Os amantes do jogo bonito olhavam para o encontro com expectativa. Duas das equipas com o futebol ofensivo mais interessante da prova defrontavam-se logo a abrir a competição e não defraudaram, fazendo jus ao espirito que as pauta. O Standard Liege entrou com a euforia de um recém-armado cavaleiro mas neste torneio vale muito o traquejo de um velho combatente como o Arsenal. No final a inocência mostrou o seu charme mas a maturidade deu o golpe final.

Quem estava com os olhos postos no duelo grande da noite ficou certamente surpreendido com as noticias que chegava de Liege. O recém-estreado Standard marcava dois golos de um golpe só. Dez minutos demoníacos que destroçaram por completo a defesa gunner. Não vale aqui a desculpa de que Mannone não é nem o primeiro, nem o segundo guardião do castelo. Os tiros dos comandados de Laszlo Boloni - a fazer um trabalho excepcional na Bélgica - foram letais. Primeiro de Mangala, logo aos dois minutos de jogo. Seco, rápido e letal, como mandam as regras. O segundo foi inventado pelo talento de um jogador que aparece nos grandes momentos, Jovanovic. Levou com ele a defesa do Arsenal, provocou o penalty infantil de Clichy e não teve problemas em converte-lo. Um três em ano que deixava o recém-estreado, o jovem cavaleiro andante do futebol ofensivo, a pisar os profetas maturos do jogo bonito. O Arsenal é, ainda hoje, uma das equipas que melhor joga na Europa. Mas é também dos mais inconstantes. E isso nota-se mal uma ou duas figuras não estão em campo. Ontem eram mais ainda. Van Persie, Arshavin, Almunia eram baixas de vulto. Mas isso não justificava o controlo de jogo absoluto dos belgas, pelos pés do sempre genial Jovanovic, e do polémico Witsel. O conjunto belga estava prestes a vingar-se da maior humilhação sofrida na Europa, há dezasseis anos atrás no mesmo estádio, diante do mesmo rival. Na época tinham sido sete golos sem resposta. Agora a história parecia ser diferente.

Mas como o futebol nem são 90 minutos, nem as primeiras partes acabam aos 45, o cortejo inglês decidiu mostrar aos jovens belgas que este jogo é tudo menos a brincar aos cavaleiros andantes. Lançamento rápido, bola nos pés de um gigante dinamarquês e tiro seco. Bendtner pois claro. E Wenger mais tranquilo. Como a frescura que se escapa a um maratonista, também o conjunto de Liege chegou à segunda parte tocado, ferido no orgulho. E sem aquele traquejo necessário para dar um golpe de efeito letal. Já o Arsenal, habituado a perder a jogar bem, provou saber ganhar jogando mal. E com uma mão externa. Livre pela esquerda, bola na área, mão, fora-de-jogo, confusão e golo de...um belga. Vermaelen dispara o empate e cala as bancadas. Perder a inocência desta forma deve doer, mais do que o costume. Mais do que deve alegrar a Eduardo apontar o golpe decisivo. Depois de uma larga lesão, depois de uma suspensão de dois jogos revogada, o brasileiro que decidiu tornar-se croata, fuzilou as redes de e disse basta. Estavamos nos minutos finais e na bancada já não havia esperança.

No jogo mais emotivo da jornada, o sensaboroso conjunto de Arsene Wenger levou a paciência dos seus adeptos à exaustão, mas levou para casa o saque. O assalto ao castelo belga funcionou mas deixou a nu todas as fragilidades de uma equipa que se empequenece demasiadas vezes. Frente a outra que só agora está a dar os primeiros passos no mundo dos adultos e precisa de derrotas como esta para aprender que o beautiful game também pode ser bastante agridoce.

