Sempre me fascinou o universo dos olheiros.
Quem são esses magos com poderes especiais para poder antever, muitas vezes com anos de avanço, que aquele miudo em concreto vai levantar estádios, vender milhões e fazer história? Muitas vezes esquecemo-nos que são eles os responsáveis por muitas das lágrimas e alegrias dos adeptos.

Não conheci na vida um homem que soubesse tanto de futebol como o senhor Hernâni. Nunca lhe soube o apelido mas sempre o admirei porque conseguia falar de futebol com uma naturalidade assustadora, como se lhe fosse mais natural que o próprio sangue. Muitas vezes me contou a história de como descobriu o Rui Barros, então um desconhecido. Não era olheiro profissional mas o seu talento era conhecido no Porto e a direcção azul e branca convidava-o a ir ver jogadores, de vez em quando, e dar o seu parecer. Uma vez foi ver um jogo de juniores para observar um avançado de quem diziam maravilhas. No final do jogo quando os dirigentes azuis e brancos lhe perguntaram pelo jovem ele respondeu, sem papas na lingua "Tem pose mas não vale nada, mas na outra equipa vi ali um baixinho que vai ser fenomenal, se fosse vocês comprava-o já antes que o apanhem". A isso, estupefactos, responderam os dirigentes portistas "Mas esse é nosso, chama-se Rui Barros, está aqui emprestado". E foi assim que o "ratinho atómico" voou para as Antas. Uma noite, lembro-me bem, numa dessas habituais tertúlias futebolistica com que este amigo do meu pai da época de ver os jogos do FC Porto do "Zé do Boné" na arquibancada das Antas nos brindava, aos meus irmãos e a mim, perguntei-lhe o que achava de um tal Ricardo Quaresma, então a despontar nos juniores do Sporting. O senhor Hernâni (para mim sempre foi senhor) sorriu, como sempre, e disse-me tranquilamente "Tem talento, é rápido mas há ali qualquer coisa...agora vi lá jogar um miudo muito bom, pena é ser franzino, senão tinhamos ali homem". Esse outro, como devem calcular, chamava-se Cristiano Ronaldo. Aquele homem soube prever o fenómeno CR com anos de antecipação. Sempre me perguntei como.
Hoje em dia os clubes respeitam cada vez mais os olheiros mas eles continuam a ser um mistério. Arsene Wenger recebe diariamente relatórios, dvds, recomendações da sua equipa de olheiros, espalhada pelos quatro cantos do Mundo. Só assim é capaz de se antecipar aos rivais. Mas apesar da fama do Arsenal, não há hoje um grande clube que não tenha a sua imensa equipa de observadores. E não há estádio que não tenha uma sala só com relatórios e videos de todas as promessas possiveis e imaginárias a jogar hoje em dia. E sempre escapará um menino de rua, um jovem de um clube obscuro. Quando se lê em revistas, jornais ou blogs sobre este ou aquele jogador como uma jovem promessa, essa informação já nem chega em terceira mão. Há muito que os grandes sabem quem é Douglas Costa, Diego Buonanotte ou Henri Saivet, muito antes deles próprios terem noção de que já foram "descobertos":

Num meio onde há protagonistas para todas as cores e feitios, o olheiro ainda não encontrou o seu lugar ao sol. Há poucos nomes próprios que a história relembra. Ao contrário de dirigentes, directores técnicos, técnicos, jogadores e até roupeiros, o olheiro é um ser que actua oculto, na sombra. Que está lá mas não sabemos. O Manchester United tinha sempre fama de enviar um olheiro oficial para os jogos e um oculto. O primeiro anunciava que ia ver o jogador X ou Y e lá marcava presença, junto dos "rivais" de outros clubes. O oculto estava no coração da bancada e sentia o pulsar do jogo daí. Foi assim que, por exemplo, em 1962 um tal de Bob Bishop, descubriu um jovem franzino chamado George Best. Só lhe deu tempo de mandar um telegrama a Matt Busby com a frase "I found a genious!" Outros são técnicos que nas horas vagas se divertem a passear pelos relvados mais obscuros, como Francis Cornejo, o treinador argentino que um dia viu jogar um pequeno endiabrado de 8 anos e o levou aos Argentinos Juniores treinar. Chamava-se Maradona. E por cada estrela que nos faz sonhar, há atrás um homem que soube ler o futuro e perceber que dentro dele havia magia e caracter suficientes para ser alguém.
Os mais românticos do desporto-rei sabem que o olheiro é um desses seres mágicos sem o qual o espectáculo não sobrevivia. Porque, por cada Cristiano Ronaldo que custe 96 milhões de euros, neste preciso instante estão milhares de homens a ver jogar, nos quatro cantos do Mundo aquele que será o próximo a vender milhares de camisolas no seu primeiro dia. Como o senhor Hernâni. Já dizia o mestre Bill Shankly, quando um dia levou a mulher a comemorar os anos de casado a um jogo de reservas do clube da pequena localidade onde vivia, "aqui é onde se faz o futuro"!

