O povo brasileiro tem um gosto especial pelo insólito. E quando esse insólito se alia com a sua grande paixão, o resultado quase sempre surpreende o mais desprevenido. Alguma vez se imaginaram a disputar um jogo oficial de futebol no centro do mundo? No Brasil isso é possível, basta ir até Macapá e subir ao relvado do Zerão.

O nome oficial do estádio é Estádio Milton Corrêa - um antigo governador do estado - e até se começou por chamar Estádio Ayrton Senna, mas os nomes oficiais no Brasil servem de pouco. Um país onde todos se conhecem por apelidos, desde o Presidente aos mais celebres desportistas e apresentadores. Os estádios nunca seriam diferentes. O Maracanã, o Morumbi, o Bezerrão...e claro, o Zerão.
A curiosidade que faz deste recinto algo especial é que se encontra exactamente no centro do planeta Terra. Macapá é um pequeno estado brasileiro que faz fronteira com os países a norte. Enclausurado na foz do Amazonas, é das zonas mais pobres e desérticas do imenso Brasil. E tem a particularidade de ser atravessado pela linha do Equador, a mesma que divide o mundo em dois hemisférios. Ora, nem mais nem menos. O Zerão deve precisamente o seu nome ao ponto zero do planeta. E para comemorar o feito a linha de meio campo dá forma à mesma linha imaginária que divide o mundo. Uma equipa arranca o jogo no Hemisfério norte. Outra no Sul. Só no Brasil.
O estádio é também um bom exemplo do Brasil interior e abandonado longe das grandes metrópoles. Obra do governador local, o estádio foi inaugurado em 1990 para provar o seu poder politico na zona. O governador é também presidente do clube da cidade. Mas numa terra pequena e sem meios, o Zerão, apesar do nome imponente, não deixa de exemplificar o seu espirito de abandono. Tem apenas uma bancada com 5 mil lugares, rodeado de um imenso vazio. Mais, os holofotes, estão apontados para a bancada principal, em vez de iluminarem o campo. Como nunca funcionaram bem, não houve problema. Apesar da pompa e circunstância da inauguração, hoje o Zerão vive em estado de abandono. As equipas da zona que o utilizam disputam os campeonatos regionais do Brasil e não há a minima hipótese do recinto encher com uma grande equipa do Rio ou de S. Paulo. Mas quando surgiu foi um fenomeno de popularide. O capitão de equipa do Amapá Clube gostava de dizer que preferia começar o jogo no Hemisfério Norte, onde se sentia "mais civilizado" e terminar no sul, onde "é preciso ter raça para aguentar a vida". Claro que o espaço fisico é o mesmo. Mas a ilusão de um grupo de pessoas que acredita estar no coração do planeta é mágica.

No primeiro jogo oficial o Independente de Amapá venceu por 1-0 o Trem. Começou o jogo no hemisfério norte onde apontou o golo inaugural. Sofreu na segunda parte no hemisfério sul mas aguentou-se bem e venceu. Foi o único encontro do estádio que passou na televisão. Simplesmente não havia condições para emissões com qualidade. Hoje o Brasil prepara-se para receber o seu segundo Mundial. Durante os anos 70 e 80 o governo ditatorial que governou o país investiu milhões a construir estádio imensos no meio do nada que provassem o poder do governo central. Hoje esses estádios estão a cair aos pedaços. Os próprios templos sagrados do Rio e São Paulo não têm as condições minimas para albergar jogos de gabarito mundial. Pelé, no seu estilo de arauto incómodo, avisou já que os 14 estádios aprovados pela FIFA precisam de muitas obras para estarem prontos para receber o Mundial. Mas o país não tem dinheiro para investir, os clubes vivem na bancarrota e num dos países mais corruptos do mundo há pouca gente que esteja disposta a realizar os investimentos de vulto necessários. Mais, os estádios estão vazios. A liga é um caos e os clubes perdem anualmente dezenas de jogadores para a Europa, Ásia e América do Norte. O futebol, amor número um do brasileiro, está ferido de morte e tem agora meia década para sarar as feridas e apresentar o espectáculo que o mundo espera ver da nação que inventou o jogo-bonito.
Quando arrancar a prova em Junho de 2014 todos acreditam que os problemas serão resolvidos e o mundo esquecerá a crua realidade por um mês. Mas quando tudo terminar o Zerão continuará ali, no centro do mundo, abandonado à sua sorte e repleto de misticismo e ilusão.

