Apesar do avassalador domínio de um clube nos últimos vinte e cinco anos. Apesar de que um dos clubes está numa grave crise de identidade, perdendo a base de adeptos que foi conquistando ao longo da história. Apesar de que a número mágico dos seis milhões há muito que deixou de ser mito urbano para passar a ser uma ambição impossível. Apesar de tudo o futebol português continua a girar à volta dos chamados Três Grandes. Reportagens, jornais, revistas, transmissões televisivas, dinheiro. Tudo em Portugal gira à volta de FC Porto, SL Benfica e Sporting CP. Não interessa o aspecto desportivo ou financeiro. Nem que uns hoje sejam mais grandes que outros. Nem que haja equipas cada vez mais consolidadas na parte alta da tabela. A Liga Sagres continua a publicitar-se a coisa de três, e a três semanas do arranque da prova chegam as Três Grandes Questões:

O FC Porto vive uma pré-temporada agitada e cheia de sinais para o futuro e uma pertinente primeira questão presente. A venda de dois elementos chave do plantel do Tetracampeonato - os argentinos Lucho Gonzalez e Lisandro Lopez - e da revelação Aly Cissokho permitiram um encaixa na ordem dos 60 milhões de euros, valores a que se acrescentam as vendas definitivas de Paulo Machado, Ibson e os direitos sobre Paulo Assunção. Face a estas receitas extraordinárias - que seguem a tendência dos últimos seis anos e que permitiram nesse periodo aos dragões tornar-se num dos clubes que mais dinheiro viu entrar nos seus cofres - gastaram-se aproximadamente 25 milhões de euros em dez caras novas. Jesualdo Ferreira terá de montar nova equipa do zero, à semelhança do que vem ocorrendo nos últimos anos. O treinador conta com um vazio de poder no balneário (Pedro Emanuel também terminou a carreira e Bruno Alves pode estar de saída) e muitos jovens novos para encontrar um lugar ao sol. O novo FC Porto é também espelho da tendência dos portistas de pescar na América do Sul de fala castelhana. E aí os campeões são argentinos. Quase se pode dizer, ironicamente, que os campeões nacionais podem trocar os calções azuis pelo preto já que se parecem tanto à albi-celeste. São sete os jogadores das pampas no plantel (Farias, Benitez, Tomas Costa, Mark Gonzalez, e as novidades Valeri, Belluschi e Perdiger) quase tantos como os sul-americanos não argentinos (quatro brasileiros - Helton, Maicon, Hulk e Fernando - três uruguaios - Fucile, Alvaro Pereira e Rodriguez - e dois colombianos - Guarin e Falcao). Esta colónia da América do Sul é um problema num clube que tentou contrabalançar o efeito, aportuguesando o balneário com novas caras. É aí onde entram Beto, Miguel Lopes, Nuno Coelho, Varela ou Orlando Sá. No entanto, os jovens portugueses são vistos como promessas e terão mais dificuldades em impor-se num onze ainda pouco lusitano.
A grande questão dos campeões, que procuram o segundo Penta da história, é saber se as bases da equipa campeã se sustêm sem a dupla Licha-Lucho. Enquanto que Alvaro Pereira deu optimas indicações no lado esquerdo da defesa e Maicon, Nuno Coelho e Beto parecem ser boas opções para o eixo defensivo, as principais questões centram-se na linha de meio-campo. Enquanto que Jesualdo Ferreira tem finalmente um plantel para abandonar o 4-3-3 por um 4-2-3-1, a equipa parece continuar a apostar na táctica que tantos bons resultados deu nos últimos anos. Raul Meireles e Fernando são fixos no coração do meio campo com uma vaga aberta para Belluschi, Guarin, Costa e Valeri lutarem. Nas alas há várias soluções, da explosão de Varela, à força de Hulk sem esquecer o jogo vertical de Gonzalez e Rodriguez. Quanto ao lugar de ponta de lança, orfão de Lisandro, os dragões contam com Falcao - com fama de goleador no River Plate - e ainda Orlando e Farias. Apesar das criticas à gestão do FC Porto (a questão do passivo, jogadores emprestados em excesso, mau aproveitamento de marketing e imagem, autismo dentro da própria liga), é indiscutivel que os azuis e brancos são o clube dominante no futebo nacional e arrancam como favoritos em Agosto para celebrarem em Maio (ou antes até, como já se viu há duas temporadas).

