Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

 

Durante um mês o futebol logrou estar perto da perfeição. Tocou o céu e fez-se arte pura em forma de espectáculo. Um calor abrasador no tórrido México não impediu que nesse mês de Junho aqueles afortunados que puderam seguir o Mundial do México 1970.
O Mundial onde o Brasil mostrou ao mundo até que ponto poderia chegar a ser belo o futebol. Rivelino, Gerson, Clodoaldo, Carlos Alberto, Jairzinho, Tostão, Pelé…nomes próprios daquela que é, ainda hoje, a maior equipa que alguma vez pisou um relvado de futebol. 

 

É curioso que pouco antes do Mundial do México de 1970 o Brasil vivia uma grave crise desportiva, a Inglaterra acreditava continuar a ser a maior potência europeia – apesar da Itália ter vencido o Europeu dois anos antes – e as equipas sensações da edição anterior (Portugal, Coreia do Norte, França, Argentina, Hungria) tenham falhado a classificação para a primeira prova disputada fora do eixo Américo do Sul-Europa. O México prometera que o nono Mundial seria exemplar e cumpriu-o. Estádios de alto nível, bancadas repletas, publico entusiástico e ensurdecedor. E um futebol divinal. Para além do Brasil, ao longo desse Verão o Mundo conheceu algumas das melhores versões dos países participantes. O excelente Peru, o combativo e talentoso Uruguai, último vencedor da Copa América, foram as grandes revelações. A Checoslováquia e a Suécia estiveram a bom nível enquanto que URSS mostrou de novo ter uma equipa de alto gabarito. Por sua vez a campeã do Mundo, Inglaterra pode gabar-se de ter tido Banks a parar o remate mais célebre de Pele, mas o onze da rosa acabaria por perder com o Brasil e mais tarde cairia diante da RF Alemanha, que assim conseguiu uma doce vingança da derrota quatro anos antes. Por sua vez os germânicos, ainda com Uwe Seeller mas já com Beckhambauer e Muller no onze, caíram aos pés da melhor Itália de que há memória, onde Riva e Rivera jogavam como se estivessem no jardim de sua casa. Mas se hoje as pessoas se lembram do Mundial de 70 – o primeiro a ser transmitido a cores pela televisão - a culpa tem uma formação que parecia destroçada semanas antes e que lançou as bases para o futebol do futuro vestida de amarelo e azul.
 
Meses antes de arrancar a prova o Brasil tinha como seleccionador um jornalista, João Saldanha, que entre outras peregrinas ideias, dizia que Pelé não tinha lugar no ataque brasileiro porque estava a ficar com graves problemas de visão. Afastou o avançado e começou a chamar à primeira equipa jogadores de segunda linha, utilizando um alinhamento táctico que rejeitava a forma de jogar da equipa montada por Feola em 1958 e que tinha dominado o futebol mundial, com o interregno de 1966, na década seguinte. A contestação interna e os péssimos resultados em campo fizeram com na véspera da prova Mário Zagallo fosse apontado como seleccionador. O antigo campeão do Mundo de 58 e 62 juntou os veteranos liderados por Pele e uniu-os a uma nova geração de talentos liderada por Jairzinho. O estilo de jogo vertical, com rápidas desmarcações e o apoio dos velozes laterais ao jogo ofensivo fizeram deste Brasil uma máquina de jogar futebol ofensivo. Zagallo deslocou Pelé para o centro do ataque, jogando como apoio directo à dupla ofensiva composta por Tostão e Rivelino. O esquerdino desequilibrava nos lances à entrada da grande área enquanto que o veloz Tostão mostrava todo o seu leque de recursos para assumir-se como um dos goleadores da prova. Pelo eixo lateral Jairzinho rasgava com facilidade as defesas contrárias lembrando o melhor Garrincha, eixo nuclear para as vitórias nos dois anteriores mundiais. No entanto o cérebro deste Brasil estava na dupla de centro-campistas. O génio de Gerson e a sobriedade de Clodoaldo fizeram a diferença. Com passes rápidos e largos, abriram os jogos mais complexos e permitiram a Pelé, já na etapa final da sua carreira, mostrar todo o seu génio. O avançado do Santos foi o melhor jogador da prova, desequilibrante em todos os encontros.
 
A tentativa de chapéu do meio campo diante da Checoslováquia, o drible ao guardião uruguaio Mazurkiewicz ou a cabeçada que abriu as portas para o Tri são, ainda hoje, momentos de antalogia.

 A magia do futebol deste escrete canarinho ficou demonstrada no último dos 4 golos que o Brasil marcou ao onze italiano. Naquela que é, ainda hoje considerada a melhor final da história, a capacidade de toque de bola brasileira fez toda a diferença. A poucos minutos do fim o capitão Carlos Alberto, notável lateral direito da velha escola, iniciou um lance ofensivo. A bola passou pelos pés de oito jogadores (Tostão, Brito, Clodoaldo, Pele, Gerson, Rivelino, Jarizinho) até voltar aos pés de Pelé que esperou pacientemente a entrada do lateral que fuzilou sem apelo nem agravo as redes italianas. O golo que confirmava um triunfo claro, a superação da magia sul-americana diante da organizada selecção europeia. Ao longo do trajecto não houve um único encontro disputado por este Brasil que não tenha sido emocionante em toda a sua plenitude. Momentos históricos que a televisão imortalizou e permitiu que a este magnifica selecção (como sucederia mais tarde ao Brasil versão 82) entrasse na memória colectiva, ao contrário dos magníficos onzes do Wunderteam austríaco ou dos Magiares húngaros, dos anos 30 e 50, que não surgiram a tempo do boom dos mass media que permitiu naquele Verão que qualquer habitante do planeta pudesse adormecer à noite com o samba de Pelé e companhia na mente, sonhando em ser uma estrela do “beautiful game” que em 1970 se transformou finalmente em “jogo bonito”!



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

2 comentários:
De Jogos de Motas a 26 de Abril de 2011 às 23:19
Obrigado, Miguel


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Abril de 2011 às 08:13
Não, obrigado eu!



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