Rezar quinzenalmente no San Paolo é um dos rituais mais habituais de um napolitano. O santuário soberano do futebol do sul de Itália, o único reduto capaz de rivalizar em tamanho e grandeza com o Olimpico de Roma e o San Siro, é um exemplo de resistência e devoção. Dos milhares que assistiram aos dribles de Maradona ao sofrimento das divisões inferiores, os adeptos do Napoli fizeram do seu recinto o seu estandarte de eleição.

Não é por acaso que o presidente do Napoli e o presidente da câmara da cidade propuseram há uns anos que se modificasse o nome do San Paolo para Estadi Diego Maradona. Foi na era dourada de "El Pibe" que o estádio napolitano atingiu o seu apogeu. Estavamos em plena década de 80 e o recinto, então com 35 anos, vivia em constante ebulição. Quando o astro argentino foi apresentado, os 70 mil lugares estavam preenchidos por napolitanos desejosos de ver o seu particular salvador. Não se enganaram. Diego Armando Maradona fez do Napoli uma equipa temível. Em Itália desafiou o poder estabelecido entre os clubes do norte (AC Milan, Inter, Juventus, Torino, Sampdoria) e da capital (Lazio e Roma) e conseguiu os dois únicos titulos da história do clube. Numa cidade marcada pelo sangue da máfia e com o Vesúvio majestoso em pano de fundo, a pouco e pouco o San Paolo foi conhecendo uma dimensão trascendental mais do que nunca se imaginara nos anos posteriores à sua fundação.
Foi em 1959, época aurea de construção de novos recintos, que Napoles viu nascer o seu estádio. Construido para rivalizar com os do Norte, rapidamente se tornou num dos três grandes recintos italianos. Era o orgulho da população loca, isolada e ostracizada por quase toda a Itália. Uma cidade marcada pelo braço longo da máfia e pela extrema pobreza que se agarrou à equipa de futebol como um simbolo da região. Localizado num pequeno subúrbio perto do mitico Vesúvio, o imponente estádio foi ganhando fama. Mas é realmente na década de 80 onde atinge a condição de mito. Os jogos disputados pela equipa azul celeste eram acompanhados por uma multidão eufórica e ensurdecedora de tal forma que o próprio Maradona chegou a dizer que muitos jogos foram ganhos pelo próprio estádio. Em 1989 foi construida uma cobertura especial para preparar o recinto para o Mundial de 1990. Durante a prova o San Paolo recebeu vários jogos mas nenhum como a inesquecível semi-final entre a Argentina, do idolo local, e a própria Italia. Maradona chegou a pedir o apoio dos napolitanos mas o estádio aplaudiu o onze da azzurra como nunca o tinha feito. Apesar da vitória argentina, Maradona saiu do estádio sob um imenso coro de aplausos. Anos depois, com a saída do astro, veio a falência financeira e o Napoli caiu estrepitosamente nas divisões regionais. Mas o San Paolo manteve-se vivo.

Durante largos anos, enquanto que a equipa napolitana ia subindo nas provas nacionais, o San Paolo continuava a ser o seu estandarte de eleição. Quando a equipa napolitana militava na Serie B, o recinto continuou a ser o terceiro com melhor médio de assistência, apenas atrás do S. Siro e Olimpico de Roma. Um feito enorme que levou a novas melhorias nas infra-estruturas, justificadas com o regresso do clube à elite desportiva. O ano passado as bancadas voltaram a vibrar com a notável primeira volta da equipa e para este ano a emoção ferve já no coração dos napolitanos, que peregrinam como nenhuma outra massa associativa para rezar à casa de um santo que foi consagrada por um Deus.

