Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Quem me conhece sabe perfeitamente que não sou um "Ronaldieber", ou lá como se chamam agora os groupies adolescentes. Também não acredito na defesa absoluta de quem quer que seja pela nacionalidade, cor ou credo. Se Blatter tivesse ridicularizado Messi como um "enano hormonado", como lhe chamam por Madrid, teria dito exactamente o mesmo. A FIFA existe apenas e só porque o futebol é um fenómeno global que ultrapassa todo o tipo de fronteiras. É a verdadeira globalização. E deve-o aos seus grandes jogadores por cima de tudo e de todos. E Ronaldo é um desses jogadores e merece o respeito de quem vive, indirectamente, à sua custa!

Hoje cumpre 53 anos Diego Armando Maradona.

El Pibe é provavelmente um dos melhores jogadores de todos os tempos. Vê-lo jogar é o mais próximo que um adepto de futebol pode estar de um orgasmo artístico. Vi Maradona fazer o possível e o impossível milhões de vezes. Desafiava a gravidade, desafiava tudo e desafiava todos. Foi o último grande símbolo do "potrerismo" puro e mágico da escola sul-americana. E foi também um drogado, um putanheiro e um fraudulento fiscal. Começou a consumir cocaína em Barcelona, em Nápoles passou a ser acompanhado por uma corte das mulheres ao serviço dos capos da máfia local e deve, ainda hoje, milhões de euros ao estado italiano. E no entanto, hoje, 30 de Outubro, só nos conseguimos lembrar da "mano" e do "barrillete cósmico". Porque Maradona, o jogador, é muito mais do que Maradona, o homem.

Johan Cruyff cumpriu há dois dias quarenta anos da sua estreia como futebolista do Barcelona.

Foi, talvez, o momento mais marcante da história moderna do futebol europeu. Significou a transição definitiva da escola danubiana do centro da Europa para Barcelona. Está na base do Dream Team e do Pep Team, da cultura de futebol de posse que a muitos nos tem fascinado. Cruyff é, para mim, o melhor jogador europeu de sempre. Se é que algo assim se pode dizer. É também um dos homens mais inteligentes alguma vez associados a este jogo, dentro e fora do campo. No relvado não parava de se mexer, de falar, de dar ordens, de movimentar-se e movimentar os outros. E com um gesto, uma finta de corpo, tal como Diego, desafiava a gravidade e fazia as estrelas sonhar. Cruyff é também um homem obcecado com o dinheiro, um sovina de primeira, um populista capaz de baptizar o filho como Jordi aos seis meses de chegar a Barcelona e, sobretudo, um menino-mimado que abandonou o clube que cuidou da sua família desde que ficou órfão no dia em que os seus colegas não lhe votaram como capitão. Na rua seria conhecido como o mimado dono da bola. No mundo do futebol é um génio superlativo. Para mim, pessoalmente, irrepetível.

 

É muito perigoso julgar os jogadores pelo que são fora do campo.

Best era alcoólico e mulherengo. Cantona agredia pessoas quando insultado e saiu chateado de quase todos os clubes por onde passou. Zidane fervia em pouca água como poucos. Garrincha era a versão brasileira de Best mas com um neurónio menos. Meazza tinha simpatias fascistas. Di Stefano era um autêntico ditador moderno dentro e fora do balneário do Real Madrid. Pelé era um fraudulento oportunista e um demagogo que vive há décadas daquilo que representou. A lista é infindável.

Cristiano Ronaldo - como nenhum dos outros nomes citados - é propriamente um exemplo. Pelo menos para mim.

Mas como jogador é irrelevante o que gaste em cabeleireiros. O que gaste em carros desportivos. Com quem dorme à noite, onde passa as férias, de que cor é o bronzeado, de que tamanho são os brincos que leva e quão ridículos são os gestos que faz nas celebrações (ainda que o "calma, calma" tenha sido genial, confesso). Ronaldo é tudo isso como homem. Não como jogador. Como futebolista é um dos melhores da história, seguramente um dos melhores das últimas décadas. É capaz de coisas abrumadoras que a esmagadora maioria dos jogadores nem sonhando poderia repetir. É um jogador totalmente diferente de Messi ou Ronaldinho, por exemplo, mas isso não invalida que em campo seja imenso, que os seus números possam ser impossíveis de bater num futuro próximo e que quando está em campo o rival tenha de se benzer um par de vezes extra para o travar. Ronaldo é um dos maiores futebolistas do Mundo e a FIFA - a organização que deve velar "for the good of the game" devia ter-lhe o mesmo respeito que tem a qualquer outro. Nem menos, nem mais.

O que Sepp Blatter fez - e atenção, o suíço fez coisas muito mais graves e, lamentavelmente, menos mediáticas - é um insulto ao futebol não a Ronaldo. O mesmo seria válido se tivesse dito que preferia o português a Messi porque este é um fraudulento fiscal, vomita recorrentemente no relvado e fala de uma forma que ninguém entende. Messi é um génio (cada um poderá escolher de quem gosta mais) e como futebolista há poucos tão bons. Um deles é Ronaldo. Blatter como amante do jogo - como eu, como vocês - pode ter o seu favorito. Naturalmente. Como presidente da FIFA não o pode ter, muito menos utilizando elementos externos ao jogo como balança de decisão.

