Sábado, 26 de Outubro de 2013

O futebol, como a vida, faz-se de decisões. No caso dos grandes jogos são os pequenos detalhes que, habitualmente, se revelam decisivos. Depois de um ano com um registo quase imaculado, mesmo no período mais negro da era Mourinho, o Real Madrid de Carlo Ancelotti comportou-se como uma equipa que não conhecia em absoluto a forma correcta de ultrapassar um rival que é cada vez mais uma sombra da imensa equipa que já foi. O suicídio táctico de Carlo Ancelotti, um misto de medo e submissão ao poder presidencial do clube, deu um balão de oxigénio a um Barça decadente mas sempre perigoso.

Bale parecia perdido. Não, Bale estava perdido.

Independentemente da sua questionada condição física, o galês não encontrava uma só combinação colectiva. Olhava com ar surpreendido para tudo e todos. A alta competição é assim e a diferença entre ser a estrela do Tottenham e ver-se como protagonista de um Barça-Madrid é grande. Cada bola que acabava nos seus pés perdia-se para sempre. Nem a sua velocidade ou capacidade física se fizeram notar. As ajudas defensivas do Barcelona anularam todo o seu potencial. A sua incapacidade de combinar com os colegas fez o resto. Tinha Bale condições para ser titular? Naturalmente a resposta é não. E porque jogou?

Fácil. Custou quase 100 milhões de euros, não estava oficialmente lesionado. Se não tivesse jogado muita gente importante se chatearia a sério. E Ancelotti não é treinador de incomodar os seus ricos chefes. Nunca foi.

Para colocar a Bale em campo, Ancelotti aceitou perder o jogo. Perder a herança de um modelo questionado por muitos mas que foi capaz de anular o Barcelona durante mais de um ano com autoridade. O Real Madrid de Mourinho, à medida que ia caindo em picado, mostrava-se, paradoxalmente, mais sagaz nos duelos com o eterno rival. Ganhou a liga no Camp Nou em 2012, venceu a Supertaça em Agosto e eliminou os blaugrana da Copa del Rey com autoridade. Pelo caminho voltou a vencer em casa para a liga e a empatar em Camp Nou. Como?

Aprendendo com os erros e explorando as falhas, cada vez mais evidentes, de um modelo já distante da herança inicial do guardiolismo. Mascherano e Piqué, uma dupla propensa ao erro, pressão alta no meio-campo explorando a dificuldade física de Xavi e Iniesta aguentarem noventa minutos de asfixia do rival e claro, um esquema de ajudas colectivas capazes de travar o génio de Messi. Ancelotti abdicou de todas essas lições. O Barcelona agradeceu.

Com Mascherano e Piqué em péssima forma, Carlo abdicou de jogar com um avançado que os segurasse e de-se espaço ao jogador mais em forma da sua equipa, Cristiano Ronaldo. Com Iniesta discutido e em más condições físicas, colocou Sérgio Ramos como médio defensivo e deu ao manchego todo o espaço do mundo. Com Messi e Neymar abertos nas alas, apostou em laterais ofensivos que foram incapazes de morder por medo a deixar espaços atrás. O seu 4-3-3 foi uma amalgama de jogadores perdidos em campo. Ronaldo não tinha posição. Bale perdia-a constantemente. Di Maria corria, corria e limitava-se a correr e embora Modric tentasse impor critério, não tinha ninguém com quem combinar porque Khedira é Khedira, Ramos é Ramos e os laterais raramente subiam com confiança. Um ano de herança destroçada por uma decisão que Ancelotti não teve a coragem de tomar.

 

Ao contrário do Real Madrid, o mérito do Barça é saber que tem uma ideia e que se se afasta dela sofre em demasia.

Martino, um argentino pragmático, percebeu que contra uma equipa a quem lhe custa ter a bola nos pés a melhor opção é guarda-la e esperar. Colocou Fabregas para forjar um losango com Xavi, Busquets e Iniesta e dar total mobilidade ofensiva para Neymar e Messi nas diagonais. O argentino não apareceu, como não tem aparecido. O brasileiro fez uma excelente primeira hora de jogo e foi decisivo em quebrar a hermética defesa rival, demasiado preocupada com o empalidecido Messi. O seu golo abriu o jogo e confirmou a ideia de Martino. Para o italiano colocar mais defesas e abdicar da sua essência - o ostracismo de Isco é evidente, a falta de confiança em Benzema, Jessé e Morata recorrente - não lhe valeu de nada contra uma equipa que troca a bola como poucas. A velocidade de outros tempos foi-se, mas a classe ficou. Iniesta sentiu-se cómodo, Neymar cumpriu o papel que já foi de Pedro ou Villa e o resultado foi o de quase sempre.

