O futebol da Europa de Leste sempre foi menosprezado pelas potências ocidentais mas ao largo da história cada país teve direito à sua geração dourada que irrompeu nas grandes provas internacionais para demonstrar que o beautiful game é universal. Durante dez anos, e coincidindo com o ocaso futebolistico da URSS, o grande embaixador da Cortina de Ferro era uma selecção veloz, ágil e eficaz. A inesquecivel cavalaria polaca do marechal Gregorz Lato.

Uma equipa genial que apanhou a onda do futebol total que então brilhava no país das tulipas e a adaptou ao seu estilo de jogo, com jogadores velozes nas alas, avançados móveis e uma defesa de ferro. O seleccionador Kazimierz Gorsky tinha vindo a trabalhar com as selecções jovens polacas durante uma larga década e conhecia melhor que ninguém a próxima colheita do futebol polaco. Montou um onze repleto de jovens que durante quase uma década seriam a base de uma das equipas que melhor futebol jogava na Europa. Em 1972 em Munique a equipa olimpica, onde já alinhavam algumas das futuras estrelas, venceu a medalha de Ouro em Futebol. Na fase de qualificação para o Mundial de 1974 eliminou surpreendentemente a Inglaterra em pleno Wembley. Com uma equipa composta por Lato, Zmuda, Szarmach e Deyna, entre tantos outros, os polacos chegaram ao Mundial como equipa de segundo plano mas rapidamente mostraram que vinham com vontade de vencer.
No primeiro encontro venceram por 3-2 a favorita Argentina com uma notável exibição de Lato e poucos dias depois bateram a frágil equipa do Haiti por 7-0. No último jogo nova vitória surpreendente, 2-1 frente à Itália, vice-campeã em titulo, e vitória num grupo onde estavam destinados a figura de corpo presente. Na fase seguinte - dois grupos de quatro equipas onde os vencedores disputavam a final - a Polónia voltou a mostrar que havia mais que a Holanda no Mundial. Contra os suecos uma vitória por 1-0 e contra a Jugoslávia triunfo por 2-0. Chegava o jogo decisivo contra a RF Alemanha, a equipa da casa. O dia do encontro ficou marcado por um imenso temporal que prejudicava o rápido futebol polaco face ao jogo mas fisico dos alemães. Gorsky queria adiar o encontro mas a direcção não o permitiu e Muller fez ao minuto 72 o golo que impedia aos polacos chegar à final. A desilusão foi ultrapassada pela vitória diante do Brasil e o terceiro lograr conquistado e pela vitória de Lato na disputa pelo trofeu de melhor marcador do torneio.
A notável performance no Mundial de 74 não se repetiu quatro anos depois apesar de que os polacos, tinham voltado a brilhar nos Jogos Olimpicos de 76, ficando com a medalha de Prata. Já sem Gorsky a equipa que eliminou Portugal na qualificação mantinha a mesma estructura a que se juntava o jovem prodigio Zbigniew Boniek, começou com um empate a 0 com os alemães, carrascos em 74. Seguiu-se uma vitória diante do México e o consequente apuramento para a segunda fase onde os sul-americanos Argentina e Brasil desforraram-se das derrotas quatro anos antes. A cavalaria polaca caiu por 2-0 diante da equipa da casa e por 3-1 contra o Brasil. A vitória por 1-0 diante do Peru serviu para lavar a imagem de uma equipa em renovação. Foi de cara lavada (só Lato, Zmuda e Szarmach repetiram a experiência) que os polacos chegaram a Espanha para o Mundial de 1982. Tinham passado oito anos e poucos davam crédito a novo brilharete.

Depois de dois empates a zero com Itália e Camarões a equipa garantiu o apuramento com um 5-1 ao Peru. Na segunda fase o ataque composto pela dupla Smolarek e Boniek, com o apoio do ainda decisivo Lato, bateu por 3-0 a surpresa Bélgica, que tinha derrotado a Argentina de Maradona, e depois bateram a URSS confirmando o apuramento para as meias finais. Boniek, suspeno, viu o jogo da bancada e a defesa que tinha sido tão eficaz em marcar Rossi no jogo de abertura foi destroçada pela velocidade e sentido de oportunidade do dianteiro italiano que com dois golpes cirúrgicos decidiu a eliminatória. Tal como em 74 o sabor a desilusão foi compensado com o terceiro posto, após vitória sofrida diante da romântica França de Platini, por 3-2.
Foi o fim da era dourada do futebol polaco. Apesar de Boniek continuar a brilhar a nivel individual, a equipa polaca nunca mais logrou chegar tão longe. Eliminado por Portugal no apuramento para o Euro 84, a presença no Mundial do México 86 foi modesta. Seguiu-se um periodo de 16 anos sem voltar a um grande palco, mas na Coreia do Sul os polacos foram uma sombra do seu passado glorioso, uma época onde a armada de Lato era respeitada nos quatro cantos do planeta futebol.

