Hoje em dia chovem criticas ás digressões de pré-temporada dos grandes clubes europeus por esse mundo fora. Os adeptos queixam-se dos horários dos jogos, de não poderem ver no terreno os reforços e de que tudo não passa de um jogo de marketing. E não deixam de ter razão, mas os mais veteranos lembrar-se-ão de que estas digressões foram também a causa de que hoje em dia o beautiful game seja tão popular nos quatro cantos do mundo.

O Inter a disputar um torneio nos Estados Unidos. O Manchester United e Liverpool passeiam-se pela Ásia e pelas terras do tio Sam andam ou andarão, muito em breve, Chelsea, Barcelona, AC Milan ou Real Madrid. Ou seja, as grandes potências do futebol europeu preparam o arranque da nova época fora do Velho Continente. Um fenómeno que não é de hoje, mas que nos últimos cinco anos tornou-se habitual entre as grandes instituições desportivas. Expandir o seu nome nos mercados emergentes, campanhas de marketing agressivo e receitas extraordinárias são o pretexto dos clubes para disputar amigáveis contra clubes mexicanos, norte-americanos, canadianos, chineses, malaios ou japoneses. Os jogos são habitualmente disputados em horários dificeis de acompanhar para o público em geral que se queixa de ter perdido o hábito de poder ir ver os primeiros amigáveis da época, onde habitualmente os bilhetes eram quase gratuitos e a curiosidade em ver as caras novas, muita. Depois da polémica sobre os estágios fora de portas - uma moda que em Portugal leva já dez anos mas que parece estar a sofrer os efeitos da crise - o público em geral critica agora um fenómeno que, no entanto, esteve na génese do próprio desporto-rei.
Numa era onde a televisão era ainda uma criança e que as grandes provas contavam-se pelos dedos das mãos, os clubes europeus passavam quase metade da temporada em digressões. Fundamentais para conseguir receitas (os valores das transferências eram irrisórias e os ingressos por assistência poucos, apesar dos estádios cheios) que mantinham os grandes clubes acima dos demais, as digressões ou tours desportivas tinham o aliciante especial de levar ao Mundo os melhores jogadores. Hoje em dia a televisão e o You Tube permitem a que qualquer um possa acompanhar os seus idolos. Antigamente a rádio e o jornal era a única forma, para quem não podia ver, in loco, as grandes estrelas. A televisão despontou verdadeiramente a partir da década de 60 mas até lá os clubes dedicavam parte da temporada em viagens. As únicas vezes que os espectadores europeus viram jogar Pelé - se exceptuarmos os dois Mundiais que disputou - foram nas vários viagens do Santos pela Europa. O mesmo se passou com Alfredo Di Stefano - que num desses jogos foi descoberto por Santiago Bernabeu - mas também com Eusébio, Puskas, Kopa, Czibor, Zamora, Altafini, Vavá e tantos outros que só eram reconhecidos de nome. Não é por acaso que ainda hoje Eusébio é idolatrado em Inglaterra - pela performance no Mundial, mas também pelos vários jogos que o SL Benfica disputou aí. Aliás Portugal, com o seu império ultramarino, tinha por hábito enviar as grandes equipas do continente a viajar por Angola, Moçambique, Guiné e Macau para disputar vários encontros. Hoje em dia isso seria considerado puro marketing. Então era uma forma de afirmação.

As digressões sempre manifestaram problemas logisticos. Problemas de visados - que o diga Antonio Valencia que não seguiu com o Man Utd para a Ásia por não ter o passaporte actualizado - viagens longas e lesões, muitas lesões. Durante os anos 50 e 60 foram um calvários para as grandes estrelas, obrigadas a jogar infiltradas porque o cachet da tour implicava que estivessem em campo...sim ou sim. Pelé e Eusébio foram os mais fustigados e perderam a conta ao número de jogos que actuaram em péssimas condições apenas e só para que os seus clube podessem receber a totalidade do prometido. E claro, foram as digressões que possibilitaram muitas vezes recrutar nomes desconhecidos enquanto se imortalizavam as lendas de então. Conta um dia um espectador francês que todos os dias se sentava a discutir com os amigos que Kopa era o melhor jogador do Mundo, porque o tinha visto jogar anos antes. Os amigos diziam que não poderia ser, que o melhor era Pelé. Até ao dia em que o Santos passou por Paris para jogar um amigável e o espectador foi ver o astro brasileiro. Voltou à sua cidade convencido. "Sim, Kopa é muito bom, mas Pelé...é preciso vê-lo para acreditar que é possível jogar assim".
Nos dias de hoje esta afirmação é totalmente descabida.
Os milhões de fãs asiáticos, americanos ou australianos dos grandes clubes europeus estão fartos de seguir os passos de cada uma das suas estrelas favoritas. As tours acabam por ser uma forma inversa de agradecer a sua devoção - e sacar o natural lucro disso mesmo. Os jogadores visitam aqueles que os admiram, apoiam, compram os seus productos e vibram durante todo o ano, mas que só os podem ver pela televisão. Os adeptos locais têm toda a temporada para aplaudir e assobiar. Em Tóquio, Pequim, Xangai, Los Angeles ou Cidade do México a oportunidade é uma vez ao ano. E desfrutam dela ao máximo. Os clubes sabem que estes mercados emergentes mantêm o seu nome com alta cotação de mercado, mas há algo nostálgico e belo nestas longas viagens, nestes jogos fora de horas, neste público diferente nas bancadas. Algo de regresso aos dias onde um pequeno admirador poderia dizer, sorrindo, que pela primeira, e talvez única vez, tinha visto o seu idolo a jogar como nunca...e quem sabe o que isso significa, entende que isto também faz parte da magia do jogo.