Com um golo de vantagem o Barcelona fez o que nunca tinha feito, nem com Guardiola nem com Tito. Recuou. Cedeu a iniciativa, deu um passo atrás e procurou gerir o resultado. Perdeu uma ocasião de morte de ferir um rival que não sabia a que jogava. O Real Madrid, em vez de a aproveitar, continuou a bater com a cabeça na parede. Só as entradas de Illarramendi, Benzema e Jesé devolveram ao clube merengue a sua essência. E foi nessa meia-hora que o jogo esteve, realmente, igualado. Os blaugrana deixaram de criar perigo e passaram a ver como Valdés, o poste e uma mão involuntária de Adriano impediam a igualdade.

A vinte minutos do fim Cristiano Ronaldo foi derrubado na grande área. Penalty claro e evidente por marcar. Na primeira parte Pepe tinha cometido também falta sobre Fabregas na área contrária. Os erros tiveram o mesmo denominador, um árbitro incapaz de controlar bem o jogo. A partir desse momento o Real Madrid desligou emocionalmente e Alexis Sanchez, recém-entrado, com o descaro de um novato, aproveitou o erro de Diego Lopez e a passividade de Varane para marcar um golo digno da noite. Jesé, depois de uma corrida fabulosa de Ronaldo, reduziu no último minuto. Pela primeira vez em cinco anos um Clássico com três golos e nenhum da dupla Ronaldo-Messi. Até nisso este duelo foi atípico. Se o argentino foi empurrado para a ala pela decisão do seu treinador e continua a sofrer problemas físicos, Ronaldo viu o seu técnico abdicar da sua máxima forma em prole de um desenho táctico inconsequente. Merecia mais.

 

A vitória do Barcelona dá três pontos aos lideres da prova mas mantém as duvidas no seu jogo, cada vez mais distante da matriz elogiada universalmente. No entanto um plantel que se permite ter a jogadores como Pedro e Alexis no banco tem sempre condições para resolver problemas mais agudos. No caso do rival a situação é radicalmente diferente. Ancelotti tinha os jogadores que queria (abdicou de Ozil, não exigiu um avançado top, resignou-se ao negócio de Florentino com Bale) mas mesmo assim criou um esquema incapaz de os aproveitar. E pagou o preço. A liga está mais dificil - em Espanha cada vez se perdem menos pontos - e a jogar assim, nem merengues nem blaugranas afastam-se perigosamente da elite europeia. Em Munique os campeões em titulo sorriem. Hoje em dia continuam sem ter rival à sua altura!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 19:42 | link do post | comentar

18 comentários:
De RP a 26 de Outubro de 2013 às 21:56
Muito boa análise ao jogo. Totalmente de acordo. Só estranho o facto do Carlo Ancellotti, que não gosta de criar ondas, ter colocado o Casillas no banco desde o inicio da época. Cumps


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Outubro de 2013 às 16:07
O Ancelotti, como aconteceu com o Capello, prefere o Diego Lopez como guarda-redes. E o Casillas, ao contrário do que se pode imaginar, é um jogador de quem Florentino Perez nunca gostou pelo que não lhe estendeu a cobertura que seria natural com um capitão com tanta história.

A Casillas cada vez parece mais evidente que lhe espera um destino como o que tiveram Raul, Guti, Sanchis e Hierro com o mesmo presidente ao leme!


De Miguel Antunes a 27 de Outubro de 2013 às 01:26
Excelente comentário e estou de acordo com praticamente tudo...só reforço a ideia, de que vender o melhor nº10 do mundo da actualidade (Ozil) por 50 milhões de Eur, para ír buscar um extremo que está a milhas de distância do Ozil por 100 milhões, é para mim negócio mais ridiculo de toda a história do futebol Mundial, e demonstra uma total incompetência da parte do treinador, presidente e todo o Real Madrid....

Quanto ao jogo, tal como eu previa, prevaleceu o factor casa, entre 2 equipas que no presente são uma sombra do que já foram num passado muito recente, e agora com 6 pontos de avanço o Barça quase só por milagre não vence este campeonato Espanhol cada vez mais desequilibrado..


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Outubro de 2013 às 16:09
A compra de Bale é puro marketing desportivo. Como foi a de Beckham, aliás. A diferença é que Beckham ainda se sabia mover em distintas posições, tinha um pé direito único no mundo, uma tradição de marcar golos decisivos de bola parada que cumpriu de forma determinante, sobretudo no último ano e era um jogador contrastado. Bale é um projecto de grande jogador em tudo. Apenas e só um projecto. E, hoje em dia, uma cópia do que é Ronaldo e um jogador muito menos útil que Di Maria.

