Há uma certa nostalgia daquela tarde em Lisboa, daquele título inesperado. Riade foi celebrado à distância, aquele dia no estádio da Luz foi diferente. Uma comunhão nacional como o país nunca mais sentiu. Já passaram mais de vinte anos desde o último título do futebol português e na FPF continuam obcecados com essa realidade. A dos títulos. Edição atrás edição, sempre e quando se apura, Portugal vai com a ideia de vencer na cabeça esquecendo-se que o importante, nestes casos, é sempre preparar o amanhã. O resultado está à vista. Não se conseguiu nem uma coisa, nem outra!
Muitos aplaudiram os heróis da Colômbia como a geração que ia salvar o futebol português da mediania pós-Scolari.
Tinham apenas um argumento, mas parecia bom. Desde a "Geração De Ouro" que nenhuma equipa portuguesa tinha ido a uma final do Mundial sub-20. Em 1991 venceu-se o Brasil, em 2011 perdeu-se com o Brasil. Fora isso, tudo normal. Esqueceram-se no entanto de um pequeno, mas fundamental detalhe. A vitória em 1991 foi uma consequência do talento dos jogadores. O segundo lugar de 2011 um acumular de situações fortuitas e de um plano desenhado para vencer, abdicando de tudo aquilo que devia ser a cartilha do futebol de formação. Nem se venceu, nem se cumpriu com o dever. Dessa equipa nacional quem sobra para poder dar ilusão ao futebol português? Ninguém.
A geração de 2011 é a de jogadores escalados para defender, para cobrir espaços, para correr. Para esperar pelo milagre. O futuro não se cria sobre esses moldes. Nelson Oliveira, tão aclamado como o avançado que faltava, demonstrou em dois anos o quão medíocre é como goleador, revelando ao mesmo tempo a habitual faceta problemática da estrela criada antes do jogador. Na Corunha foi o elo mais fraco de uma geração de portugueses descartados, teve problemas com tudo e todos e no Benfica não conseguiu sequer fazer sombra ao ritmo de Rodrigo, Lima e Cardozo. Atrás de si ficaram perdidos entre clubes anónimos e secundários, os "promissores" Danilo, Saná, Pelé, Roderick ou Júlio Alves. Jogadores com o mesmo destino dos Cao do passado mas sem que na equipa se vislumbre qualquer Rui Costa ou Figo para acreditar em que valeu a pena sacrificar tudo pela tentativa de vencer. A lição, dois anos depois, não foi aprendida e Portugal repetiu a fórmula com a única diferença de não ter tido a sorte que tantas vezes a acompanhou na Colômbia.
O trabalho de Edgar Borges foi, a todos os títulos, um disparte digno da desorganização de ideias e métodos da FPF no capítulo da formação.
Desde o final da década de noventa que o trabalho da formação foi abandonado em Portugal por clubes e selecção. Tudo o que veio depois é consequência dessa inegável realidade. Sustentados pelo ocaso da Geração Dourada, pelo trabalho de Mourinho, pelo génio de Ronaldo, os resultados na absoluta mantiveram-se estáveis mas os anos passam e não aparece ninguém capaz de tomar a batuta. Não há um plano B.
Borges levou para a Turquia uma selecção de físico, de resistência, de força, muito similar à francesa. A ideia era a mesma. Sobrava algum talento, algum critério, alguma classe, mas rapidamente se percebeu que seriam poucos os minutos a ser distribuídos por esses jogadores.
A dupla Tiago Illori e Tiago Ferreira não foi uma constante e no último jogo percebeu-se o porquê, com o central do FC Porto a cometer disparate atrás de disparate. Os laterais foram ainda mais penosos, particularmente Edgar Ié, jogador que começou o torneio a central e acabou no lado direito, para oferecer a vitória ao Gana. O titular inicial, João Cancela, sem ser um futebolista brilhante, deixava claro ser uma opção mais lógica que Ié. Algo parece indicar que, por contrato, o luso-guineense tinha de jogar, já que não há explicação para a constante repetição da sua utilização. Além das dúvidas sobre a sua idade verdadeira (e a de Aladje, e a de Agostinho Cá) fica a certeza sobre a ausência de qualquer nível para ser internacional. Mas joga no Barcelona, como Cá, e para Borges isso deve ser suficiente.
A defesa, salvo o trabalho positivo de José Sá, o guarda-redes escalado à frente de Rafael Veloso, foi o exemplo perfeito da falta de maturidade mental e de conhecimento táctico exigido a este nível, algo que Borges nunca soube trabalhar. Para compensar preferiu entregar a sala de máquinas aos corre-caminhos e pagou o preço.
