A grande sensação do início de época foi o Tottenham Hotspurs. O clube londrino conseguiu pela primeira vez em quarenta anos três vitórias consecutivas a abrir a Premier. Mas as derrotas diante de Manchester Utd e Chelsea abrandaram as expectativas à volta de Harry Redknapp. Em San Mames e no Luigi Ferrari a situação é oposta. Vive-se a euforia do regresso em força de dois históricos do futebol europeu.

Quem poderia antever que depois do primeiro mês de provas oficiais em Espanha e Itália, a liderança da prova estivesse em mãos de Athletic Bilbao e Sampdoria. Um feito que não é inédito. Afinal, são dois dos clubes com mais historial do futebol. Mas um cenário que há muitos anos não se via. Uma liderança partilhada, é certo, com rivais de maior potencial, mas que não deixa de dar óptimas indicações sobre equipas com aspirações mas à volta das quais havia muitas, talvez demasiadas, dúvidas. No lado do histórico clube basco pela natureza do seu projecto e os sustos do passado recente. No lado da formação genovesa, pela falta de consistência de uma equipa que vivia à sombra de Antonio Cassano. Cumprida uma primeira - e importante - etapa dos campeoantos europeus, há ainda muitos pontos de interrogação. E nunca se poderá esperar que estas posições sejam as mesmas que encontraremos, digamos, lá pelo Natal. É claro que não. Mas são um sinal positivo de dois projectos em reestruturação que demonstram que o sucesso presente e as glórias passadas são possiveis de conjugar numa equação ganhadora.
Em Espanha o caso do Bilbao é ainda mais curioso. O clube orientado pelo andaluz Joaquin Caparrós - responsável igualmente pela reestruturação do Sevilla que abriu as portas ao sucesso de Juande Ramos - já tinha conseguido o brilharete na época transacta de disputar a final da Taça do Rei. Uma prova da qual era a equipa com mais vitórias (o Barcelona igualou o feito) e que provou que o sangue frio basco continuava bem vivo. Apesar da derrota diante da máquina goleadora de Pep Guardiola, o conjunto deixou boas impressões que contrastavam claramente com a péssima campanhã doméstica que os atirou para a luta pela sobrevivência. No arranque do novo ano a tremideira na pré-eliminatória da Europe League deixou no ar muitas dúvidas. Mas Lezama e uma nova vaga de talentos - dos consagrados Llorente, Iraola, Susaeta e Amorebiata à promessa Muniain - ao serviço de um técnico conhecido pela sua capacidade de trabalho, começaram a dar frutos. Em quatro jogos na liga espanhola o Bilbao sumou quatro vitórias. É co-lider com os favoritos Real Madrid e Barcelona e na última jornada derrotou o Villareal, um dos candidatos aos primeiros postos. Mais do que isso, o futebol da equipa é mais agradável e fluído do que em anos passados. E a muitos começa a vir à memória a notável época em que o conjunto disputou até ao fim o titulo com o Real Madrid, acabando em segundo posto na liga das Estrelas. Os adeptos do San Mamés sabem que sonhar com a Champions pode ser muito numa liga extremamente competitiva, mas esperam voltar aos postos europeus por direito próprio e afastar fantasmas do passado.

Na portuária cidade de Genova o clima é de maior euforia, até porque, pela primeira vez em largas décadas, os dois clubes da cidade estão em grande forma. O Genoa perdeu dois jogadores chave para o Inter mas vem lançado de uma grande época e quer repetir o feito. Só que neste arranca de campeonato os holofotes estão no histórico rival. A Sampdoria foi das poucas equipas nos últimos trinta anos de Calcio a desafiar os três grandes (AC Milan, Juventus e Inter). Venceu o campeonato em 1991 e disputou no ano seguinte a final da Taça dos Campeões. Era uma geração fantástica a orientada por Sven-Goren Erikson com Mancini, Vialli, Lombardo, Pagliuca e Vierchwood. Hoje a equipa é muito menos ambiciosa. Antonio "Il Talentino" Cassano é a única estrela num plantel repleto de obreiros de génio (Palombo, Volpi) e jovens talentosos (Pieri, Fiorillo, Ziegler, Foti) que combinam muito bem. O conjunto genovês cedeu apenas um empate, contando os restantes jogos por triunfos. Está lado a lado com a poderosa Juventus na liderança da Serie A e depois de ter eliminado o Inter na Taça de Itália do ano passado, este ano tem um projecto mais ambicioso. Jogar no Luigi Ferrari é um terror para qualquer rival e mais ainda quando a equipa está motivada. O projecto da "Samp" não é imediato, mas a baixa de forma de AC Milan e AS Roma abriu à classe média italiana (onde andam também Genoa, Udinese, Napoli, Lazio ou Fiorentina) uma possibilidade de chegar mais longe do que seria esperado. Resta saber que pedalada tem o conjunto genovês que bem pode olhar para o exemplo de outro histórico. Afinal o Napoli no ano passado arrancou de forma demoníaca mas a segunda volta foi um suplício e o clube acabou a meio da tabela.
O sinal dado por Bilbao e Sampdoria pode ser ainda recuperado por outros velhos clássicos. O já citado caso de Redknapp e o seu Tottenham (numa liga cada vez mais equilibrada com a chegada em força do Manchester City) ou do ressuscitar do Bayer Leverkusen na Alemanha são apenas exemplos. Enquanto que há grandes equipas que agonizam nas divisões inferiores (Real Sociedad, Boavista, Newcastle, Nottingham, Leeds, Nantes, Verona), há outros projectos que mostram dar a volta por cima e apresentar trunfos de valor na mesa. Resta ver o que ainda têm guardado nas mangas...