Ancelotti fez o que sempre tem feito. Acedeu ao que lhe manda o chefe e abdicou do seu próprio modelo para agradar.


De Miguel Antunes a 27 de Outubro de 2013 às 22:38
Enquanto, para o Real Madrid, o marketing fôr mais importante que a gestão desportiva, todos os anos em Maio vão continuar a ver a festa do Barcelona a somar títulos e mais títulos...mesmo estando o Barça muito mais fraco que o da era Guardiola


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Outubro de 2013 às 14:23
Miguel,

Neste momento o mérito da liga é todo do Atlético de Madrid. O Barça com o orçamento que tem e os jogadores que tem deveria estar muito melhor. O Real continua a comportar-se como sempre se comportou com Perez ao leme. Só Mourinho, na realidade, tentou mudar um pouco a dinâmica das contratações galácticas (para isso estava ele) em prole de um colectivo mas os seus métodos passaram factura!


De Miguel Antunes a 28 de Outubro de 2013 às 23:02
Miguel,

Plenamente de acordo, e penso que isto só vem reforçar uma ideia que já tenho a algum tempo e penso ser demasiado evidente para toda a gente, é que a Liga Espanhola está cada vez mais e mais fraca, pois este é claramente o pior e mais fraco Barça dos 6 anos do "Guardiolismo", no entanto mesmo assim estão com o melhor arranque da história com 9v e 1e em 10 jogos, o que só vem provar que esta Liga Espanhola muito mas muito longe mesmo da "Liga das Estrelas" do início deste século..


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Outubro de 2013 às 10:32
Miguel,

Tenho-o dito e repetido. Quando duas equipas quadriplicam o orçamento de quem vem a seguir não pode haver qualquer tipo de emoção pela disputa pelo titulo. É o mesmo fenómeno do que passa em Portugal e passará em França. Duas equipas, dois mega-orçamentos comparados com os rivais, todos os melhores jogadores em dois planteis, os restantes a vender para sobreviver, eles a comprar para preencher o banco de suplentes. O futebol espanhol está assim desde 2005, sensivelmente e a situação vai-se agudizando.

Jogando bem ou jogando mal o título vai ser sempre de um ou de outro. Uma pena!


De mourinhista galego a 27 de Outubro de 2013 às 17:45
"Deus nos livre de um "ja foi"........Pero, ¿Siempre nos quedará Undiano Mallenco o "Undiano García de Loza" como alguién tuiteó.......


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Outubro de 2013 às 21:32
O árbitro esteve muito mal, para ambas partes!


De António Teixeira a 28 de Outubro de 2013 às 08:55
Isto. Foi uma arbitragem terrível, desde dois penalties (um argumentável e outro claro) a favor do Madrid, e um a favor do Barça (claro), bem como a questão disciplinar do Ramos. Mas pior é para quem tem que ver o jogo na Sporttv e não gosta de tirar o som xD.
Do jogo, são ambos uma sombra do que foram. Questão Ozil-Bale mostra bem o buraco que é o Madrid. O Barça para lá vai: baixam o bloco e atacam com 4, parece o Porto do Paulinho; inexplicável o Messi estar a jogar colado à linha na primeira parte (aliás, e a questão física do Messi? Quem é o responsável do departamento médico?)...
Depois foi o que foi, a imprensa de Madrid a dizer que foi um roubo, e a de Barcelona a dizer que o Neymar foi genial. Nem oito nem oitenta. Mas começa a criar-se um desinteresse e um certo vazio mediático nos clássicos espanhois. Culpa de quem lá esteve há dois anos, e que levantou tanto a fasquia.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Outubro de 2013 às 14:25
Sim, a arbitragem foi muito má.

O normal seria um penalty para cada lado, Ramos na rua e o segundo penalty reclamado não assinalado porque o Adriano em nenhum momento tem intenção de jogar a bola (ele já está no chão). Mas as arbitragens em Espanha, são, regra geral, muito mais fracas que a qualidade dos treinadores e jogadores.

O Barça não sabe bem a que joga e agarra-se a uma matriz e ao génio dos jogadores mas a transição está a custar e os problemas fisicos de Messi e a relativa baixa de forma de Iniesta não ajudam. Quando ao Real, é o hara-kiri do costume, nada de novo lamentavelmente!


De António Teixeira a 28 de Outubro de 2013 às 16:08
Caro Miguel,

Tem razão na arbitragem.


