O futebol português viveu ontem uma grande noite europeia como há muito não se via. Duas vitórias, ambas com quatro golos completaram uma semana extremamente positiva para Portugal (com o empate do Sporting) e fizeram esquecer a semana negra que provocou a eliminação de Paços de Ferreira e Braga. No entanto foi também uma noite de emoções mixtas, amarga na Madeira e de reflexão em Lisboa. O futebol português disse presente mas lançou sinais para o futuro.

A euforia encarnada continua bem viva e quem vir a capa dos jornais de hoje pode até pensar que foi dado o primeiro passo para a conquista da Europe League, uma ambição cada vez menos secreta da direcção e staff técnico encarnados. Por um lado é de saludar o espirito encarnado e o positivismo de Jorge Jesus que, mais do que inovações tácticas, parece ter trazido um novo espirito para o clube da águia. Mas a vitória por 4-0 diante dos ucranianos do Vorksa Poltava não foi nunca tão clara como aparenta, olhando a nu para o marcador final. A equipa benfiquista voltou a provar ter um vasto leque de opções (Weldon está a revelar-se uma boa surpresa) no eixo ofensivo e Aimar está a encontrar-se, a pouco e pouco, com o seu estilo de jogo ideal, onde há espaço e tema para pensar. Mas a primeira meia-hora encarnada foi, no minimo, desesperante, com um mutismo ofensivo incrivel e uma permissividade que nem o conjunto da Ucrânia podia antever. Nervosismo que deixa a nu o grande calcanhar de Aquiles deste Benfica, que no papel é um claro candidato mas que tem a inexperiência e a pressão máxima como fantasmas que podem surgir a qualquer momento.
O discurso da euforia defendido por Jesus é positivo mas tem os seus problemas e o primeiro pode passar pelo próprio técnico. Jesus corre o risco de ficar encandilado com o seu próprio sucesso e isso pode passar factura. Mas até lá continua em estado de graça e as águias também, se bem que o golo inaugural nasceu de um alivio quase fortuito de Fábio Coentrão (cada dia melhor) para Cardozo mas que acabou por cair nos pés velozes de Di Maria, o verdadeiro craque deste onze, depois de um ano de amadurecimento. O golpe de efeito que fez desmoronar o castelo de cartas ucraniano confirmou-se no segundo tempo e está claro que só uma hecatombe pode impedir o clube de marcar presença na fase de grupos. A Europa é uma ambição legitima para um clube com o historial do Benfica, mas é também nestas provas que se vê o quão bem sabe sofrer uma equipa que quer ser ganhadora. A todos os niveis.

Na Madeira viveu-se o fenómeno contrário, um dia histórico marcado por uma azia tremenda nos instantes finais que estragaram um conto perfeito. Manuel Machado, muito provavelmente o melhor técnico português da nossa liga, montou um esquema perfeito para neutralizar o todo poderoso Zenith S. Petersburg. O clube que ainda conta com o coração do onze que há dois anos venceu a prova foi surpreendido por um arranque fantástico dos insulares com um Ruben Micael de se lhe tirar o chapéu. Dois golos a abrir pareciam indicar outro final mas a experiência dos russos falou mais alto. O craque Semshov reduziu pouco antes do intervalo e fragilizou o onze madeirense, apenas na sua terceira participação europeia, onde nunca passou uma eliminatória. No reatar do desafio o Nacional deu sinais de vida e ampliou a vantagem mas os erros defensivos pagam-se caro, especialmente a este nivel, e o Zenith voltou a manter a diferença minima que lhe dava alguma tranquilidade para a segunda mão. Fisicamente os insulares começaram a cair e o técnico teve de refrescar o onze mas depois de ver os seus jogadores ampliar o marcador para 4-2 Manuel Machado não soube manter a ordem dos seus comandados.
O Nacional recuou até mais não poder, assustado com a carga do exército russo e estava distante da equipa que tinha começado o encontro. Quase com receio do volume no marcador a equipa abdicou de atacar e inevitavelmente acabou de sofrer nos segundos finais o 4-3. Um resultado triste e injusto para uma equipa tão ambiciosa que jogou sem medo frente a uma das máximas formações do futebol europeu actual. A eliminatória está em discussão mas o clube alvi-negro não pode perder em S. Petersburg por números abaixo dos 5-4, o que, convenhamos, é altamente improvável. Um empate significa fazer história mas a primeira vitória europeia do conjunto mais dinâmico do futebol português dos últimos anos merecia outro desfecho neste regresso às grandes noites europeias do futebol nacional.

Com o campeonato cada vez mais preso ao nono posto do ranking da UEFA (com o 10 mais perto que o 8), seria fulcral repetir o feito na segunda mão e colocar quatro equipas na fase regular das competições europeias. Seria uma licção para os criticos do bota abaixismo e um passo importante para voltar a nivelar o nível dos principais clubes portugueses que, nos últimos anos, privados de duelos de registo na Europa, se vêm cada vez mais presos a uma adaptação ao futebol defensivo e mediocre que se joga na esmagadora maioria dos terrenos nacionais. Equipas como o Braga, na época transacta, e o Nacional, precisam de jogar ao mais alto nivel para dar o salto qualitativo na prova nacional como aconteceu com o Boavista dos anos 90 e onde falhou sempre o Vitória de Guimarães ou Maritimo.

