Era um cenário que já há muito se antecipava e que espelha bem as brutais distâncias que continuam a existir entre o futebol mediático e o futebol como desporto colectivo. David Beckham é o exemplo mais paradigmático do primeiro caso mas a sua experiência americana saldou-se, desportivamente, por um falhanço em toda a linha. Agora quer ir embora, sem se esquecer de que atrás de si deixa uma imagem capaz de destroçar a sólida reputação que forjou na última década.

No dia em que se confirmou que a estrela britânica assinava pelo até então desconhecido (para o público europeu, sub-entenda-se) Los Angeles Galaxy, foi como se de autêntico soco no estomago se tratasse. Afinal Beckham tinha apenas 32 anos, tinha sido decisivo na conquista do titulo espanhol pelo Real Madrid - o único trofeu que ganhou pelo clube merengue - e diante de si ainda um bom punhado de anos ao mais alto nível. Falou-se no papel desempenhado pela mediática Victoria Beckham, pelo interesse do futebolista em lançar-se como actor ao lado dos amigos Will Smith e Tom Cruise ou, pura e simplesmente, dos milhões que o negócio envolvia. E a principio tudo parecia encaixar. Beckham deixou Los Angeles em polvorosa, aumentou as vendas de merchandising dos Galaxy e chegou a uma equipa que procurava encontrar o seu lugar na MSL, pela mão de um velho conhecido, o holandês Ruud Gullit. Tornou-se no icone do futebol nos States e a prova de que a liga norte-americana podia "roubar" à Europa, um dos seus craques mais cintilantes. Pura ilusão.
Afastado da selecção inglesa, primeiro por Steve McClaren e logo por Fabio Capello, o extremo direito começou a perceber o que realmente significava deixar o futebol europeu pela MSL. Pela sua nova equipa nunca chegou a deslumbrar e rapidamente se viu que estava contrariado. Na Europa a vida continuava e os cantos da sereia eram mais tentadores que nunca. Até que, surpresa das surpresas, o inglês logra que o seu clube o empreste ao AC Milan por quatro meses, em teoria, para manter a forma. Do clube italiano falou-se em jogada de marketing mas a verdade é que o médio provou ser hábil o suficiente para ajudar a equipa a trepar na classificação. De tal forma que os italianos lograram prolongar o empréstimo de Beckham até ao final da época, entrando em conflito directo com o clube. Foi então que os adeptos do LA Galaxy começaram a perceber o estilo de jogo do inglês, o gato escaldado com rabo de fora. O seu capitão de equipa, o experiente Landon Donovan, provavelmente o melhor norte-americano da história, criticou-o abertamente no livro The Beckham Experience onde escreveu o que todos pensavam. Que se Beckham estava a contragosto em Los Angeles, que não se motivava com a liga ou a equipa, que não pretendia cumprir o contracto, etc... Beckham, de regresso à cidade dos anjos no meio de assobios e vaias, fez-se de virgem ofendida, para no minuto seguinte vir a colocar a hipótese de voltar à Premier League (onde jurou nunca actuar sem ser no "seu" Man Utd) para garantir um lugar na selecção inglesa do próximo Mundial.
Se Beckham sempre foi conhecido pelo seu profissionalismo - apesar de todo o circo mediático que o rodeia - levado ao extremo quando foi afastado por Capello no Real Madrid, por ordens directivas de Mijatovic a partir do momento em que este soube que o inglês tinha contrato com os Galaxy, esta sua postura mostra o lado mais podre do futebolista. Beckham sabia o que fazia quando decidiu atravessar a fronteira. Sabia que a liga norte-americana é ainda de baixo nivel, que na Europa o futebol continuará a rolar como se nada fosse e os selecionadores iam estar mais atentos ao que se passava por aqui. E que o seu poder mediático podia ver-se beliscado. Sabia mas mesmo assim assinou o contrato, quando pelo menos meia Europa o tentava resgatar ao Real Madrid. O regresso ao Milan ou a ida para a Premier - dois cenários que acalenta - provam que tudo isto não passou de uma farsa. Uma prova viva de que mais do o apartado desportivo, o mediatismo controlou a própria carreira do jogador a ponto de abandonar um futebol competitivo onde podia fazer a diferença, para tornar-se em mais um homem cifrão.

Agora, Becks não pode comportar-se como se não tivesse mostrado ao mundo o lado mais sujo do futebol. Um jogador seguido por milhões que perdeu todo o capital de credibilidade acumulado. Tanto para os adeptos do L.A. Galaxy, que têm todo o direito em assobiar cada passo seu no relvado, como para os adeptos europeus que o tinham como um dos poucos jogadores exemplares do futebol de hoje. A cena de hoje, em que o jogador entrou em confrontos verbais com os fãs do Galaxy é perfeitamente natural e previsivel. Tanto quanto evitável.
Tentar, a todo o custo, voltar ao futebol europeu é não só uma péssima propaganda para o beautiful game nos States - numa altura onde o desporto rei começa a ganhar o seu espaço, graças especialmente às prestações da sua selecção - mas também servirá de aviso a todos os restantes clubes. Beckham tornou-se ás claras num mercenário puro e duro, disposto a tudo para atingir o seu objectivo pessoal de participar num quarto Mundial de futebol. Já se sabe que em Janeiro o jogador voltará aos palcos europeus - Itália ou Inglaterra são os destinos prováveis - mas o jogador quer antecipar-se e sair no Verão, tendo mesmo cometido a imprudência de elogiar o seu ex-treinador Carlo Anceloti, afirmando que com ele o Chelsea seria campeão. Chelsea, curiosamente, onde já exprimiu interesse em actuar. Chelsea, rival directo do seu clube de sempre. Curioso, como minimo!
Disposto a ter o ódio de Los Angeles, Manchester ou até mesmo Milão, a antiga estrela planetária é um futebolista caído em desgraça. Um futebolista que não soube separar o espectáculo mediático da magia do desporto. E com isso ganhou o desprezo de muitos e a admiração de poucos. Um gesto que espelha bem até que ponto o homem exemplar se transformou no anti-profissional.

