Com a batida dramática e trágica de um tango, a Argentina caminha desastrosamente para um abismo que se começa a tornar dificil de contornar. Já não dependem matematicamente de si próprios e uma derrota em Montevideo, no último jogo, pode até significar a eliminação automática. No meio de tudo isto um falso Deus desespera o ânimo dos homens e, qual teimoso capitão, continua a navegar rumo ao abismo...

Já Nietszche falava sobre a importância do Homem em inventar os seus deuses e semi-deuses, essa necessidade constante de criar entidades superiores, mágicas capazes de triunfar quando todos os outros falham. O cultivo dos Deuses e heróis é tão antigo como o próprio Homem e o futebol, como manifestação cultural por excelência da última centúria, foi pródiga em criar os seus Super-Homens. Mas de todos eles, só um recebeu constantemente o estatuto divino, com direito a Igreja própria e fieis devotos. Um Deus humano, com direito a descida aos infernos da maldita cocaína, que sempre pareceu cómodo no seu papel de divindade pós-moderna, nessa mão marota e nesse olhar traquina e desafiador que levou um povo à loucura. Diego Armando Maradona é Deus para os argentinos. Um Deus poderoso, temivel e invencível. Um Deus que surge quando todas as luzes se apagam, um mito, um ser eterno e imortal. E não há nada pior do que destruir uma ilusão de milhões. Maradona - como qualquer um dos heróis futebolisticos, e não só - é mais Humano do que qualquer um de nós. E aos argentinos coube-lhes descobri-lo da pior forma.
No momento em que aceitou baixar do altar sagrado para descer à túrbia terra que Maradona se arriscou a sofrer na pele o sofrimento que está impedido aos divinos mas que é o pão nosso de cada dia no mundo dos pobres mortais. Aceitar tomar o controlo da selecção celeste foi um desafio para um homem, que não Deus, que sempre gostou de opinar sobre o trabalho alheio mas sem nunca ter dado provas - fora de campo está claro - da eficácia dos seus mandamentos. Ao dar-lhe o comando da selecção a federação argentina (com graves problemas nas mãos face a uma liga totalmente endividade e em grave crise desportiva) quis resolver todos os problemas com um golpe de efeito. Afinal, não era o primeiro ser futebolistico dos relvados que sobe também ao panteão dos herois dos bancos. Mas não foi, o tango desafinou e a dança fez-se de pés trocados. E a Argentina entrou em depressão.

O problema não é apenas a derrota de ontem diante do Paraguai (que confirmou com classe o apuramento para o Mundial, atrás do Brasil). Nem a humilhação imposta pelo escrete canarinho em Rosário onde nunca houve verdadeiramente a esperada batalha. O problema vai mais além. Apesar de estar em quinto posto na classificação (o lugar que leva ao play-off com uma das equipas da fase de qualificação América do Norte) a equipa está diante de todas as possibilidades. Joga com o Peru (que se arrasta na classificação) e com o Uruguai, que segue imediatamente atrás na classificação. Uma derrota em Montevideo pode ser suficiente para afastar a equipa do Mundial, mesmo vencendo os peruanos. Um duplo triunfo significa o apuramento, seja de forma directa (se o Ecuador não vencer os dois jogos) ou a ida ao play-off. Como sucedeu há quinze anos, quando Maradona voltou para pegar na equipa - em campo - e os argentinos eliminaram a Austrália.
Diego Armando Maradona tem um problema mais grave ainda. Ele próprio.
Não mostrou, até hoje, nenhuma aptência como técnico. E muito menos como seleccionador. Não tem um esquema de jogo nem um sistema táctico coerente. Mistura jogadores consagrados com veteranos e jovens promessas numa amalgama sem ordem nem sentido. As lesões podem não ajudar mas é impensável que, de um jogo para o outro, o técnico altere por completo um sector, como sucede regularmente com a defesa e o ataque, onde o sistema táctico prende o talento de Messi de uma forma incompreensível num treinador que foi o primeiro defensor da liberdade táctica da ao argentino no Barcelona. Ao lado de Messi alternam-se Aguero, Tevez e até Lisandro, mas nenhum deles parece coabitar bem com o pequeno astro de Rosário. Mas nem é aí onde está o grave problema. É na defesa - apesar de Maradona fazer questão de referir que as derrotas são sempre obra do acaso e sorte do rival - onde o técnico altera o guardiao (entre Andujar e Romero) e toda a linha defensiva que vive dos já quase reformados Zanetti e Heinze, ou dos desconhecidos centrais do Velez ou Huracan, jogadores sem provas dadas e alguns deles com meia dúzia de encontros como profissionais.

O jogo da Argentina é uma confusão em cada instante. A lição táctica de Dunga deixou a nu as debilidades do conjunto e a derrota diante do Paraguai só acentuou ainda mais a problemática de apostar num treinador que não reage face às adversidades. Apesar de montar mal o onze, Maradona tem um grave problema no banco: é incapaz de mexer na equipa. Dessa forma, se as primeiras partes do conjunto celeste são penosas, as segundas são um drama. Um Mundial sem Argentina não é a mesma coisa, mas os "ches" estão agora a pagar na mesma moeda a exaltação de um falso Deus que os leva até ao precipicio.
Hoje em dia a figura divina de Diego minga a cada derrota que passa e de entidade divina começa a parecer-se a um falso profeta. O antigo número 10 tem dois jogos para evitar uma eliminação histórica, mas mesmo que consiga o apuramento, hoje em dia é fácil perceber que a Argentina é uma presa fácil. A albiceleste pode conseguir o passaporte para o Mundial, mas com Dieguito à frente do leme dificilmente abrirão as águas do mar Vermelho. O mais provável é acabarem afogados nas ondas, por adorar a deuses de barro...

