Durante os últimos quinze anos - e se exceptuarmos o reinado de José Mourinho - o futebol ingles viveu da "guerra" entre dois monstros dos bancos de suplentes que foram capazes de transformar os seus pequenos projectos em exemplos paralelos do que deve ser a gestão de um clube de futebol. Num país onde poucos conhecem os nomes dos presidentes dos clubes cabe aos "managers" toda a função coordenadora do clube. E não houve nas últimas décadas dois nomes marcantes como os de Sir Alex Ferguson e Arséne Wenger.
Fergusson é da velha escola do futebol britanico, talvez o grande herdeiro da escola de Busby e Shankly que ainda anda pelos relvados. Não é um mestre da táctica em campo mas é temível a mexer na equipa. Não tem um olho clinico para as contratações mas trabalha com uma equipa de primeira linha que o apoia em tudo. E é o rei dos comentários psicológicos, antes e depois dos jogos. Os mais novos lembram-se das guerras com Mourinho - de quem se tornou grande amigo, pudera, carne da mesma cepa - mas foi com Kevin Keegan, quando este liderava o seu Newcastle rumo ao titulo, que conseguiu deixar verdadeiramente marca. O treinador dos red devils massacrou, semana após semana, a antiga glória a ponto de o fazer estalar. E o Manchester United venceu, na última jornada, um titulo que parecia entregue aos geordies. Elevado à condição de Sir, ressuscitou após a passagem de Mourinho e voltou à ribalta no futebol britanico. Fala-se em retirado mas conhecendo-o bem, ainda falta muito para o ver longe do banco.
Por outro lado Arséne Wenger personifica o espirito cavalheiro que desapareceu a pouco e pouco dos bancos de suplentes. É um pensador do futebol ofensivo, provavelmente o maior mestre de formação jovem no activo. Dirigiu o AS Monaco onde lançou as bases da geração de ouro monegasca (entre outros estavam Henry e Trezeguet) e depois de uma viagem ao Japão, chegou em 1996 a Highbury Park. Para construir um projecto ganhador. Aproveitando as velhas glórias da casa, foi lançando, a pouco e pouco, jovens desconhecidos que foram marcando a diferença. A França campeã do Mundo de 98 muito deve a este Arsenal de Vieira, Petit, Pires, Henry e Anelka. Foi vendendo os aneis para não perder os dedos, ganhando titulos aqui e ali, sem poder competir financeiramente com os grandes rivais do norte. O novo Emirates Stadium hipotecou financeiramente o Arsenal para a próxima década. Mas Wenger não se queixa, sempre que o deixem contratar jovens imberbes, que depois transforma em estrelas. Fabregas, Walcott, Vela, Song ou Denilson são os últimos exemplos mas a lista perde-se no infinito. Todos os anos se fala na sua partida, todos os anos vai ficando. Resta saber até quando, especialemente sabendo, que sem dinheiro é dificil bater-se com os seus grandes rivais na Premier.

É portanto hoje, em Old Trafford, que se voltam a enfrentar estes dois estilos, estes dois métodos de encarar o futebol. O veterano guerreiro e o clássico arquitecto. Wenger leva vantagem no total de jogos ganhos mas o Arsenal de hoje está mais débil que o todo poderoso Manchester United. Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Dimitri Berbatov e Ryan Giggs serão flechas apontadas ao coração de Almunia. Ao Arsenal falta-lhe ganhar essa Champions, sempre adiada. O Man Utd quer repetir o feito do AC Milan, em 1990 o último clube a repetir o triunfo em dois anos consecutivos. Antes do encontro começar Ferguson, chiclet na boca, dará a mão a Wenger, caderna de notas na mão. No final também. Apesar das duras palavras, da troca de picardia, há respeito mutuo. O espirito da Premier estará vivo na noite do hino da Champions. O Manchester parte com vantagem mas será Londres a decidir os dois finalistas. Nem todos os caminhos vão dar a Roma. Hoje está claro que só um serve. O da capital inglesa.

