Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Num mundo em forte crise económica os clubes pequenos olham para a opção do empréstimo como a cura para todos os males. Há várias equipas da Liga Sagres que sobrevivem apenas graças ás "ajudas" providenciais dos três grandes que remitem os indesejados ou as suas jovens promessas a estes clubes de forma a que possam "encontrar o seu espaço". A realidade não é, de todo, exclusiva do futebol nacional mas é um sintoma do desiquilibrio desportivo que vive o futebol português. E que poderia ter solução caso a LPF aprove a iniciativa levada a cabo pelo SL Benfica de limitar a três o número de elementos emprestados pelos clubes a um outro da mesma liga. Está lançado o debate.

 

A questão é pertinente, em particular porque o futebol português, é desde a aprovação da Lei Bosman, um futebol extremamente dependente dos empréstimos de jogadores. O fenómeno é resultado do poderio financeiro dos três grandes, mas também da liberalização do mercado à entrada de jogadores estrangeiros e ao implemento da ditadura do empresário e as suas inevitáveis comissões que deram cor a alguns dos negócios mais vergonhosos do nosso futebol. Ou seja, os três grandes - e centramo-nos em FC Porto, SL Benfica e Sporting apesar de terem politicas muito distintas - para além dos planteis com qualidade superior ao dos rivais, pelo seu poderio financeiro, têm o hábito de contratar, ao primeiro sinal, os nomes emergentes das equipas de pequena e média dimensão. Engordam assim os seus planteis a que há ainda que juntar os jogadores saídos de formação e que nos últimos dez anos, se exceptuarmos o exemplo do Sporting, foram totalmente abandonados pelos técnicos das principais equipas portuguesas. Entre os estrangeiros que não vingam (ou colocados estrategicamente por empresários na politica cada vez mais habitual de eu ajudo-te a contratar este e tu contratas-me também aquele), os jovens da formação e jogadores contratados a clubes pequenos que precisam de "rodar", os três grandes tiveram, na época passada um total de 62 jogadores, segundo um estado publicado na edição de hoje do jornal O Jogo. Um total do que seriam, praticamente, seis equipas de futebol. Jogadores que poderiam pertencer aos quadros de outros clubes, e assim elevar o nivel desportivo do nosso campeonato, ficam assim dependentes de clausulas, relações desportivas entre as direcções e a inevitabilidade de jogar em ligas de menor prestigio para poder manter o ritmo competitivo.

 

O SL Benfica aproveitou a questão e lançou o debate, propondo que a LPF adopte uma nova lei que limite os empréstimo a três por clube. Uma opção defendida por Sporting e Vitória de Guimarães, clubes que, historicamente, favorecem as suas escolas de formação. Do outro lado da barricada está o FC Porto, que quer liberalizar ainda mais um mercado que domina por completo. Com os dragões estão os sequazes, Braga e Leixões. Mas o problema não é nacional. A própria Premier League - o maior campeonato do mundo - vive hoje sob o projecto de terminar com os empréstimos entre clubes (actualmente está permitido quatro por clube a equipas da mesma liga, sendo que nenhum clube pode receber mais de um da mesma proveniência) apesar da ideia estar longe de ser consensual. Mas a questão, mais do que desportiva, é moral. Um clube que empreste mais do que um jogador a outro clube, continuando a pagar o salário e tendo a possibilidade de que este não defronta o seu clube de origem (ou que o defronte e veja a sua exibição questionada do primeiro ao último segundo), consegue triunfar em toda a linha. Mantém o seu jogador a render, evita jogar com um elemento da equipa rival titular nos confrontos directos e ainda consegue uma posição de superioridade económica e moral sobre o clube que recebe os emprestados. Em troca este não recebe nada mais que um jogador que durante um ano roda para depois voltar à casa mãe. Lucro zero para quem recebe um elemento em lugar de trabalhar na formação de algum jogador da sua própria formação para o mesmo posto.