A questão número 2 chama-se Sporting Clube de Portugal.
O conjunto lisboeta tem um gravíssimo problema que ainda não soube resolver nos últimos dois anos. Há muito que perdeu a massa associativa histórica ganha com os titulos dos anos 50 e 60 e hoje é claramente o mais "pequeno" dos grandes. A nivel de publico e a nivel financeiro com uma gravíssima crise, resultado dos erros do Plano Roquette que amputaram por completo a ambição desportiva. A participação na última Champions League, apesar de histórica, deixou a nu todas as debilidades do conjunto leonino que, apesar dos quatro segundos postos consecutivos, não ganha uma liga desde 2002. E a verdade é que o conjunto não joga bem, ganha pela minimo e vive do esforço fisico de Moutinho e dos golos de Liedson. Para este ano não se esperam mudanças. No mercado a equipa simplesmente limitou-se a substituir o que perdeu. Saiu Derlei e entrou Caicedo para formar dupla com Liedson, um jogador fisico e explosivo para contra-balançar o oportunismo e técnica do 31. E no meio campo saiu Romagnoli, que nunca vingou no onze de Paulo Bento, e chegou Matias Fernandez, chileno que não deixa saudades em Villareal. Da formação - a salvação leonina nos últimos anos - chegam apenas Andre Marques e Carlos Saleiro, mas estes já há vários anos que actuavam emprestados. Quanto aos últimos a ser promovidos, o clube continua a viver com as birras de Miguel Veloso e a falta de explosão de Adrien e Pereirinha.
O Sporting 2009/2010 é menos candidato ao titulo que nos últimos anos. Um futebol cada vez mais previsivel e pastelento, capaz de adormecer o mais entusiasta e uma manifesta dificuldade em improvisar, fazem do onze leonino um alvo relativamente acessível para equipas mais ambiciosas. O plantel não é grande para quatro frentes abertas e Paulo Bento ainda não provou ter o golpe de génio capaz de dar a volta ás mais complexas contrariedades. Este é o seu ano decisivo.

Por fim chegamos à questão número 3, o eterno drama benfiquista.
Depois de vencer a liga em 2004 - a primeira em dez anos - o clube presidido por Luis Filipe Vieira entrou em fase de auto-destruição. As experiências com Koeman e Quique não funcionaram e agora Rui Costa e o polémico presidente apostam num treinador popular junto da massa associativa e cheio de ambição, mas sem provas dadas. Dando o beneficio da dúvida a Jorge Jesus e ao seu 4-4-2 uma coisa é certa. A qualidade do plantel encarnado melhorou bastante. Apesar da critica habitual aos planteis benfiquistas, a verdade é que as melhoras, de ano para ano, tem sido progressivas porque durante anos o plantel do Benfica era realmente miserável. Este ano voltaram-se a gastar quase 25 milhões de euros (tal como no ano passado sem retorno o que aumenta os problemas financeiros do clube que há muito deixou de ser a referência em Portugal), dois quais 13 foram para os cofres do Real Madrid.
Enquanto que o problema da baliza continua, a defesa continua a ser o calcanhar de aquiles do clube da Luz. Nas laterais, Sepsi e Schaffer não convencem à esquerda enquanto que Patric e Maxi dão boas indicações no lado oposto. No eixo não há jogadores capazes de substituir Luisão, apesar de que Miguel Vitor e Roderick são nomes a seguir. Apostando no 4-4-2, o lado mais recuado do meio campo está entregue a Ramires (com Yebda e Javi Garcia como opções) com Di Maria, Carlos Martins/Ruben Amorim e Aimar no apartado ofensivo. O ataque Cardozo-Saviola parece eficaz e Nuno Gomes, Mantorras e Weldon são opções com caracteristicas distintas e que podem equilibrar a equipa no decorrer do ano.
Mas se o plantel encarnado tem mais soluções este ano do que na temporada passada, Jorge Jesus tem de jogar com as altas expectativas que ele próprio levantou. Em lugar de partir como underdog e aproveitar falhas do conjunto azul e branco, o técnico colocou a fasquia bem alta e não tem margem de manobra. O clube precisa de um titulo grande para justificar os investimentos e a arrogância dos últimos anos, sem quaisquer resultados práticos até hoje. No papel são os grandes rivais do FC Porto. Na prática têm de demonstrar tudo o que têm dito. Porque palavras leva-as o vento..


