Na mágica equipa de artistas de Pep Guardiola vivia um guerreiro indomável que rompia qualquer esquema táctico para mostrar que o instinto também vale no futebol. Na sólida e disciplinada equipa de operários de José Mourinho vivia um mágico que, num golpe de magia, rasgava qualquer sentido lógico pre-determinado. O futebol tem destas coisas. Os protagonistas mudam e enquadram-se em conjuntos desenhados de feição para o seu estilo rebelde e irrequieto. Mas será que não era esse toque de diferença que os fazia tão especiais?

Xavi, Iniesta, Henry, Messi...quatro virtuosos que moldaram o ataque do Tri Barcelona que dominou a temporada passada a seu belo prazer vencendo todas as provas em que participou. Jogadores repletos de talento e magia que montavam um carrousell dinâmico e em constante movimentação. A bola saltava de um lado para o outro do campo e por pura magia acabava inevitavelmente nas redes adversárias. Mas pelo meio andava um corpo estranho, um avançado não dotado especialmente de grande técnica, mas com um apuradissímo sentido de baliza. Por dois golos perdeu Samuel Etoo a Bota de Ouro no seu melhor ano em Can Barça. Depois de Guardiola e Laporta lhe terem mostrado a porta da rua - como a Deco e Ronaldinho - o camaronês assinou o seu melhor ano com golos memoráveis, como o que abriu o triunfo da terceira Champions blaugrana em Roma. Etoo nunca foi o virtuoso de serviço. Era o operário no ataque, egoista frente ao guardião mas com um espirito de sacrificio raro para quem já tinha ganho tudo. Só que o avançado que Guardiola não queria jogava como se fosse o último encontro da sua vida. Num complicado jogo no Camp Nou fugiu às ordens tácticas de Guardiola e num golpe seco deu a volta ao marcador. Ao celebrá-lo correu para o técnico para mostrar que ele também sabia. Pep não o tolerava e não se esquecia. Por muito que fizesse Etoo nunca poderia ficar mais um ano. Ele sabia-o mas queria sair pela porta grande. O braço de ferro durou e poderia ter durado mais. Ele sairía sempre a ganhar. E agora vai para um clube sedento de um guerreiro capaz de fazer a diferença num plantel de pura mediania num futebol onde o seu estilo de jogo tem total cabimento. Resta saber se o seu caracter explosivo não chocará com o rigido homem que o espera tranquilamente no banco.

Na passagem oposta do avião chega mais um mago a Itália. À parte dos milhões de Perez, o Barcelona também contribuiu para fazer da liga espanhola a mais mediática de todas. Roubado o grande craque de França, Inglaterra e as únicas duas estrelas mediáticas de Itália, a liga do país vizinho ganha em nomes. Mas resta saber como provam o seu valor em campo.
Zlatan Ibrahimovic tem muito a provar por inverosímel que pareça. Aos 27 anos o avançado sueco é consensualmente eleito como um dos melhores jogadores do Mundo. Mas tem um registo de triunfos reduzido. À parte dos titulos com Juventus e Inter em Itália, "Ibracadabra" nunca ganhou nada. Nas votações dos melhores do ano sempre ficava a léguas dos primeiros. Pela sua selecção o melhor que conseguiu foi chegar aos Quartos de Final do Euro 2004 e nas provas europeias ficou sempre longe do ceptro máximo. É um craque sedento de titulos e à procura de se afirmar definitivamente no meio de Kaká, Messi ou Cristiano Ronaldo, todos eles já devidamente consagrados. Ao contrário de Etoo, que apesar de insaciável já tinha ganho tudo a dobrar, Ibrahimovic chega quase virgem em titulos. O seu estilo é tão - ou até mais - conflituoso que o do camaronês e Pep Guardiola terá de saber introduzi-lo no seu estilo de jogo. Mas o talento deste gigantesco sueco é tal que se enquadra no papel de forma perfeita numa equipa onde a elegância de Henry, a mestria de Xavi, a irreverência de Iniesta ou a malandrice de Messi são a chave do sucesso. Numa equipa acabada de sair vencedora de todos os combates, nada melhor que a chegada de uma estrela à procura do lado mais cintilante da vida para manter a chama acesa. Era esse o feeling que Guardiola descrevia, uma troca tão inevitável como natural!
PS: Ao mesmo tempo que as capas de jornais de todo o mundo se preparam para anunciar a milionária transferência entre Barcelona e Inter, a letras pequenas anuncia-se que o clube catalão acertou a contratação do jovem brasileiro Keirisson. Já tinhamos escrito sobre o promissor ponta de lança e as primeiras informações indicam que o jovem será emprestado este ano a um clube europeu (talvez o SL Benfica) e só se incorporará no próximo ano ao Barça. Mais uma prova de que o mediatismo nem sempre deixa ver elementos de vital importância na estrutura de um clube, presente e futura, já que assinar contrato com um dos avançados mais pretendidos do Mundo teria de ter um impacto bem mais significativo.

