Domingo, 26 de Julho de 2009

Foi um dos melhores jogadores estrangeiros a alinhar no futebol português numa era onde só uma elite podia singrar num grande. Durante mais de meia década foi o coração e alma da última grande geração a brilhar no estádio da Luz. Chamavam-lhe a força da Natureza mas Isaías era mais do que isso, um verdadeiro profeta.

 
Quem não se lembra do pontapé canhão de Isaías a rasgar as redes de qualquer clube da Primeira Divisão. No antigo estádio das Antas travou duelos que ficaram para a história com Vítor Baía. Na Luz levantava o estádio como nenhum outro. Era rápido, possante e com um sentido de posicionamento único. Juntamente com João Vieira Pinto, Rui Costa e Vítor Paneira liderou o ultimo grande meio campo da equipa encarnada. Depois de ter entrado em Portugal pela porta pequena saiu como uma estrela e acabou mesmo por vestir a camisola das quinas…mas na então imberbe selecção de futebol de praia. Muitos suspiraram pela naturalização e sugeriu-se que fosse o primeiro brasileiro a jogar pela equipa de Portugal, uma década antes de Deco. Na Luz deixou saudade, vítima da limpeza de balneário de Artur Jorge, mas não há adepto do bom futebol em Portugal que não sinta nostalgia do profeta.
 

A grande noite da sua carreira foi provavelmente a épica vitória encarnada em Highbury Park, onde apontou os dois golos que eliminaram o Arsenal e permitiram ao SL Benfica entrar na fase decisiva de grupos da Champions. A equipa então orientada por Erikson acabaria por ser eliminada pelo Dream Team de Cruyff, mas o nome de Isaías ficou na retina de todos. Estávamos em 1991 mas o médio ofensivo tinha já chegado a Portugal há seis anos. Depois de ter feito no Brasil carreira no Riofriense, chegou em 1987 ao Rio Ave, já com 24 anos. Um ano em Vila do Conde foi suficiente para dar o salto para o Boavista, que começava a gerar a equipa que ia assumir-se como quarto grande. Dois anos de alto nível no Bessa garantiram uma transferência memorável para o Estádio da Luz. Chegou a uma equipa em alta, depois de duas finais da Taça dos Campeões, mas a precisar de renovação face à idade de alguns dos veteranos titulares. Aposta pessoal de Sven Goren Erikson, o médio rapidamente provou que tinha valor para se impor como titular. Por essa época os duelos entre FC Porto e SL Benfica eram verdadeiramente de vida ou morte e foi ai que se começou a notar o carácter do médio, capaz de suportar a pressão das Antas e de levantar os adeptos na Luz. Esteve ao serviço das águias cinco anos. Nesse período realizou 168 jogos e apontou 69 golos, alguns dos quais verdadeiramente memoráveis e capitais para o titulo conseguido em 1991. Em 1993, a saída dos elementos chave do meio campo, Paulo Sousa e Pacheco para o Sporting, antecipou uma época que parecia complicada. Uma goleada em Setúbal por 6-3 parecia condenar o Benfica mas então Isaías imergiu como líder da quadrilha. O técnico Toni decidiu apostar num onze altamente ofensivo onde o brasileiro convivia com João Vieira Pinto, Stefan Schwarz, Alexander Mostovoi, Vasili Kulkov, Vítor Paneira, Rui Costa, Yuran e César Brito, naquela que foi a última grande geração encarnada. Com esta equipa o Benfica viveu na mesma época dois jogos inesquecíveis. O empate a 4 em Leverkusen, um jogo impróprio para cardíacos, e a mítica vitória por 3-6 em Alvalade contra o Sporting, que consagrou JV Pinto e ofereceu de bandeja o titulo aos encarnados depois de a meio da época terem sido descartados da luta pelo titulo. Uma vitória épica mas que seria a última para o médio. 

 

No ano seguinte foi dispensado por Artur Jorge, novo treinador encarnado, e rumou à Premier League para actuar pelo Coventry City. Aí passou duas épocas onde apenas jogou meia dúzia de jogos. Incapaz de se adaptar ao jogo inglês, voltou para Portugal onde teve direito a uma segunda juventude no então recém-promovido Campomaiorense. No Alentejo esteve dois anos estando na equipa que logrou o feito de chegar à final da Taça de Portugal, perdida com o Beira-Mar. Depois da etapa alentejana, o profeta Isaías trocou o relvado pela areia e capitaneou a primeira equipa de futebol de praia portuguesa, lançando as bases para a que se viria a tornar numa das melhores selecções do Mundo. Por essa época o “seu” Benfica vivia nas ruas da amargura e teria de esperar dez anos para poder voltar a celebrar um título. Anos em que o pé direito furioso do maestro brasileiro foi elevado à categoria de lenda. Ainda hoje a Luz espera que alguém tome o testemunho de um dos grandes jogadores da história da liga portuguesa.


Miguel Lourenço Pereira às 15:16 | link do post

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