Sábado, 1 de Agosto de 2009

Andar desengonçado, pose de vedeta. António Luis Alves Ribeiro Oliveira é um desses casos onde a publicidade (ou falta dela) impediu transformar um grande jogador numa lenda. Um dia José Maria Pedroto, o técnico que melhor soube sacar o seu rendimento, não teve problemas em dizer que, na sua posição, Oliveira era o melhor jogador do Mundo. E então talvez fosse mesmo...

 

Em Setembro de 1970 o FC Porto vivia mais uma das suas constantes guerras civis que levaram o clube a viver um hiato de 19 anos onde só se conquistou uma Taça de Portugal. A equipa tinha acabado de terminar a época em 9 lugar e os azuis e brancos estavam destroçados. Das camadas jovens, onde brilhava há já quatro anos, surgia para treinar com os seniores, um rapaz franzino, de Penafiel, cabelo comprido e ar de estrela. Escolhido a dedo pelo técnico brasileiro Paulo Amaral, a verdade é que ninguém lhe deu muito crédito mas ali estava a lenda do futebol portista dos anos 70 e um dos máximos jogadores a alinhar com a camisola azul e branca. António Oliveira era o seu nome e rapidamente fê-lo notar. O seu estilo de jogo entrava em contradição com a confusão portista de então. Oliveira organiza na sua mente cada lance de ataque, cada movimentação. Uma visão espantosa permitia-lhe antecipar cada lance e o seu faro de golo tornavam-no num perigo constante para o adversário. As bolas paradas, onde era especialista, resumiam perfeitamente o perfume do seu futebol: simples, prático e genial.

 

Durante nove anos Oliveira foi o lider azul e branco. Partilhou com Cubillas, esse mago peruano, o meio campo portista mas foi a chegada de José Maria Pedroto que o levou para o estrelato. Em 1977 o técnico de Lamego voltou a casa depois de ter estado banido por quase uma década. Com Jorge Nuno Pinto da Costa como director desportivo, Pedroto montou uma equipa campeão do primeiro ao último elemento. Acabou com os "andrades" e deu forma aos "dragões". Acabou-se o medo a atravessar a ponte D. Maria e o que antes era uma equipa atabalhoada tornou-se num exemplo de organização táctica. Ao lado de Octávio, Rodolfo, Murça e Fernando Gomes, o genial Oliveira tomou a batuta da orquestra e levou o clube para o seu primeiro titulo em dez anos, uma Taça de Portugal. Na época seguinte, a da consagração absoluta do FC Porto de Pedroto, o médio ofensivo alinhou em todos os jogos e apontou 19 golos, lutando até ao fim da prova pela Bota de Prata. Na temporada seguinte os milhões de pesetas que o Bétis pôs na mesa desviaram-no para a Andalucia fazendo de Oliveira a contratação estrela do defeso espanhol. Mas em Sevilla o seu futebol murchou e o próprio Oliveira acabou por pagar do próprio bolso para voltar ao  FC Porto onde chegou a tempo de celebrar nova vitória no campeonato. Em 188 jogos, apontou 69 golos. Números que espelham a importânica de um jogador que então era dos mais desiquilibrantes do futebol europeu, como diria mais tarde Di Stefano, técnico de um AEK Athens humilhado numa eliminatória da Taça dos Campeões pelo clube de Pedroto.

 

O seu regresso ás Antas foi, no entanto, de curta duração. Os problemas internos que obrigaram à demissão de Pedroto e Pinto da Costa levaram-no, num acto de fidelidade com os dois mentores, a deixar o clube assinando pelo Penafiel, onde assumiu o cargo de jogador-treinador. No clube da sua terra Natal, Oliveira continuou a fazer a diferença e acabou mesmo por cometer a "traição" de assinar em 1982 pelo rival azul e branco, o Sporting. Em Alvalade formou com Manuel Fernandes e Jordão uma tripla ofensiva de sonho que garantiu o último titulo leonino durante um periodo de...17 longos anos.

 

No final da sua etapa no Sporting, onde também assumiu o posto de jogador e treinador, Oliveira abandonou ainda a selecção, onde tinha sido o principal referente durante mais de uma década. Ainda passou pelo Maritimo antes de trocar o relvado pelo banco de suplentes. Aí teve uma série de experiências mal sucedidas (Vitória, Gil Vicente, Braga) até ser nomeado seleccionador nacional. Foi ele que lançou as bases da "Geração de Ouro" na equipa A, ao levar Portugal ao Euro 96. No final da prova voltou ao clube de sempre, desta feita como técnico, conquistando por duas vezes o campeonato, naquela que foi reconhecidamente a melhor formação azul e branca da década. A fatidica campanhã de Portugal no Mundial de 2002 atirou-o para fora dos bancos e depois de uma etapa como presidente do Penafiel, aquele que Pedroto baptizou como um dos melhores jogadores de todos os tempos e o melhor nascido em Portugal continental, retirou-se.

 

A polémica imagem como técnico apagou o passado brilhante como executante e hoje são poucos os que se lembram dos titulos, dos golos, dos jogos...dos momentos em que Oliveira parava a bola e todos ficavam em suspenso para seguir o seu próximo truque de magia.



Miguel Lourenço Pereira às 16:02 | link do post | comentar

1 comentário:
De Pedro Serra a 1 de Agosto de 2009 às 20:54
É um artigo muito bom, como é hábito, mas contém algumas imprecisões. O regresso de Pedroto ao FCP, com Pinto da Costa como director do departamento de futebol, foi em 1976; o prémio para o melhor marcador chama-se Bola de Prata; a ida de Oliveira para Sevilha e o posterior regresso ao Porto foram na época de 1979/80; foi o FCP a ser humilhado (derrota em Atenas por 6-1) pelo AEK, treinado por Puskas.
Já agora, o jornalista David Borges considerou em 1979 que os "três maiores" do futebol português de então eram Oliveira, João Alves e Humberto Coelho.


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