Em campo vinte e dois craques mundiais. Pouco importa. O duelo de génios está fora das quatro linhas. No banco aqueles que são, provavelmente, os dois mais geniais técnicos da actualidade. Os sete anos retumbantes de José Mourinho contra o ano da confirmação de Pep Guardiola, o maior prodigio futebolistico dos últimos anos. Neste duelo estelar, qual jogo de xadrez, as peças anularam-se e voltamos à estaca zero.

Na época passada o Inter passeou-se pelo Calcio sem grandes problemas e teve sempre controlados os seus rivais. Mourinho chegou, viu e venceu (pela terceira vez na sua carreira) e provou que apesar da malapata europeia, continua a ser o treinador mais eficaz e dinâmico do futebol mundial. Do outro lado do Mediterrâneo, ali bem perto, um estreante Guardiola encantava o mundo com o seu futebol de toque rápido, desmarcações endiabradas e golos para todos os gostos e feitios. O Barcelona encantou mais de meio mundo e sagrou-se campeão europeu, espanhol e de tudo o que havia para disputar. Mas o ano passado já lá vai e da memória não vive o futebol. Se Guardiola é o detentor da última Champions (e por conseguinte o técnico amaldiçoado do ano), Mourinho tem uma espinha atravessada. Desde a épica campanhã com o FC Porto que não voltou à final do torneio. Nem com o Chelsea, nem com o Inter. Este ano não se espera menos dele, apesar de ser notório que o campeão italiano ainda está uns furos abaixo da concorrência.
Talvez por ser o técnico que melhor se move no banco - Guardiola monta um onze como ninguém mas a reagir ainda não tem a mesma dinâmica - o técnico português nunca pareceu ontem, no Giuseppe Meazza, verdadeiramente preocupado. Pudera. O seu Inter pode ser cinzento, pode ser pouco explosivo e pode até não jogar com a mesma beleza e fantasia que o rival. Mas mantém a caracteristica número um de Il Speciale: o controlo.
Apesar das imbecilidades hoje publicadas na imprensa espanhola - tipico de jornais que priveligiam sempre o insulto e ultra-nacionalismo face à evidência - que cataloga o português como um técnico mediocre e sem nível e o seu Inter indigno de jogar no mesmo relvado que o campeão europeu, a verdade é que Mourinho já provou mil vezes que há várias formas de ganhar um jogo. E que as domina a todas.
Durante 90 minutos em Milão o jogo foi pontualmente adormecido por Mourinho quando e como ele queria. O Barcelona, fiel ao seu estilo mas ainda orfão de uma referência ofensiva mais dinâmica (falta-lhes um jogador como Etoo - agora na outra banda- e Iniesta na máxima força), tentou trocar rapidamente a bola e lançar dardos envenenados a Julio César. Mas se Xavi foi igual a si próprio, já Messi e Ibrahimovic mostraram-se demasiado perdulários e trapalhões. Henry nem se viu em campo. E a ineficácia ofensiva do Barcelona abriu passo ao jogo que queria Mourinho. Apostando num meio campo claramente de contenção (Zannetti a fechar pela direita, Muntari pela esquerda, e Motta e Sneijder muito longe da área), Mourinho soube tapar os poucos espaços existentes. Quando na posse de bola, longe de tentar constantemente o contra-ataque, o Inter esperava. Motta e Zanetti, essencialmente, foram adormecendo o ritmo endiabrado que queria impor Guardiola. E conseguiram-no.

Os catalães têm sempre mais dificuldades em jogar quando o ritmo imposto não é o seu. A insistir pelo meio - quando a solução estava nas alas - os campeões de Europa deram de caras com um muro tipicamente montado por Mourinho, onde espaço é algo que não existe. E se Etoo e Milito pareciam inofensivos à frente, isso era apenas porque o técnico sabia que nesta altura mais importante é pontuar que arriscar. Criticam Mourinho pela sua postura mas há poucos técnicos tão eficientes como o português. O ano passado a equipa italiana massacrou o Manchester United e então foi Ferguson quem aplicou a fórmula do resultado sobre o jogo. Sem vontade de repetir o erro Mourinho voltou a provar no banco que continua um eximio leitor de jogo. Quando Guardiola, tarde, lançou Iniesta para soltar as feras, e se livrou da lentidão de Henry, o português respondeu com o promissor Santon, que se colocou imediatamente à frente do espanhol, anulando-o por completo como na época passada já tinha feito com Cristiano Ronaldo. De tal forma que Pep nem voltou a mexer no banco - estava atado na teia e continua sem opções alternativas válidas - e foi Mourinho quem espicaçou o rival com Balotelli. Não funcionou, mas mostrou outro ritmo do conjunto italiano, como que a avisar que no Camp Nou a história será diferente.

Se toda a polémica estava à volta do duelo (que nunca existiu) entre Etoo e Zlatan Ibrahimovic e uma possível comemoração contra o seu técnico anterior (mais do camaronês com Guardiola é certo), a verdade é que o Inter-Barcelona de ontem tornou-se claramente um filme de autor. Um ritmo próprio, controlado desde o início onde a genialidade dos jogadores se viu relegada para um segundo plano face ao planteamento táctico dos artistas no banco. Mourinho sabe que a basculação a meio campo necessita um elemento de transição mais eficaz, e Sneijder e Stankovic não o são. Guardiola tem o peso de uma equipa genial em cima e agora terá de replantear a dinâmica ofensiva do seu Barça depois de ter preferido o artista Ibrahimovic (que parece que tem sempre de parar a bola antes de avançar) ao explosivo Etoo. Uma troca que poderá ser decisiva na época dos catalães especialmente se as alternativas são cada vez mais escassas no banco culé.

