Numa quente noite de Maio de 2002 os adeptos indefectíveis do Feyenoord Rotterdam cumpriram um sonho antigo. Voltaram a festejar um titulo europeu e logo no seu reduto de sempre. O De Kuip tinha acabado de cumprir 65 anos e engalanou-se para a festa local. Um dos momentos altos de um dos mais belos e históricos santuários do futebol europeu.

Como tantas outras catedrais desportivas, o nome oficial do reduto é o mesmo que o clube que ali disputa, quinzenalmente, cada encontro como se fosse o último. É por isso que ninguém conhece o Feyenoord Stadion, mas todos já ouviram falar do mitico De Kuip...ou melhor, da mitica "Banheira" (é essa a tradução literal da expressão holandesa). Um dos estádios arquitectonicamente mais belos do Velho Continente, o reduto sagrado do clube holandês comemora este ano 72 anos. Ao seu lado já estão a preparar o terreno para erguer o seu sucessor, que terá o inevitável nome de De Nieuwe Kuip. Antes que o tempo o apague e não fiquem apenas mais do que belas recordações, prestamos a devida homenagem a um relvado que já viu o melhor do futebol disputado na Europa ao longo das últimas décadas.
O estádio foi fundado em Maio de 1937. Inspirado pelo presidente de então do Feyennord, Leen van Zandvliet, o reduto nasceu de um projecto ambicioso de reconversão urbanistica da própria Roterdão. O clube queria algo grande e impactante e para tal contratou os dois melhores arquitectos holandeses da época, Johannes Brinkman e Leenerdt van der Vlugt, responsáveis então pela requalificação do maior porto europeu. Inspirados no Highbury Park - outro monumento já desaparecido - os arquitectos exploraram pela primeira vez a utilização de vários aneis sobrepostos. Um modelo que serviria de inspiração posterior para os estádios do Camp Nou, da Luz ou Santiago Bernabeu nos anos 50. Utilizando chapa e vidro os desenhadores construiram o projecto em tempo recorde e no dia da inauguração apresentavam à cidade um reduto capaz de acolher 64 mil pessoas. Depois do jogo inaugural da equipa da casa, a "Banheira" recebeu também um Holanda-Bélgica, derby intenso, e tornou-se a partir de então na casa oficial da selecção holandesa.
Com o crescimento da cidade e do clube no futebol holandês chegaram as grandes noites de futebol. Consumado como o grande holandês do pós-II Guerra Mundial, o conjunto vermelho e negro tornou-se rapidamente numa potência europeia. Nos anos 50 decaíu de forma mas com Ernst Happel no comando do onze local dominou por completo os anos 60, marcando presença regular nas últimas etapas da recém-criada Taça dos Campeões. Depois de várias tentativas o Feyenoord chegou à final da Taça dos Campeões em 1970. Pelo caminho ficou uma épica vitória por 2-0 diante do AC Milan na "Banheira", a primeira grande noite europeia do estádio. Curiosamente foi no reduto milanês que se disputaria a final. A praticar a primeira versão holandesa de Futebol Total, o conjunto de Roterdão bateu o Celtic Glasgow por 2-0 e sagrou-se pela única vez campeão europeu. Foi o culminar numa era dourada que imortalizou o já trintão estádio que receberia a partir daí várias finais europeias. Enquanto que o clube ganharia a Taça UEFA em 1973 para depois entrar num progressivo declineo, que coincidiu com a ascensão de Ajax e PSV, a fama do De Kuip foi aumentando.

Em 2000, já com sessenta e três anos e muitas obras de melhoria pelo meio, o estádio recebeu a final do Europeu de futebol. Uma decisão com profundo significado já que todos esperavam que o encontro decisivo fosse na Arena de Amesterdam, mais funcional e localizado na cidade número um do país das tulipas. Um orgulhoso triunfo para os locais que serviu para amenizar a dor de não ver a sua equipa subir ao mais alto do pódio. Até que chegou aquela mitica final. O Feyenoord há muito que estava afastado da elite europeia e não era favorito. O Borussia de Dortmund parecia ter tudo para vencer mas a magia do De Kuip fez o resto. Com 55 mil espectadores fanáticos nas bancadas a dupla Pierre von Hoijdkoonk e John Dahl Tomasson destroçaram a defesa alemã. A vitória por 3-2 significou o recuperar do nome do santuário apesar de que as celebrações foram ensombradas pela morte de Pym Fortyun, politico holandês e conhecido adepto do clube.
A partir dessa noite o De Kuip pareceu cair no esquecimento. A equipa baixou o seu nivel competitivo e foi então que se começou a falar em Roterdão na necessidade de criar um novo - e mais funcional - recinto desportivo. A decisão foi tomada pouco depois e está previsto que o novo estádio seja inagurado em 2015. Até lá cada segundo é pouco para desfrutar de um lugar repleto de magia e que é a quintessência do beautiful game...

