Quem se apaixonou pelo Bayern Munchen de Louis van Gaal sabia que ali havia material para criar uma dinastia capaz de dominar, mais do que a Bundesliga, o futebol europeu. A evolução de Jupp Heynckhes, consolidada com a histórica goleada sobre o Barcelona, confimou essa sensação. A chegada a Munique de Josep Guardiola é um sonho transformado em realidade. O Allianz Arena prepara-se para entrar noutra dimensão.
Imaginem os bávaros ao serviço de Heynckhes.
As vitórias sobre o Dortmund - entre a DBF Pokal e a final da Champions - as goleadas na Bundesliga, a vulgarização da Juventus e a humilhação ao Barcelona. Imaginem as subidas constantes de Lahm e Alaba, o trabalho táctico de Martinez e Kroos, a presença sobre-humana de Schweinsteiger. Os golos de Mandzukic, as diagonais de Robben, a liderança de Robben e o génio incontrolado de Muller. Imaginem essa máquina de futebol, capaz de lograr no mesmo ano tudo aquilo a que podia ambicionar. Agora juntem a essa equação mais jogadores de topo, filhos da mesma ideia. E um homem capaz de a reinventar. Afinal, o clube tão associado desde sempre ao império da Adidas, pode colocar em prática a máxima de que "impossible is nothing".
Gotze e Thiago chegam para fazer de um plantel de sonho, um plantel perfeito. O overbooking de talento é assustador. Luis Gustavo, autor de uma notável Taça das Confederações, não tem lugar assegurado. Toni Kroos também não. O promissor Xherdan Shaquiri terá de sofrer para ter minutos. Quem garante a Mandzukic que vai jogar? Boateng, Badstuber e van Buyten vão lutar por um lugar porque tudo indica que Javi Martinez será, sobretudo, um libero como foram Vasovic, Blakenburg e, claro, Beckenbauer. Esse posto fulcral na filosofia do Futebol Total reinventado pelo maior símbolo contemporâneo da escola danubiana, desviada definitivamente a ocidente, entre as tulipas de Amesterdão, o sol de Barcelona e, agora, o tapete verde de Munique.
Guardiola precisava de um desafio e aí o tem.
Não se trata apenas de igualar a temporada perfeita de Heynckhes. Nunca ninguém o conseguiu desde os triunfos do Ajax de Kovacs no futebol holandês e europeu dos anos 70. Toda a curta hegemonia posterior - Bayern Munchen, Liverpool, AC Milan, Juventus, Real Madrid, Manchester United e Barcelona - foi incapaz de reproduzir ano atrás ano vitórias em todas as frentes. Pedir isso a Guardiola é, portante, ridiculo.
No entanto, o que sim se deve exigir (e esperar) do seu projecto, é fidelidade absoluta às suas ideias, à sua forma de entender o jogo. E isso é meio-caminho para a vitória. Ninguém pode garantir que o Bayern vença o novo duelo com o Dortmund de Klopp (também ele reforçado, dentro das suas limitações, de forma muito interessante) ou com Real Madrid, Barcelona, PSG, Manchester United e City ou Chelsea. Mas com o plantel que dispõe, o génio que sempre o acompanha e a sua eterna ambição
Guardiola provará, provará e provará. A superioridade do seu Bayern na Bundesliga será tal que ninguém descarta ver três ou quatro variações tácticas ao longo do torneio, de três centrais a quatro ou cinco médios. Tem jogadores excedentários para todas as posições. Disputará, previsivelmente, à volta de 55-60 jogos, e tem um plantel com mais de 26 opções, as que se podiam incluir os jogadores da formação que já conhece bem e que tem incoporado aos seus trabalhos de pré-temporada. Weiser, Hojbjerg, Can, Weirauch serão nomes que começarão a soar mais familiares aos adeptos. Mas têm uma tarefa hercúlea pela frente porque a qualidade de futebolistas já consagrados - todos eles, salvo Mario Gotze, campeões da Europa (Thiago também o é) - é imensa.
Pep tem provado e continuará a fazê-lo. Podemos imaginar um decalque do seu Barcelona, mas qual deles? E será que um homem que tem uma ideia mas que sabe rodear-se de gente que lhe pode oferecer ideias alternativas. Lahm pode reencarnar em Dani Alves ou ser, pura e simplesmente, ele próprio, talvez o melhor lateral europeu da última década. Javi Martinez foi com Bielsa, um dos mentores do catalão, um líbero de excepção em San Mamés e continuará a sê-lo mas ninguém duvida que, no meio-campo, seja igualmente fundamental. Kroos e Schweinsteiger parecem fundamentais, mas Thiago vem para ter minutos, Gotze deambulará entre o meio e as alas e Luis Gustavo é mais do que pulmão, como demonstrou com a canarinha. São muitas opções, reforçadas por um tridente de ataque que conta com Ribery, Robben (o menos guardilesco dos jogadores), Muller, Shaquiri, Mandzukic e Pizarro às que se junta, igualmente, o génio da antiga estrela do Dortmund.
3-4-3, 4-3-3, 4-2-3-1, 4-6-0, tudo é possível com Guardiola ao leme e este leque de estrelas - não mediáticas - em campo.
Parece evidente que as alternativas do técnico de Santpedor formam o terceiro melhor meio-campo da Bundesliga, apenas atrás do do Dortmund e dos seus colegas de equipa. E talvez um dos melhores de todo o futebol europeu. É evidente que a expectativa está em alta. E com justa causa. O mais emblemático treinador dos últimos anos com o melhor plantel do Mundo, num clube histórico e longe da histeria mediática por onde se move o futebol espanhol, é uma fórmula impossível de resistir. Depois de ter triunfado em campo na passada época, o futebol alemão começa agora a ganhar também na moralidade do jogo. Entre Ancelloti e Vilanova, entre Moyes e Mourinho, há algum duelo que tenha capacidade de ombrear com um Guardiola-Klopp? Também me parece que não!
* Pep, toca-a outra vez

