Pela primeira vez na história um Mundial de futebol será disputado pelas duas Coreias. Nações divididas por questões politicas mas que ontem celebraram em conjunto. A selecção sul-coreana, já um habitué nestas provas desportivas, confirmou a liderança do seu grupo enquanto que a Coreia do Norte garantiu o apuramento com um empate a zero diante da Arábia Saudita de José Peseiro. Desde a mitica participação no Mundial de 1966 que os norte-coreanos não voltavam a um Mundial. Em 2010 estarão na África do Sul.

Depois de uma notável primeira fase de apuramento onde se mediram com rivais de peso como a China - que marcara presença nas duas provas anteriores - a selecção da Coreia do Norte era tudo menos favorita num grupo onde actuavam a rival do Sul, a poderosa Arábia Saudita e os Emirados Arabes Unidos, duas potências do Golfo. No entanto a equipa liderada pelo pragmático Kim Jong Hun superou todas as expectativas. Foi caminhando tranquilamente, jogo a jogo, até chegar ao encontro decisivo contra a eterna rival. Uma vitória ou empate eram meio caminho andado para estar na África do Sul. O jogo foi duro e acabou com um empate que deixava tudo na mesma. A tensão podia sentir-se em Pyongiang. Há mais de três décadas que a equipa não se encontrava tão perto de repetir um feito que só alcançara por uma vez. Naquele mitico Verão de 1966 os norte-coreanos bateram a poderosa Itália e lograram a classificação para os quartos de final. Ao intervalo venciam Portugal por 3-0 e só acabaram eliminados pela magia de Eusebio, autor de 4 dos 5 golos com que os "magriços" deram a volta ao marcador.
O jogo decisivo com a Arábia Saudita - que precisava de uma vitória para lograr o apuramento directo - foi preparado ao minimo detalhe. A viagem a Riade foi seguida com inusual atenção pelos vizinhos do sul. No Verão passado as federações colocaram a hipotese de apresentar-se com uma equipa conjunto. A aproximação das relações das duas nações dependia igualmente do sucesso das respectivas selecções. A equipa sul coreana já tinha o apuramento confirmado. Faltavam os vizinhos comunistas do norte. O jogo contra a equipa árabe foi tenso. Os sauditas controlaram o encontro mas diante do guardião norte-coreano falharam cada uma das oportunidades que dispuseram. A equipa da Coreia do Norte, dirigida em campo brilhantemente por Kim Kum Il, suportou a expulsão de Kim Yong e aguentou até ao final. Com o apito do árbitro fez-se história.

Agora, pela primeira vez na história, uma cerimónia de um Mundial verá desfilar as bandeiras das duas Coreias. Numa época tribulada onde o regime norte-coreano desperta descontentamento no resto do Mundo com o seu programa nuclear, nada melhor para dar outra imagem do seu povo do que estar presente num Mundial. Apesar de não ser futebolisticamente uma potência, a equipa norte coreana provou ao longo da fase de qualificação ter estofo para uma grande competição. Mesmo depois de tantos anos.
Se o mundo está habituado a ver as camisolas vermelhas da Coreia do Sul, a África do Sul promete dar outro rosto do futebol mundial apresentando aos mais novos um país enigmático que vive numa intensa cortina de fumo e que aproveitará o Mundial para demonstrar que há vida a norte da peninsula coreana.