Portugal tinha, ao contrário de 2011, a possibilidade de armar uma linha de meio-campo com futebolistas com talento individual, critério táctico e raciocínio rápido. Jogadores como Tiago Silva, João Mário, Ricardo Esgaio, Tozé e André Gomes. Entre os cinco havia matéria-prima suficiente para guardar a bola, cuidá-la e procurar a mudança de velocidade, o aproveitamento dos espaços criados pelas diabruras de Bruma e a mobilidade de Ricardo. Parecia fácil a eleição de modelo, o complicado era excluir a dois do onze. Curiosamente, ou talvez não, Borges preferiu seguir por outra via. A fácil, a previsível, a que condenou a selecção à sua eliminação precoce.
Não abdicou do pivot defensivo mais físico, habitualmente a figura opaca de Agostinho Cá, e reforçou muitas vezes o miolo com mais força e músculo. Dabo e até Ricardo Alves, pareciam ser as suas opções preferenciais para acompanhar os mais consagrados João Mário e André Gomes no meio-campo. Uma opção que garantia, aparentemente, consistência física, mas que tapava mais uma boa zona de saída de jogo e tornava o futebol da selecção das quinas um pouco mais previsível. Para isso estava Bruma.
O extremo do Sporting foi um dos heróis do torneio, a par de Quintero e Jesé. De certa forma foi ele quem garantiu que Portugal sobrevivia ao grupo mais fácil da primeira ronda e o que fez de tudo para não cair contra o Gana. Não foi só pelos golos. Bruma foi tudo aquilo que os seus colegas nunca souberam ser. Atrevido, ousado, dinâmico, vertical, dava soluções quando outros ainda pensavam nas perguntas. Cabe pensar que podia ter criado ainda mais perigo se tivesse sido deixado solto, no meio do ataque, sem uma figura estática presente, e com dois colegas com quem associar-se. Teria sido uma combinação fatal para o rival. Preso à banda, o extremo foi um verdadeiro demónio, mas os problemas que se seguiram à participação portuguesa no torneio parecem antever um jogador com uma mentalidade muito distante do que se pode pedir a estas alturas da carreira. Muitos como ele perderam-se pelo caminho por menos.
Ricardo e Aladje foram as outras opções habituais. O extremo do FC Porto veio de uma boa época em Guimarães mas notou-se nervoso, cansado e sem ideias. De certa forma, foi um reflexo mais jovem do que tem sido Varela na equipa principal (e no clube azul-e-branco) e terá muito trabalho nas pernas para crescer. Ter utilizado Tozé ou Ricardo Esgaio na sua posição poderia e deveria ter sido uma opção mais recorrente, mas Edgar Borges não estava para ser audaz nem criativo. Por fim sobra Aladje. Pode haver piores pontas-de-lança na história da formação do futebol português mas dificilmente algum teria a sua idade real. Desastrado, foi um tampão de criatividade e emoção, um jogador a menos em cada lance ofensivo e um problema, mais do que uma solução. Cavaleiro, o seu suplente, seguramente não era a resposta mas continua a ser preocupante que há dez anos que Portugal demonstra ser incapaz de apresentar um avançado com números interessantes. Treino especifico será uma expressão tão difícil de assimilar?
No final, o cenário é menos desolador do que em 2011 porque há jogadores de outro perfil. O problema é que na equipa principal portuguesa está alguém que tem uma ideia não demasiado diferente daquela que coordena o trabalho de formação lusitana. Noutros países, jogadores muito jovens mas com uma qualidade evidente encontram minutos nas selecções principais. Portugal é um país conservador, de protocolos cerrados e salamaleques. A Bruma - sobretudo ele - mas também a João Mário, André Gomes e Tiago Ilori será difícil vê-lo regularmente com a camisola da selecção nos próximos dois anos. Os seus restantes colegas que apresentam algum potencial real, precisarão de minutos que as suas equipas não lhes podem dar porque pensam sempre noutra coisa. Terão de sair, jogar um estilo de jogo que muitas vezes não é o seu. Muitos se irão perder pelo caminho, aprendendo a correr kilómetros quando deviam estar a cuidar da bola. A formação em Portugal continua a ser um cancro para o futuro do nosso futebol e quem nele manda continua a importar-se pouco. Os próximos torneios serão um reflexo deste se a sorte, por um lado, ou uma mudança radical de postura, pelo outro, não permitam sonhar com um universo distinto!

