A transformação não podia ser mais radical. O perfume gaulês do futebol champagne tem embriagados os eufóricos adeptos romanos. Depois da humilhante derrota contra o eterno rival laziale na final da Taça de Itália a AS Roma não voltou a perder um jogo. Uma nova era com um futebol de primeiro quilate a quem os resultados têm acompanhado. Se a história ainda valer alguma coisa, o Scudetto já tem dono.
Por duas vezes uma equipa venceu as primeiras oito jornadas da Serie A italiana. Por duas vezes essa formação ganhou o Scudetto.
Em ambos casos a protagonista, a Juventus, tinha as melhores equipas da temporada. Nos anos 30 estiveram quatro anos seguidos a reinar sobre o Calcio, um recorde até hoje apenas batido por "Il Gran Torino". Cinquenta anos depois, a equipa liderada por Michel Platini e pelos campeões do Mundo de 1982 na linha defensiva arrancaram para uma temporada memorável que acabou com a vitória na Taça das Taças abrindo caminho ao título europeu do ano seguinte, em Heysel. Olhando exclusivamente para os relvados italianos custa imaginar que a AS Roma não acabe por cometer uma proeza similar.
O calendário não foi propriamente amigo dos gialorosso. Dois jogos contra candidatos ao título foram resolvidos com vitórias merecidas e inquestionáveis frente ao renascido Inter de Mazzari e a sua antiga equipa, o Napoli de Benitez. Os napolitanos chegavam a Roma como segundos na tabela classificativa, desejosos de confirmar as boas sensações que foram deixando neste arranque de temporada. Mas revelaram-se incapazes de aproveitar as escassas oportunidades que tiveram e cairam sob o perfume rendilhado do jogo medular dos romanos e a sua eficácia a bola parada. Pjanic foi o herói mas o treinador Rudi Garcia teve o cuidado de referir, no fim do jogo, que esta era a Roma de Totti. A Roma do "capitano" na sua enésima reencarnação.
O investimento norte-americano na Roma arrancou há três anos.
A aposta inicial num modelo de jogo atractivo e ofensivo levou os dirigentes romanos a procurarem uma versão acessível do Barcelona de Guardiola. Escolheram Luis Enrique, até então treinador da equipa B do clube. O espanhol teve meios mas não teve sucesso, talvez porque a sua ambição táctica superou no tempo um projecto ainda em formação. Durante duas temporadas os romanos caíram no fundo, depois de terem sido os principais rivais do Inter de Mourinho. O renascimento prometia ser mais lento do esperado e enquanto isso Totti e De Rossi, a alma e o trabalho desta formação histórica há quase uma década, envelheciam um pouco mais. O processo reverteu-se, definitivamente, neste Verão.
Rudi Garcia, o homem que operou o milagre do Lille, campeão francês contra todas as expectativas, foi recrutado para dar forma aos sonhos romanos. Com ele chegaram também reforços à altura das ambições mas com um valor de mercado controlado pela crise financeira. Não fizeram muito ruido, em comparação com o de alguns rivais - entre os quais o próprio Nápoles - mas rapidamente demonstraram ser escolhas mais do que acertadas. Garcia, treinador da velha escola francesa de um futebol rendilhado e preciso, desenhado no meio-campo com precisão geométrica, recuperou o 4-3-3 e com ele o papel de Totti como figura central do ataque, bem secundado pelo forte Gervinho e os jovens e criativos Marquinhos, Llajic e Florenzi, a grande promessa da cantera romana. Na sala de máquinas colocou ao lado de De Rossi dois jogadores de primeiro nível mas eternamente subvalorizados pelo mercado, o bósnio Pjanic e o holandês Strootman. A equação perfeita.
O trabalho e entrosamento colectivo sucederam quase como um milagre, da noite para o dia. Contra todas as expectativas as peças encaixaram e a máquina começou a funcionar com a perfeição de um relógio roubado a um dos guardas suíços do Vaticano. Os resultados, que ás vezes no futebol não acompanham as metamorfoses das equipas, desta vez não tardaram em aparecer e a Roma surgiu invencível e imparável no arranque da temporada. Enquanto à campeã Juventus custava-lhe recuperar o ritmo perdido e com as equipas de Milão muito mais débeis do que o seu nome podia imaginar, a Roma deu um murro na mesa. Com as atenções viradas para o novo Nápoles ou as promissoras equipas forjadas pela Fiorentina e pelo próprio AS Lazio, foram eles os protagonistas inesperados de dois meses de competição que podem ser decisivos.
Se a história valer para algo, o espirito de Falcão, Conti, Emerson e Montella está vivo nesta nova geração romana. Eles demonstram que o Calcio nem sempre é um exercício futebolístico aborrecido. Rompem convenções e convidam a imaginar um futuro melhor para uma liga que sabe que mais baixo não pode cair. Um sopro de ar fresco rompe o futebol europeu a partir do mais inesperado dos coliseus. Na cidade eterna já se sonha com a história!