 

Inevitavelmente, esta polémica apenas joga a favor de Cristiano Ronaldo. Conseguiu colher simpatia global, unir muitos portugueses a sua polémica figura (continuo sem entender a obrigatoriedade nacional de estar sempre com alguém que é do mesmo país mas também não entendo o oposto, a critica gratuita e invejosa tão habitual dos países do sul da Europa) e reforçar a ideia de que muitos dos prémios do génio argentino dos anos anteriores possam ter sido condicionados. Pelo menos o critério mudou, isso temos todos claro, caso contrário Wesley Sneijder e Andrés Iniesta (e não Ronaldo) também já teriam vencido o tal Ballon D´Or. O que a FIFA acabou de fazer é um verdadeiro insulto ao jogo e não haverá forma de emendar o erro. Ronaldo deveria - ainda que não o vá fazer - renunciar publicamente aos prémios FIFA dando um sinal de maturidade e despreocupação. O seu ego seguramente que não lhe permitirá. E da próxima vez que alguém se lembrar da dança de Blatter e dos seus comentários, lembrem-lhes que tipo de pessoas eram "El Pibe" ou o grande Johan fora dos relvados. Talvez aí o gel no cabelo e o brinco dourado pareça ainda mais inofensivo do que já é. O futuro, esse, é quem tratará de julgar o verdadeiro papel de Cristiano Ronaldo no constelamento das estrelas do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 12:06 | link do post | comentar

23 comentários:
De António Teixeira a 31 de Outubro de 2013 às 09:51
Caro Miguel,

O seu texto é muito acertado. O Blatter esteve mal e nem sequer tem que se pronunciar, pelo cargo que ocupa. O Ronaldo respondeu, ainda que tenha mostrado, mais uma vez, a falta de educação que o tem vindo a caracterizar. O nacionalismo da moda é assim; essa gente defende por defender. O Messi é melhor, logo, porque motivo se há-de dizer que o Ronaldo ou o Tozé Marrekovic é melhor?Porque é português?
Sobre o prémio Fifa, o seu argumento é inválido, e bem sabe. Nunca a FIFA falou de critério algum.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Outubro de 2013 às 15:01
António,

Não vejo onde é que o Cristiano Ronaldo possa ter sido mal educado em nenhum momento. Quanto a quem é melhor ou não, esse critério é e deve ser sempre extremamente pessoal. Não acredito que exista - como nunca existiu - uma verdade absoluta sobre gostos. E ainda bem.

Quanto ao Ballon D´Or, o meu argumento não é inválido. Os estatutos do prémio, desde a fundação do prémio pela France Football, claramente definem que o prémio deve ser entregue ao jogador que realizou a melhor temporada individual integrado num colectivo. Por isso mesmo, desde os anos 50, a natureza dos prémios tem sido constante. Não sou eu quem o diz, é o próprio historial do prémio.

Desde que se tornou FIFA Ballon D´Or, com a votação aberta a seleccionadores/capitães, tornou-se num concurso de popularidade. Basta ver que calculando apenas os resultados dos jornalistas que votam e que votavam no prémio anterior, actualmente Messi tinha dois prémios (2009 e 2011) e Iniesta e Sneijder tinham um cada. Ao alterar-se o modelo de voto alterou-se a natureza do prémio. E isso para mim é válido ganhando Messi 4, Ronaldo 4, Ibrahimovic 4, Neymar 4. É irrelevante. O Ballon D´Or foi até 2009 uma coisa e agora é outra. A questão é assumir!


De António Teixeira a 31 de Outubro de 2013 às 17:11
Caro Miguel,

Claro que é popularidade, mas mesmo no caso do Ballon D'Or, também o seria (ainda que com uma amostra de votantes menor); eu não acho que seja uma questão de gostos, mas pronto; o Messi merecia também em 2012, a meu ver, não deixando de ser o melhor jogador nesses anos todos (não pode comparar os 90 golos com ganhar um europeu, até porque a probabilidade do primeiro feito é bem menor). Adiante.

Sobre o Ronaldo, tendo razão, é mal educado quando deseja uma longa vida ao homem. Não lhe tira razão nenhuma, mas fica-lhe mal, a meu ver.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Outubro de 2013 às 17:37
António,

O Ballon D´Or, repito, nunca foi o prémio do melhor do Mundo. Foi o prémio do melhor num ano. Por isso enquanto Cruyff esteve no activo também o ganhou Muller, Beckenbauer, Blokhin ou Simonsen que não eram melhores que ele. Ou as vitórias consecutivas de Rummenige. Ou o triunfo de Jean-Pierre Papin, George Weah, Fabio Cannavaro, Pavel Nedved ou Andrei Shevchenko, nenhum deles nem de perto o melhor do mundo enquanto estavam no activo. Se Messi é ou não o melhor do Mundo, isso é um debate paralelo. Mas os únicos anos em que se alteraram claramente os critérios históricos do prémio (triunfo ao nivel de selecções em ano de mundial/europeu e vitórias em provas nacionais e europeias) o vencedor acabou por ser ele. Em 2010 não vejo onde a sua vitória tenha qualquer tipo de justificação. Em 2012 é discutivel, o mérito individual é tremendo mas nem serviu para o seu clube ganhar a liga, nem a Champions, por exemplo, critérios habituais.

Quanto a Ronaldo, acho que foi de uma boa educação tremenda em comparação com o insulto. Isso de por a outra face fica bem para aconselhar ao próximo, quando nos toca a nós custa bem mais. Depois de ter sido gozado pelo presidente da FIFA para uma audiência mundial, desejar-lhe muitos anos de vida é o mais light que se me ocorre.


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