Sobre o jogo, achei realmente semelhante a disposição do Barça e do Porto nos respectivos jogos deste fim de semana (já agora, a sua opinião do derby, se puder). O Iniesta até que jogou bem. O Messi, e pode ser coincidência ou posso ter os dados errados, mas só tem estes problemas quando começam a encostá-lo repetidamente à linha. Foi assim com o Rijkaard, foi assim com o Tito, está a ser com o Tata. O Messi na linha é provavelmente o maior desperdício da história do futebol.

Cumprimentos


De mourinhista a 25 de Março de 2014 às 18:44
Victoriano Sánchez Arminio = "cáncer" del arbitraje español......


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Outubro de 2013 às 10:34
António,

O pensamento para o derby fica prometido para esta semana. O Messi está a poupar-se para o Mundial e fá-lo com o conhecimento do treinador (elegido por ele aliás) e do clube. Já ganhou tudo o que tinha a ganhar a nível de clubes e quer igualar Maradona. Vem de uma série de problemas fisicos e não quer forçar para voltar a chegar a Maio destroçado. Por isso este ano vai participar menos no jogo (mas continuará a marcar, e muito) e por isso a chegada de Neymar foi providencial!


De António Teixeira a 31 de Outubro de 2013 às 09:46
Caro Miguel,

Desde já perdoe-me a resposta tardia.

Discordo de si num tópico: a escolha do treinador não terá sido do Messi; da mesma maneira que a escolha do Mourinho não foi do Ronaldo; aliás, não há nenhuma evidência que aponte para isso, a não ser as especulações da imprensa espanhola, e essas já sabemos nós como funcionam. De qualquer dos modos, acredito que tenha sido do agrado do Messi, mas duvido que continue a ser (ou que, pelo menos, seja tanto quanto o foi). O Messi anda triste no campo, joga numa posição que não é a dele, as coisas não lhe saem bem, o treinador diz coisas de teor duvidoso (sobre ele e sobre o Neymar também, já agora), etc etc. Este treinador é uma escolha Rossel, cujo séquito tratou de transformar numa escolha Messi, porque já se sabe que se as coisas correrem mal, a culpa é dele e não do Presidente. Você sabe melhor que eu como funciona o Rossel e como funciona a política desportiva nesse monumento catalão.
Mas que queira chegar em forma ao mundial, também é verdade. Ainda assim, o Messi sempre foi (a par do Ronaldo) alguém muito competitivo. Veja o jogo com o Celta por exemplo, e compare com as declarações do Xavi que dizia que procurava sempre que o Messi tivesse muitas acções; o que se passou em Vigo, e já contra o Madrid, mostra-nos que hoje os jogadores do Barça (excepção de um ou outro da velha guarda) já não procuram o Messi, estando ele no meio, na linha, ou na área. Por um lado é bom, por outro é mau (aliás, uma das coisas que sempre apontei ao Messi foi as críticas que fazia dentro de campo a gajos que trabalhavam para ele, como o Villa).

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Outubro de 2013 às 14:46
António,

Não há qualquer tipo de especulação. Eu até acho normal que um mega-jogador tenha uma palavra a dizer nestes casos. O Tata já confessou, publicamente, que se reuniu tanto com o pai de Messi, Jorge, como com o jogador, antes de ter assinado pelo Barcelona. E o pai de Messi também já o afirmou, publicamente, que sugeriu o Tata a Rossel. Ele foi um dos seus principais valedores - Bielsa foi outro - o que não quer dizer que seja exclusivamente por isso que Martino é treinador do Barcelona. Martino é treinador do Barcelona porque é um muito bom treinador.

O Messi, tenho a certeza quase absoluta (reforço o quase) este ano tem um objectivo em mira: o Mundial. Vai dosificar-se o máximo que pode durante o ano, vai provavelmente ser menos produtivo, porque não quer que lhe passe o que sucedeu nos últimos dois anos, que é chegar a Abril fisicamente roto. A isso há que juntar lesões musculares mal curadas e a mudança do paradigma de jogo. Mas como o jogador brutal que é, este ano vai brilhar muito alto mas ele próprio já o disse, prefere ganhar menos prémios individuais (a que eu juntaria, menos uma liga e menos uma champions, que já tem de "sobra") e ganhar o Mundial que na cabeça dele (e de muitos, eu não) é o que o separa da imortalidade de Maradona!


De mourinhista a 25 de Março de 2014 às 18:42
No se atrevió a pitar el clarísmo penalty de Mascherano a Cristiano Ronaldo Aveiro; debía haber sido expulsador el jugador argentino.....


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