A história do futebol teima em cultivar o seu pequeno grupo de injustiçados. Numa das equipas mais completas que já viram a luz do dia brilhavam uma série de jogadores inigualáveis. Hoje é fácil pegar num artigo e ler sobre o senhorial Baresi, o gentleman Maldini ou a "bailarina" van Basten. Mas quem se lembra bem daquele motor inesquecivel que foi o AC Milan de Arrigo Sacchi sabe que havia um único homem capaz de fazer toda a máquina funcionar: o genial gigante holandês Ruud Gullit.

Durante anos os adeptos rossoneros cultivavam o hábito de ir quinzenalmente apoiar a equipa com uma peruca de cor negra repleta de rastas. Um fenómeno de popularidade que diz bem do impacto que Ruud Gullit teve na sua época como estrela milanista. Hoje só se fala da notável defesa montada por Sacchi ou do genial Marco van Basten. Poucos se lembram do papel chave que tinha Gullit na máquina milanesa. E era verdadeiramente a alma da equipa. A alma, o corpo, a força, o carisma...Gullit era tudo num só jogador. Provavelmente um dos elementos mais completos da história do futebol, foi o primeiro jogador livre em campo, capaz de se desmultiplicar em vários papeis no decorrer do jogo sem baixar de rendimento. Ainda hoje é impossível determinar qual era a sua posição. Avançado? Foi certamente um goleador nato e tinha sempre os olhos postos na baliza. Falso avançado? A sua mobilidade para jogar atrás do ponta de lança permitia-lhe um maior controlo sob o jogo e isso sempre se fez notar. Médio criativo? Deram-lhe a mitica camisola 10 quando chegou a S. Siro para ser o novo regista do Milan, mas a sua força sobrehumana rapidamente o tornou maior do que o papel no terreno que lhe tinham dado. Médio box-to-box? Foi o percursor europeu de um tipo de jogador muito popular nas ilhas britânicas, mas que nunca tinha vingado no continente. Até surgir Gullit os jogadores eram muito mais estáticos. Podiam ser rápidos e habilidosos mas nunca mudavam a sua posição no terreno. Desde Johan Cruyff que não se via um jogador tão solto e livre como o holandês. Gullit era a antitese do futebol de Platini, muito mais cerebral, e Maradona, que jogava com base em explosões pontuais. Gullit estava sempre em combustão.
Começou a carreira muito novo no Harleem aos 16 anos e rapidamente deu o salto para o Feyennord - onde jogou uma época ao lado de Cruyff - mas foi no PSV que destacou rapidamente tornando-se num fenomeno de popularidade na Holanda, muito antes de van Bastan, Rijkaard e companhia. A sua origem caribenha (o pai era um emigrante do Suriname, antiga colonia holandesa) notava-se nos traços mas também na alegria de jogar. Era um elemento em constante sintonia com o público, divertido e provocador, o primeiro de uma escola de pensadores livres em campo. Na Holanda era um entre muitos, mas quando chegou em 1987 a Itália rapidamente fez furor. Hoje em dia é dificil perceber o impacto que causou, mas ele foi o verdeiro elemento revolucionáiro do mitico AC Milan ofensivo de Sacchi. Nas primeiras jornadas Sacchi apostou em colocar Gullit atrás da dupla van Basten-Virdis, mas a lesão do primeiro deu mais liberdade ao poderoso número 10. O holandês liderou a equipa à conquista do primeiro Scudetto em nove anos, com vários golos e assistências decisivas. A ausência do popular van Basten fez dele a figura da equipa e o lider do balneário. O seu impacto foi tal que, mesmo estando o Milan fora da Europa, acabou por ganhar o Ballon D´Or de 1987 à frente de Butrageño, o patrão da Quinta del Buitre, e Paulo Futre que acabara de se sagrar campeão europeu com o FC Porto.

