A cinco minutos do final da falsa batalha de Montevideo, o portista (emprestado ao Huracan) Mauro Bollati aproveitou um erro defensivo charrua e apontou o golo da vitória histórica da albiceleste. No final do jogo voltamos a ver o lado humano do ex-Dios argentino. Mais do que humano, o lado mais pobre de um homem que não consegue viver com a pressão. E em Dezembro haverá 31 equipas a torcer por defrontar Dieguito e companhia!

"Que la chupen, que la sigan chupando!"...palavras ao nível do talento técnico do actual seleccionador argentino. Minutos antes do arranque do jogo mais de metade da Argentina tinha transformado o seu amor incondicional por um desprezo visceral ao seu Deus pessoal. Durante 20 anos vendeu-se a imagem de Diego Armando Maradona como um super-homem, o herói entre os heróis. Catalogado como o melhor jogador da história, alvo de uma seita religiosa com altar incluída, Maradona era, para os argentinos, um autêntico Dios. E o povo pediu a sua nomeação para seleccionador. Uma equipa nacional sem alma nem espirito, sem rumo nem direcção, onde Lionel Messi se tornava ainda mais num pigmeu. Onde a raça de Tevez era inexistente. Onde as jovens promessas desapareciam e os veteranos voltavam a ganhar protagonismo. Essa foi a selecção que Diego Armando Maradona recebeu há um ano. E finalizado o seu primeiro periodo como técnico, com um polémico apuramento para a África do Sul, é inevitável perceber que a Argentina caminha perigosamente para o precipicio.

80 jogadores convocados num ano. Inúmeros onzes, tácticas inventadas no joelho, combinações únicas de jogadores. Recurso a veteranos com alguns Mundiais nas pernas e uma eterna indecisão técnica á hora de montar um estilo de jogo coerente, eram as principais acusações da imprensa e do publico em geral ao Deus tornado Humano. Aceitando ser seleccionador, Maradona abandonou o seu Olimpo particular - algo que Pelé, por exemplo, nunca quis fazer - e decidiu viver entre os mortais. Não o soube. Nunca o soube!
Não o soube como seleccionador de um dos países com maior tradição futebolistica do Mundo. Não o soube como figura publica e como idolo de mais do que um povo. De toda uma geração de amantes do bom futebol. No terreno de jogo Dieguito foi um extra-terrestre. Provavelmente não foi o melhor futebolista de sempre, mas pode perfeitamente candidatar-se ao titulo sem vergonha. Fez coisas abismais, decidiu jogos, provas e vidas com um golpe de génio constante que só os erros da sua vida privada impediram de o ir mais longe. Como jogador foi divino. Como técnico é deplorável. E o que fez no final do jogo de Montevideo espelha ainda mais o total descontrolo que vai pela sua mente. Maradona não aguentou a pressão de uma eliminação que esteve sempre presente, mas que era facilmente evitável. As constantes indecisões do seleccionador, o mau jogo dos seus craques e a falta de arrojo em campo pregaram mais do que um susto aos argentinos. E só dois golpes de sorte em dois jogos decisivos inclinaram a balança a seu favor. A forma como Diego Maradona se expressou no final do jogo e que repetiu mais tarde, na conferência de imprensa, espelha bem o (pouco) nivel do técnico. Incapaz de falar sobre futebol. Incapaz de orientar uma equipa de futebol, Maradona desprestigiou ontem o futebol. Mais uma vez.

A falta de nível do seleccionador é antiga e vem dos seus tempos de jogador em Can Barça primeiro e mais tarde em Napoles. Não é nova. A falta de talento como técnico também não é novidade porque a sua breve experiência no Boca Juniores já o deixava antever. A junção das duas desonra o belo futebol argentino. Felizmente a albiceleste estará na África do Sul, onde merecem estar todas as grandes selecções. Mas desta feita é mais devido ao demérito de Ecuador, Venezuela, Peru, Colombia e Bolivia do que aos feitos logrados pela celeste. E com este seleccionador, incapaz de montar um colectivo, incapaz de colocar alguém diante de si, a Argentina perde antes de entrar em campo. Em Buenos Aires muito se escreve sobre o fraco nível de Messi e companhia, mas há também cronistas que se atrevem a explorar a dura realidade. O genial jogador não consegue deixar de ser o centro das atenções. Ao contrário dos treinadores que gostam de proteger os jogadores, Maradona gosta de fazer dos seus homens o seu escudo. Mas a máscara cai e todas as 31 selecções apuradas para a África do Sul olharão com bons olhos que a bola Argentina toque nos seus grupos. Se a situação se mantiver inalterável até Junho, se a dupla Billardo-Maradona continuar a gerir a armada argentina, é bastante provável que os adeptos da celeste assistam a um desempenho histórico. E não pelos melhores motivos.
Muitos têm ainda fresca na memoria a precoce eliminação no Japão da Celeste. Faltam nove meses para o Mundial e a repetição desse cenário parece mais provável do que nunca. E enquanto isso Diego Armando Maradona diverte-se com o seu momento de glória. Sem rumo, sem eira nem beira. E a continuar assim, veremos no final quem vai seguir "chupandola", Dieguito!

