teve Portugal em 2004. Só isso já indica o quão beneficiada sai a ideia do país vizinho.

 

Estou completamente contra esta candidatura idiota. Não tenho nada contra o lado espanhol da questão. Aliás, acredito que Espanha pode - e merece - organizar perfeitamente um Mundial de Futebol a sós. O que não posso aceitar é a idiotez dos governantes e dirigentes desportivos nacionais, sempre preparados para vender o nome de Portugal em troca de uns tostões mais no bolso. Uma candidatura que não traz nenhum beneficio a médio e longo prazo não tem sequer que existir. Mas como Portugal é Portugal, os Mundiais, aeroportos e TGV`s continuam a ser os grandes designios nacionais. E nós continuamos a ser os idiotas da Europa. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:41 | link do post | comentar

3 comentários:
De Ricardo a 21 de Outubro de 2009 às 01:02
Madaíl é um cancro que deve ser combatido o mais depressa possível da FPF com anticorpos que garantem que não haja uma recaída. Só um imbecil é que apoiaria esta candidatura. Vendemos-nos e por pouco. Espanha só olha para nós como uma oportunidade de negocio e nada mais, e os portugueses comportam-se como um cão leal que abana a cauda alegremente enquanto esperam por um sinal de aprovação e reconhecimento do seu dono. É nestas alturas em que eu sinto vergonha de ser português.
Venderam-nos o Euro 2004 como o melhor investimento do século na área do desporto em Portugal. Prometeram-nos que com novas infra-estruturas a qualidade do futebol português iria rivalizar com os colossos europeus... a realidade: estádio de Aveiro é alugado para festas de casamentos e os jogos do Beira Mar tem ingressos a 1 euro. Vamos cair noutra esparrela como esta?


De Miguel Lourenço Pereira a 21 de Outubro de 2009 às 16:11
É impressionante o argumento da rentabilização quando os únicos estádios que se podem pagar a si próprios são os unicos que serão utilizados. Que outras instalaçoes se vao rentabilizar? Leiria, Guimaraes, Coimbra, Aveiro, Algarve como campos de treino?

É um prejuizo em toda a linha. Financeira, desportiva e moral. É o país que os portugueses merecem e por isso mesmo o projecto avança sem se ouvir um movimento de indignação. É que o mutismo nacional realmente não merece mais do que Gilberto Madaíl e Laurentino Dias.

um abraço


De Amorim a 27 de Junho de 2010 às 17:38
Estou tambem de acordo que Portugal nao deve embarcar na organizacao de um Mundial com Espanha. Nao entendo a passividade dos Portugueses sobre a questao.


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