Era previsivel face o rumo tomado desde os últimos anos por parte da direcção portista. Antes das previstas saídas de Bruno Alves e Lisandro Lopez, o FC Porto preferiu aceitar a oferta do Olympique Marseille pelo médio argentino Lucho Gonzalez. O valor, 18 milhões de euros (poderá chegar até aos 24). O futuro? Hipotecado. Uma vez mais.
El Comandante foi nos últimos quatro anos o patrão do meio campo portista. Chegou pela em 2005 (depois de uma longa negociação com o River Plate) e desde logo se impôs pela excelente visão de jogo e a rapidez nas transições. Numa equipa orfã de um lider de meio campo (Diego não vingou) o argentino tomou a batuta daquele que viria a tornar-se no onze tipo do técnico holandês Co Adriaanse, assumindo-se como elemento nuclear da equipa campeã. A partir daí o seu nome tornou-se obrigatório em cada época e a influência de Lucho Gonzalez tal, que rapidamente também se tornou num dos capitães de equipa. Um feito para um jogador com tão pouco tempo de casa, espelho da orfandade que vivia a equipa relativamente a figuras de larga história no clube, mas também do caracter de lider do médio. Durante a sua etapa no FC Porto, o médio jogou pela sua seleção com alguma regularidade (foi ao Mundial da Alemanha) e viveu nas três primeiras épocas o seu momento áureo, tendo sido em 2007/2008 eleito o jogador do Ano da Liga. No final da época transacta transpareceu o desejo de sair mas, tal como o compatriota Lisandro Lopez, ficou para conquistar o Tetra. Uma lesão muscular contra o Manchester United obrigou-o a dizer adeus cedo ao resto da época. Nesse encontro, aquele que era considerado por muitos como o melhor jogador a actuar em Portugal, despediu-se do clube que o apresentou ao futebol europeu que agora continuará a segui-lo no mitico Velodrome por pedido expresso de Deschamps, que vê no argentino um jogador de traço similar ao seu.
E agora, na Invicta, o que vai acontecer?
Como se tem visto nos últimos anos o FC Porto volta a por os interesses financeiros por cima dos interesses desportivos e continua a desmantelar as equipas campeãs, despojando-as dos seus melhores elementos. Enquanto a lista de emprestados aumenta de época para época, para tapar o imenso buraco financeiro resultado de uma péssima gestão da SAD azul e branca, vão-se vendendo todas as jóias. Sob o pretexto de que os jogadores querem dar "um passo" na carreira, o clube da Invicta vai realizando apeteciveis negócios para a tesouraria, mas sem efeitos positivos no plantel.
A venda de Lucho Gonzalez é um bom negócio. Um jogador com 28 anos e que chegou há quatro temporadas por 10 milhões de euros valoriza-se agora praticamente no dobro e evita ao clube pagar um dos salários mais altos do futebol português. Se o futebol fossem só números, a SAD portista estaria de parabéns. Lucho era um elemento que há muito tinha manifestado vontade de dar o salto e evitar um problema de balneário e lucrar com isso é, à primeira vista, um acto licito.
À primeira vista.
A venda de Lucho tem consequências devastadoras para a equipa orientada por Jesualdo Ferreira. Ao contrário do que se verificou ao largo dos anos 80 e 90, hoje em dia Jorge Nuno Pinto da Costa perdeu o total controlo sob a orientação desportiva azul e branca. Vender um elemento da importância de Lucho sem ter um substituto á altura é um tiro no pé que dificilmente irá sarar. O Werder Bremen - para colocar um exemplo bastante similar - vendeu a sua maior joia, Diego, mas durante o ano foi preparando o seu sucessor, nada mais nada menos que o melhor jogador do último Europeu sub21, Mezut Ozil.
No Dragão quem foi preparado para tomar rédea da batuta do maestro argentino? Num clube com um défice de criatividade brutal desde a saída de Deco (e piorada com as súbitas vendas de Diego e Anderson, únicos capazes de sarar a ferida da saída do "Magico") em nenhum momento houve a preocupação de preparar o testemunho. Uma situação aliás que se verifica com Bruno Alves (tanto Maicon como Nuno André Coelho são jovens promessas mas sem experiência na casa e sem transição efectiva no plantel) e Lisandro Lopez (Orlando Sá e Varela são jogadores muito distintos ao argentino). Hoje em dia o plantel azul e branco tem um meio campo cujo o nivel está na metade de tabela. Raúl Meireles, Mariano Gonzalez, Tomas Costa, Guarin e Fernando não podem ser os elementos que Jesualdo Ferreira tem para atacar o Pentacampeonato.
Vender jogadores é natural numa instituição desportiva, especialmente se é tão mal gerida como o FC Porto.
Mas fazê-lo sem preparar um sucessor é destruir um projecto de futuro da forma mais irresponsável. Nem nas camadas jovens azuis e brancas nem nas contratações anunciadas há sinal de alguém que possa assumir o peso da responsabilidade de liderar o onze portista em campo. Uma contratação de renome não apagará a falha de manter a continuidade, algo preocupante se temos em conta que a saída de Lucho (como a de Lisandro ou de Bruno Alves) há muito que se previa. Não ter contratado nenhum jogador no ano passado ou no inicio da pré-temporada já tendo essa situação resguardada, permitindo que fosse feita a ponte como sucedeu no passado com Gomes e Domingos, Zahovic e Deco, Paulo Ferreira e Bosingwa ou Vitor Baía e Helton, jogadores lançados na primeira equipa a tempo de beberem do homem que acabaram por suceder a mistica do clube, é um erro.

Enquanto que os rivais não abdicam dos jogadores elementares e se preparam para reforçar em posições chaves, o FC Porto vai vendendo caro, contratando barato e esperando que a mesma fórmula de sempre e os tropeções rivais levem os adeptos aos Aliados em Maio. Um hara-kiri que poderá custar caro aos dragões mas que infelizmente já deixou de ser uma novidade.

