1 minuto e 40 segundos foram suficientes. Cristiano Ronaldo é, oficialmente, o mais eficaz estreante com a camisola do Real Madrid. Quatro jornadas sucessivas a marcar, seis golos apontados na liga e ainda mais dois na Champions League. Um registo de goleador para um extremo que recupera a sua melhor forma. E disfarça as deficiências dos merengues...

Enquanto o Barcelona continua a deslumbrar com o seu melhor jogo (que o digam Atletico de Madrid e Racing Santander, destroçados por Xavi, Zlatan, Messi e companhia), o Real Madrid mantem-se na liderança. De forma tremida, mas constante, os madrileños igualam o rival em pontos ao mesmo tempo que assumem a liderança do seu grupo na Champions League cuja final, este ano curiosamente, será no seu Santiago Bernabeu. E tudo isso por culpa de um homem: Cristiano Ronaldo.
Enquanto o técnico Manuel Pellegrini continua à procura de uma identidade e de um fio de jogo, a equipa vai ganhando de forma pouco convincente. Mas eficaz. Os oito golos do extremo português em cinco jogos disputados desiquilibram a balança a favor dos merengues. Como nenhuma outra estrela da constelação de Florentino Perez. Actuando a extremo, falso ponta de lança e até mesmo avançado centro (lado a lado com Higuain), CR9 atirou às urtigas todas as criticas sobre a sua dificuldade de aptação ao futebol espanhol e assina o seu melhor arranque de época de sempre, superando mesmo os números logrados na sua época dourada em Manchester, há precisamente dois anos.
Enquanto Kaká destaca pela sobriedade e Xabi Alonso pela organização (Benzema ainda anda desaparecido) é o português que acapara todas as atenções. E não é para menos. Eficaz na marca de grande penalidade (que em Madrid é rotativa como se viu ontem), na marcação de livres, a jogar de cabeça, a assistir e a finalziar, Ronaldo assume-se como o elemento mais completo do plantel madrileño. Uma equipa que continua com graves deficiências na defesa e que tem aguentado graças ao brilhante trabalho a meio campo de Lass Diarra, o jovem Granero e o renascido Guti (curiosamente o fiel da balança Xabi Alonso, ausente por lesão, não tem sido o mais esclarecido). Mas que se não fosse pelo português continuava no estilo cinzento que marcou a bem sucedida série de vitórias de Juande Ramos. Falta saber como será este Real Madrid com rivais directos (o Villareal foi destroçado, mas a equipa do Submarino Amarelo está em queda livre na tabela e não parece a mesma da era de Pellegrini) na Europa e na liga espanhola. Serão esses jogos a doer que medirão todo o potencial de uma equipa com um plantel invejável, mas que continua sem um onze esclarecido.

No meio de todo o burburinho levantado sobre os milhões que Perez pagou por ele, Cristiano Ronaldo fez o que sabe melhor. Em campo provou a sua rentabilidade desportiva enquanto que fora dele começa a dar receitas extraordinárias nos mercados orientais às depauperadas finanças do clube merengue. Apesar de continuar a ser a habitual sombra de si próprio com a equipa das Quinas - tal como Messi na Argentina - no seu novo clube o português já conquistou o mais sério dos adeptos. A sua arrancada de ontem em Villareal, mal o árbitro apitou para o arranque do jogo, prova a sua total concentração em ser sempre o melhor em campo. A imprensa já lhe exige o Pichichi (prémio ao melhor marcador, classificação que lidera a par de Villa e Messi), o que surpreende face ao arsenal ofensivo de avançados que tem o clube e ao posicionamento táctico de Ronaldo. E se Pellegrini continua realmente sem saber o que fazer com tantos jogadores ofensivos, inventando um sistema de rotação que disfarce a sua falta de decisão, Ronaldo continuará a sofrer em campo. Em cada jogo actua numa posição distinta e com ordens diferentes. Já foi o extremo puro das origens em 4-4-3 (com Raul e Benzema), já apoiou Benzema no ataque num 4-2-3-1 e já dividiu as despesas ofensivas ao lado de Higuain num falso 4-4-2. E em todas as variantes acabou por ser decisivo.
Superado o primeiro mês com o titulo de melhor estreante com a camisola merengue era o incentivo que o jogador precisava. É normal que à medida que Pellegrini vá decidindo o sistema de jogo a adoptar surjam Kaká, Benzema e Xabi Alonso noutra forma. São três jogadores que dependem muito do fio de jogo para posicionar-se, particularmente o brasileiro que ora está só na criação, ora tem um apoio de dois ou três jogadores. Mas aí também está a diferença. Ronaldo não precisa dessa adaptação. Já está a facturar e fazer facturar o clube que quer voltar a levar ao sucesso...e que o pode voltar a levar a ele de novo aos trofeus individuais por que tanto ânsia. Este ano já sabe que não tem hipóteses face ao vendaval blaugrana e com Portugal quase fora do Mundial os prémios do próximo ano estão também hipotecados. Mas CR9 trabalha a longo prazo. E a continuar assim pode mesmo tornar-se no simbolo madridista para a próxima década.