 

A posição do FC Porto é coerente com a politica recente do clube tetracampeão nacional. Os dragões tiveram, na época transacta, um total de 36 jogadores emprestados. Três equipas com direito a suplentes repartidos em 11 (Liga Sagres), 16 (Liga Vitalis) e 9 (Ligas estrangeiras). Ou seja, a equipa azul e branca apresentou no ano passado um total de 60 jogadores com contracto profissional, do qual a maioria não chegou a realizar um único minuto de azul e branco. E se nem todos os contractos são iguais, na maioria a experiência será repetida, ano após ano, até se conseguir vender o passe do jogador ou então, até que se termine a ligação contractual. Isto com salários pagos pelo meio que ajudam a ampliar o passivo de um clube que é o que mais e melhor vende na liga portuguesa. Nas Antas sempre vigorou a ideia de que um jogador jovem tem "de comer o pão que o diabo amassou", antes de entrar na equipa principal. Grandes elementos da história azul e branca viveram situações de empréstimo mas a situação agora é de um extremo total que leva a um descontrolo absoluto por parte do próprio clube em relação aos seus activos. 

Por outro lado os clubes da capital assumem posturas distintas. Enquanto que o Sporting é o clube que claramente aposta nos escalões de formação e em contratações pontuais, o SL Benfica tem aproveitado os empréstimos para colocar as suas maiores promessas, longe do rebuliço desportivo que é o estádio da Luz. Ambos os clubes tiveram apenas cinco jogadores emprestados a clubes da Liga Sagres este ano (num total 13 cada um). 

 

Que existam clubes como Rio Ave, Olhanense, Estrela da Amadora, Trofense ou Vitória de Setúbal que tenham vivido, na época passada, literalmente dos jogadores emprestados, é o espelho de um futebol de fraco nivel. Quase como se clubes de reservas se tratasse, chegaram a alinhar pelos sadinos seis jogadores emprestados pelos grandes. Num clube histórico com um grande historial de formação. Ao fenómeno dos clubes satélites dos anos 90 (Alverca, Lourinhanense,...) e do falhanço das equipas B, agora junta-se o estrangulamento desportivo da própria liga principal do nosso futebol (se bem que o fenómeno extende-se para a Liga Vitalis de forma assustadora). É legitimo questionar a verdade desportiva de um FC Porto-Vitória de Setubal (clube com cinco emprestados portistas), (dois jogadores emprestados pelos leões) ou SL Benfica-Rio Ave (dois empréstimos encarnados). É legitimo acreditar que as votações nas assembleias gerais da Liga se negoceiam á custa de muitos empréstimos que não beneficiam ninguém a longo prazo. É legitimo acreditar que a crise do futebol de formação português deve-se a que, exceptuando o Sporting, os melhores jovens portugueses actuem como emprestados em clubes da parte baixa da tabela da Liga Sagres ou na plena Liga Vitalis, quando entre as equipas que disputam actualmente o Euro sub21, a esmagadora maioria dos titulares das equipas presentes são titulares ou figuras importantes em clubes de grande e média dimensão europeia. 

 

A postura do FC Porto espelha bem o caracter autista do maior clube portugês, mais preocupado em gerir as suas relações com empresários e em escoar os péssimos negócios de anos (ainda estão na lista de pagamentos elementos como Pittbul, João Paulo, Pelé, Renteria, Leandro Lima ou Kazmierczack) do que em elevar o nivel do campeonato que domina, esquecendo-se de que o próprio clube é o primeiro a benificar de um maior nivel da prova nacional. Quanto aos clubes de Lisboa, com menos faro para o negócio e mais problemas financeiros, a aposta na formação é o caminho a seguir e para tal sabem que o jogo fica viciado a partir do momento em que um só clube é capaz de controlar, graças aos empréstimos, meia dúzia de clubes numa liga de 16. A verdade desportiva exige que se trava esta hemorragia. Conhecendo bem o futebol português, o mais provável é que nem tudo fique na mesma, nem o sangue pare de escorrer. E continue a queda em picado. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:00 | link do post

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