Apesar dos galácticos e de toda a panóplia mediática, o Real Madrid é mais do que um clube de estrelas. Foi nos últimos anos um clube sem rumo e sem identidade onde se observavam estilos confusos e que muitas vezes chocavam entre si. No coração da equipa, dois elementos nucleares, com duas formas muito distintas de jogar e pensar futebol. Ambos argentinos, representam duas perspectivas do jogo das pampas e resumem bem a velha máxima de que enquanto uns no futebol correm, outros fazem correr.

Fernando Gago e Gonzalo Higuian.
Ambos chegaram a Madrid pela mesma altura, Janeiro de 2007, e eram apresentados pela então direção como o futuro do futebol argentino. Elogiados na terra natal - Higuain nascera em França mas jogava na e pela selecção albiceleste - tanto um como outro precisavam de tempo para se adaptar ao jogo europeu. Custou-lhes. Depois de uns primeiros meses complicados na equipa de Cappello, mostraram-se decisivos, em determinados momentos, para o titulo de Bernd Schuster. Mas sabia a pouco. Com o passar dos meses foi-se percebendo habilmente a problemática do jogo de ambos. Enquanto que um era vertical, apostava em diagonais e na movimentação colectiva à volta da bola, o outro jogava de forma horizontal, tranquila e fazia a equipa correr mais do que o esférico. Duas perspectivas bem distintas que muitas vezes entravam em confronto directo. Enquanto que um corria rápidos sprints, o outro parecia perder o tempo em inuteis maratonas.
Higuain é um desses velozes oportunistas. Falso avançado como o futebol dos tempos modernos tanto gostam, joga bem de costas para a baliza, com o eixo ofensivo, e prefere as movimentações diagonais, a romper, do que ser realmente um bicho de área. Demorou uns bons meses a perceber que o espaço em Espanha e na Argentina se valorizam de forma distinta. Como tantos outros entendeu que a bola na Europa joga mais que no futebol sul-americano, onde os tempos de recuperação são infinitamente superiores. Adaptou-se e hoje em dia é, provavelmente, um dos melhores jogadores da liga espanhola. Abafado pelo efeito mediático de Benzema, Kaká e Cristiano Ronaldo e pelo papel de veterano intocável de Raúl e Guti, há quem diga que Higuain não tem lugar no conjunto merengue. Mas ao olhar para os elementos à disposição de Pellegrini, não há um elemento com as suas caracteristicas, tão desiquilibradoras de forma individual, mas também tão fundamentais quando se analisa o jogo colectivo. Higuain pede a bola no espaço e não no pé. Sabe movimentar-se em sprints rápidos e curtos, devolvendo a bola com igual velocidade acelarando o ritmo do carrousel. É oportunista na área mas é fora dele que melhor controla o ritmo de jogo. O remate colocado é a prova de que mais do que o sentido de oportunidade, Higuain tem um notável sentido do espaço.

No espectro oposto encontramos Fernando Gago. Aí temos o protótipo de argentino que nunca se identificou (e provavelmente nunca se identificará) com o estilo de jogo europeu onde o espaço vale mais quando se desbloqueiam as linhas de passe. Gago é incansável, um verdadeiro guerreiro mas o seu estilo de jogo não se coaduna com a sua posição. Não se pode apelidar o jovem de médio defensivo, até porque sozinho no eixo mais recuado do meio campo é um desastre, perdendo controlo do espaço e dos tempos de recuperação e compensação. É um futebolista ao velho estilo número 6 argentino, que precisa sempre de um apoio ao lado para expraiar o seu futebol. Lento, pausado e tranquilo, o antipoda do jogo de um grande europeu. Ao contrário de Xavi - o maestro em pensar à velocidade da luz o jogo, o maestro dos espaços - o argentino precisa de correr muito para encontrar uma aberta. Com Gago quem corre não é a bola, é toda a equipa em sucessivas movimentações no terreno de jogo de forma a descobrir o que o médio é incapaz de inventar. De Raúl disse um dia Puskas que corria demasiado, de Guti diz-se sempre que é capaz de encontrar uma agulha num palheiro, mas de vinte em vinte jogos. De Gago pode dizer-se que é um marotaniano incansável mas que isso apenas o torna no primeiro responsável no jogo lento e pastelento dos merengues.
Sem laterais ofensivos, sem um criativo rápido como Xavi ou Inesta - resta ver como se adaptará Kaká - uma equipa do nivel do Real Madrid precisa de alguém com a mentalidade de Higuain, rápido no terreno e capaz de explorar a velocidade do espaço. Cristiano Ronaldo tem essa capacidade - e as aberturas geniais do português comprovam-no - mas vai actuar pela ala o que prende a sua acção e influência. Sem esquecer os habituais individualismos do craque que podem ser desequilibrantes, mas alteram significativamente a cobertura do espaço pela defesa face aos colegas do ataque. É por isso que Pelligrini está tão desesperado em contratar Xabi Alonso (a opção Granero é para alegrar a afficion já que o jovem "pirata" nunca mostrou, em dois anos, real valor desportivo para actuar na elite). No entanto o sucesso do planteamento no terreno do clube merengue, que actuará num 4-2-3-1, precisa de jogadores com a mesma filosofia. Montar uma equipa onde metade sabe actuar no espaço a velocidade, e a outra metade atrasa o ritmo de jogo, é criar um contra-senso. Ao contrário do Barcelona já que é fácil perceber que o sucesso de Guardiola radicou, em primeiro lugar, em ter um colectivo com o mesmo pensamento e ritmo de jogo. Assim sim, cria-se a harmonia necessária para poder vencer. E fazer história!

