Enquanto que os arcebispos continuam intratáveis, começam a notar-se cada vez mais as diferenças entre os dois crónicos candidatos ao título. A versão macia, descaracterizada e sem pingo de ambição do FC Porto que se passeou por Braga constrasta com a garra e dinâmica encarnada. O Benfica de Jesus há muito que não apresenta o futebol espectáculo que a pré-época vendeu como de primeiro nível, mas para onde se foi a classe chegou a raça e a inteligência de jogo. Com vitórias sofridas e uma notável eficácia a bola parada também se ganham titulos.

Desenganaram-se os que, lançados pela tipica campanhã de pré-temporada, acreditavam que a Liga Sagres ia ser um passeio para o Benfica do genial Jesus. Genial, segundo ele, e segundo a imprensa que rapidamente tentou fazer do técnico amadorense um fenómeno. Está longe de o ser mas o seu Benfica é claramente distinto às últimas equipas encarnadas. Não só por ter um plantel mais equilibrado e maturo, com opções de nível para a esmagadora maioria dos sectores de jogo. Mas essencialmente pela atitude que demonstram em campo. Se o Benfica de Giovanni Trapattoni, o último técnico que cantou um titulo na Luz, era raçudo mas extremamente defensivo (como não haveria de o ser), a equipa de Jesus é iminentemente ofensiva. E quando a classe individual dos jogadores não resolve, puxa dos galões e entrega-se à raça dos campeões. Exceptuando a goleada ao Vitória de Setubal, este ano ainda não se viu uma equipa realmente espectacular. Mas a eficácia concretizadora - especialmente nas bolas paradas - e o ritmo que o Benfica impõe aos jogos é um trunfo a favor do técnico. Dessa forma as águias vencem (com mais ou menos polémica), convencem e são, nesta altura, a única formação que morde os calcanhares invictos de Domingos Paciência.

Por outro lado há o desanimo e a falta de ambição de um dragão sem chama.
Depois de um jogo muito meritório a meio da semana em Londres - onde houve momentos de óptimo futebol - o FC Porto tinha em Braga o seu primeiro grande teste doméstico. Vencer significava assumir a liderança da prova mas esse cenário nunca esteve realmente em discussão. O Braga impôs o seu futebol, do principio ao fim, benificiou da sorte no golo de Alan mas ficou a queixar-se com razão de um penalty por assinalar a Alvaro Pereira. Mas, mais do que a polémica, foi o bom futebol arsenalista que pautou o ritmo do encontro. Uma equipa rápida, solta e ligeira, capaz de rasgar o onze rigido dos campeões.
Em Braga percebeu-se também que Jesualdo Ferreira tem este ano mais trabalho do que nunca (o que vem em mau momento já que, pela primeira vez, tem também um rival a sério). A forma exibida pela esmagadora maioria do onze portista é de bradar aos céus, um cenário que já vem detrás com o empate com o Paços e a vitória sofrida ante um Nacional diminuido a 9 jogadores. Em Braga o técnico podia apostar em toda a sua artelharia mas a pólvora estava mais que seca. Hulk é a confirmação de todas as suspeitas de que havia ali mais fumo que fogo quando o apelidavam de "Incrível". A defesa esteve constantemente insegura e Bruno Alves parece andar com a cabeça perdida. E quanto ao meio campo, sem Belluschi, é ainda mais um vazio de ideias que o voluntarismo de Meireles e Guarin não consegue esconder. Sumando tudo, voltamos ao início, à má planificação de época, ao défice de opções em sectores chave. E à atitude.
Este FC Porto não tem minimamente uma atitude ganhadora. O jogo é pastelento e os jogadores emaranham-se numa burocracia táctica inexplicável. É um jogo sem um fio condutor, sem um elemento de criação definido que depende mais da permissividade rival do que da iniciativa própria. Ao contrário do SL Benfica, os dragões não assustem em lances estudados, e mostram uma temivel ineficácia diante das redes. Mas se era esse o problema mais grave de outros anos, esta época, sem um elemento com as caracteristicas de Deco ou Lucho, o problema começa mais atrás. Onde o Benfica está mais equilibrado com Ramires-Di Maria-Aimar, o FC Porto é um deserto de ideias. E sem raça.

Uma raça que, sabem os dragões melhor do que ninguém, muitas vezes é suficiente para decidir o titulo. A corrida só agora começou mas já se começam a ver quantos trunfos na manga têm realmente estes candidatos.