O sucesso retumbante de Gullit foi apenas a primeira etapa na sua inesquecivel carreira. No final do ano a Holanda deslocou-se à RF Alemanha para disputar o Europeu. Era a primeira vez desde 1978 que os holandeses estavam numa prova internacional e não eram os favoritos. Ao lado de van Basten, já recuperado, Rijkaard, Koeman, Kift e Muhren, o gigante holandês liderou a selecção das tulipas treinada pelo mitico Rinus Mitchels. Na fase de grupos venceu Irlanda e Inglaterra tendo caido aos pés da favorita URSS. Nas meias finais duelo com a equipa da casa, a super-favorita Alemanha. Gullit foi o patrão holandês do principio ao fim e desenhou o triunfo confirmado pelo génio de van Basten. Na grande final, num jogo de novo contra a União Soviética, os holandeses tinham o público contra si e poucos apostavam que a equipa pudesse bater Belanov e companhia. Aos 39 minutos o holandês utilizou todo o seu engenho para enganar a defesa e apontar o golo inaugural. Mais uma vez ficou ofuscado pelo golo genial de van Basten mas quem acabou por erguer o único trofeu até hoje conquistado pela selecção laranja foi mesmo o mágico número 10. Era o consagrar de um ano que ainda se iria tornar mais brilhante. Apesar de perder o campeonato para o Napoli de Maradona, Gullit voltou a liderar a equipa na Europa e na final contra o Steaua apontou dois dos 4 golos com que os holandeses venceram o encontro. Antes tinha ficado uma inesquecivel vitória por 5-0 contra o Real Madrid. Um trofeu que a equipa manteria no ano seguinte, às custas do Benfica. Na época seguinte uma lesão grave no joelho manteve-o quase sempre afastado dos relvados e quando chegou o Mundial de Itália a sua condição fisica estava longe de ser a melhor. A Holanda ressentiu-se e não passou dos oitavos de final.
A arrancar os anos 90 Gullit continuava a ser uma das grandes estrelas mundiais. Em Itália logrou mais dois Scudettos pelo AC Milan em 1992 e 1993 mas a derrota nas meias finais da Champions de 1991 contra o Olympique Marseille e a chegada ao banco de Fabio Capello começaram a mexer com a carreira do holandês. O novo técnico preferia outro estilo de jogadores e Gullit passou a maior parte do tempo no banco. No entanto ainda tinha futebol nas pernas como provou no excelente Euro 92, onde levou a Holanda até ás meias finais. Na época seguinte o Milan chegou de novo à final da Champions mas Gullit nem foi convocado. Era o transbordar do copo de água. No final do jogou anunciou ter assinado surpreendentemente com a Sampdoria. Em Genova passou dois anos notáveis ao lado de Mancini cotando-se como um dos melhores do Mundo, precisamente quando outros grandes da sua época aurea, Maradona e van Basten, caíam em desgraça.

Em 1995 saiu do Calcio, onde actuava há já oito anos, para provar sorte como no Chelsea. A equipa londrina vivia então na metade baixa da tabela da Premier e coube ao holandês lançar a base de um projecto que se viria a revelar ganhador. Na época em que os melhores jogadores do Mundo começavam a chegar a Inglaterra (Klinsmman, Ginola, Cantona, Kanchelskis, Asprilla, Bergkamp, Zola entre outros), o veterano mantinha o seu nivel bem alto. A saída de Glenn Holde abriu-lhe as portas do banco e levou-o a dar o primeiro titulo em décadas ao Chelsea, a FA Cup de 1997. Foi o primeiro técnico não britânico a lograr o feito e logo no seu primeiro ano como treinador. No entanto a promissora carreira como técnico não resultou como esperado. Despedido no ano seguinte por divergências com a direcção, as passagens por Newcastle e Feyenoord não foram bem sucedidas. Depois de anos parado tentou relançar a carreira nos L.A. Galaxy mas aí também não teve sucesso. Mas o seu nome e imagem eram já imortais.

