Kaká venceu o prémio ao Melhor Jogador e redimiu-se da polémica ausência na Copa América. Luis Fabiano sagrou-se como Melhor Marcador e provou aos brasileiros que há vida para lá de Ronaldo e Adriano. Mas mesmo assim este tricampeão brasileiro nesta prova que ainda desperta pouca emoção nos adeptos nunca convenceu durante estas três semanas de prova. O Brasil sofreu, uma vez mais, para levar de vencida um surpreendente conjunto norte-americano e precisou de um golpe de autoridade do capitão Lúcio, a seis minutos do final do jogo, para conquistar o titulo. A que era o principal favorito. Uma vitória esperada mas que nunca deslumbrou em nenhum momento. Culpa de Dunga que prefere a eficácia ao espectáculo. Uma eficácia que lembra o Brasil de 1994 e que é um sério aviso para os rivais do escrete no Mundial do ano que vem.

A vitória brasileira era esperada por tudo e todos (havia quem acreditava na surpresa espanhola mas cedo se viu que La Roja ainda precisa de pulir muito o seu futebol) mas o onze brasileiro nunca deu a entender que tinha controlada a prova. Sofreu a bom sofrer no primeiro jogo, e apesar dos golpes de autoridade com os States e Itália - a grande decepção da prova - o que se viu deste Brasil foi um onze sólido, compacto, oportunista e competitivo. Da genialidade do futebol de rua brasileiro nem rasto. Nem Kaká, nem Robinho...tudo baseado num jogo de toque curto, rápido mas ao ritmo do relógio sem um rasgo de irreverência capaz de destroçar o adversário. A essência brasileira desapareceu por debaixo de uma capa europeizada do futebol do escrete, da mesma forma que Parreira montou o seu Brasil campeão de 1994 onde - e isto não surpreenderá ninguém - o fiel de balança era o mesmo homem que hoje sonha com o Hexa. Dunga manteve dois homens intocáveis toda a prova. Felipe Melo e Gilberto Silva são a trave mestre da sua equipa. Todo o jogo brasileiro gira à sua volta. E quando os dois médios defensivos são o fiel de balança do jogo brasileiro, está tudo dito.

O génio das individualidades continua a colocar o Brasil uns furos acima das restantes selecções. Foi assim no jogo com o Egipto, onde se viu o melhor Kaká. Foi assim com o potente livre de Daniel Alves na meia final com a África do Sul. E ontem foi o espirito goleador de Luis Fabiano quem fez a diferença. Os Estados Unidos mostraram que a eliminação da Espanha não foi uma coincidência. Tinham a lição bem estudada e controlaram durante a primeira parte o jogo brasileiro desde a sua grande área. Os dois golos de vantagem eram justos face à superioridade norte-americana. Mas na segunda parte surgiu o Brasil guerreiro que Dunga tanto aprecia. Kaká viu-se mais solto e foi uma investida sua pela esquerda que fez a diferença. A entrada de Daniel Alves deu mais acutilância ao ataque e a forma letal como o Brasil encara os lances de bola parada resolveu a questão. Marcou Lúcio, o central que já estava na equipa pentacampeã há sete anos e que é hoje o lider brasileiro. O central sabe jogar com os pés, é autoritário de cabeça e é um autêntico pastor de homens. Mereceu o golo da consagração e Dunga viu recompensado o seu método conservador mas tremendamente eficaz.
Este Brasil pode não deslumbrar mas parece muito mais sólido e consistente do que a equipa que viajou até à Alemanha. Ao contrário dos rivais de nome (Espanha e Itália) esteve à altura das circunstâncias e percebeu cedo que uma prova a eliminar tem de ser encarada de forma particular. No entanto o futebol em campo do escrete não deslumbra como nos acostumou. Kaká parece um jogador mais pequeno neste sistema de jogo que depende muito da eficácia ofensiva do ponta de lança (neste caso Luis Fabiano) já que Robinho, um falso segundo avançado, foi uma constante sombra de si próprio. A sólida defesa e o muro no meio campo são a arma secreta de Dunga mas para vencer o Mundial do próximo ano o Brasil pode precisar de um pouco mais de pura eficácia para vencer. Talvez um pouco mais de magia...

