Sempre considerei que as segundas divisões são mais interessantes e competitivas do que as primeiras. Para começar, aqui não há papões. Não há grandes. Os melhores são promovidos e os que descem não são favoritos. Tem de se juntar ao grupo e mostrar o seu valor. Quem vem debaixo trás garra e quem cai ao poço quer voltar. Isso passa com qualquer campeonato. Aqui não se joga para o título, para a Europa ou a feijões. É matar ou morrer. Subir ou descer. Ficar um ano mais por aí não interessa a ninguém.
Este espírito rebelde faz com que a incerteza seja sempre mais clara do que em qualquer outra divisão. Mais abaixo o desnível é maior, mais acima já começamos a viciar o espírito do jogo. A Championship em Inglaterra é capaz de produzir jogos de antologia. A Série B do Cálcio já provocou campanhas únicas de equipas que deslumbravam pelo seu futebol. E se seguimos vamo-nos perder por aí. E Portugal, que se passa com a nossa segunda vaga?
Desde que a Liga decidiu acabar com essa ideia de subir directamente os clubes da II B à primeira divisão, um por cada região do país, começou a notar-se que algo de errado passava no futebol nacional. Aquela que já foi conhecida por vários nomes (II Divisão, Liga de Honra, Liga Vitalis, etc…) foi criada para servir como filtro, entre o fraco futebol praticado nos campeonatos regionais (Norte-Centro-Sul) e as equipas de primeiro nível. Seria uma espécie de divisão de transição. Uma queda mais suave para quem descia, um período de adaptação mais cómodo para quem subia e para os outros, um ponto intermédio. A ideia, em si, tinha as suas virtudes. Seguia o exemplo das grandes ligas europeias e vinha acompanhado de mudanças estruturais a nível dos campeonatos nacionais e regionais. Mas como sempre, de boas intenções, está o inferno cheio. Longe de subir o nível qualitativo do futebol nacional, a II Liga reduziu-o drasticamente. Passou a ser uma prova onde equipas vagueavam ano após ano, sem nunca lutar verdadeiramente pela subida de divisão, mas mantendo os míseros tostões atribuídos pelo organizador, a Liga.
Criou-se o vício da subida e descida de várias equipas, que ao baixar de divisão encontravam um nível de tal forma baixo, que pouco lhes custava dar de novo o salto à primeira. Para corrigir esse grave défice qualitativo – e porque essa podridão já se tinha instalado também há muito na I Divisão, particularmente a partir do ano 2000 com o aparecimento das SAD, a chegada em massa de brasileiros de quarto nível e da fuga dos melhores talentos nacionais, fruto da aplicação da lei Bosman – decidiu cortar-se o mal pela raiz. Menos duas equipas na I equivalem a menos quatro em total nas chamadas competições profissionais. Mais uma vez a intenção era boa (a própria FIFA há anos que anda a pedir campeonatos de 14 ou 16 equipas como máximo) e mais uma vez falhou por completo. A medida não subiu a qualidade das equipas e dos projectos, limitou-se a retirar financiamento a quatro clubes que antes dele beneficiavam. A falta de coordenação a nível organizativo, o poder das transmissões televisivas, mal negociadas, transmitidas fora de horas e os estádios vazios como consequência dos preços exorbitados e da fraca qualidade de jogo, esvaziaram por completo o futebol nacional. E mais, a desorganização total do futebol amador, nas mãos de uma Federação mais preocupada com projectos megalómanos (Europeu, Mundial, campanhas da selecção) do que propriamente em por ordem na casa, fizeram o resto. Hoje uma equipa como o Gondomar ou a Oliveirense, que lutam para sobreviver na II Liga, nunca poderia aguentar na I Divisão. O fosso é demasiado grande.

Hermínio Loureiro, que desde que se tornou presidente da Liga já conseguiu fazer pior que aquilo que se acreditava ser possível, vem agora com uma nova decisão. Uma nova tábua de salvação. E, como suspeitamos, um novo flop. Em lugar de preocupar-se em fazer com que Liga funcione como uma verdadeira organização de todos os clubes – negociando directamente com patrocinadores, transmissões, logísticas, … - tenta tapar o sol com a peneira propondo uma nova remodelação da II Liga. Que não se deve começar a casa pelo telhado, isso já se sabe. Mas viver ao relento também não ajuda ninguém. O problema do futebol nacional é de base, e aí a culpa é da FPF. Mas a base do futebol profissional é a II Liga e a proposta da criação de duas divisões – cada qual com 10 clubes divididos, supostamente, em critérios geográficos – é dar um salto para trás de quase vinte anos. A ideia do apuramento posterior por play-off é de tal forma ridícula que só encontra paralelo na confusão gerada nas II e III Divisões com a divisão a meio da época, das zonas em duas pequenas ligas. Invenções que vendem jornais mas que não resolvem problemas. Que exista um play-off para promover equipas, isso não é novo – basta ver Inglaterra – mas voltar ás divisões regionais não resolve absolutamente nada. Essa situação vai, em primeiro lugar, provocar conflitos desnecessários sobre quem entra onde. E por outro manter projectos que, numa competição a 14 ou 16 não teriam lugar, apenas porque estão numa zona menos competitiva. Está claro que o peso da zona Norte hoje é superior na II Liga e esta alteração o que faria, inevitavelmente, seria falsear a qualidade da segunda linha do futebol português.
Quando uma equioa é promovida a um campeonato de um país bem organizado podem dar-se casos como os do Málaga - promovido em Espanha e com um pequeno projecto que hoje luta pela Champions League. Quando se tentam fazer as coisas sobre o joelho, apenas com o pretexto de mostrar serviço, o resultado pode ser desastroso. A imaginação começa a acabar-se e os dirigentes continuam sem perceber que para mudar algo é preciso muito mais do que uma reestruturação competitiva. É preciso mudar a própria noção de competição. Até aí chegaram, vamos sempre ter mais do mesmo!