Sábado, 20 de Junho de 2009
Apesar de ser considerado um futebol defensivo e tacticamente fechado, no país onde se celebrizou o libero ou a defesa de cinco elementos não há elemento mais marcante e icónico do que o “regista”. O papel atribuído pelo futebol italiano ao criativo, ao homem capaz de descubrir os mais improváveis dos espaços, é reverencial e deste sempre a Série A albergou os melhores criativos da história do futebol. Jogadores que eram tratados como seres à parte. Num mundo onde a disciplina táctica imperava, eles tinham a chave do sucesso. Hoje, não é só o Cálcio que está em crise. Também o “regista” parece ser, cada vez mais, uma espécie em vias de extinção.
No período áureo do futebol italiano nada era mais fascinante do que ver em campo o “regista” pautar o jogo da sua equipa, decifrar a complexa equação que cada 90 minutos se lhe aparecia em frente e levar à loucura os fanáticos adeptos, capazes de o idolatrar até à insanidade. Cada era teve o seu interprete maior italiano, cada período teve também os seus grandes astros estrangeiros que deixaram inequivocamente a sua marca no Cálcio. O seu último grande interprete estrangeiro, o brasileiro Kaká, trocou a Série A pela Liga, ou o mesmo será dizer, trocou a complexidade do terreno de jogo italiano pelos espaços abertos e as diagonais habituais na liga espanhola. Como ele, antes, no passado, muitos fizeram o caminho. A maior parte dos quais porque não se fartou de ter de pensar a cada minuto como esquivar-se da marcação enquanto tinha de inventar um golpe de génio para triunfar. Houve mesmo génios que passaram pelo Cálcio que nunca vingaram definitivamente. O exemplo mais marcante sempre será o dinamarquês Michael Laudrup, contratado muito novo pela Juventus para substituir Michel Platini, um desses grandes “registas” e que depois de passar pela AS Lazio acabou por preferir Espanha para mostrar o seu futebol. Mas outros, pura e simplesmente, procuravam outro registo. O caminho que agora percorre Kaká já antes foi feito por Zinedine Zidane por exemplo. Mas o caminho inverso também ocorreu. Que o digam os amantes do Napoli que herderam do Barça o seu mítico Maradona, o homem que rasgou a Itália em dois e a pintou de azul claro.

No entanto a figura do regista é local.
Quando nos anos 50 e 60 se começou a definir o modelo táctico que ainda hoje impera no Cálcio – muito por culpa da obra de Helenio Herrera que aplicou o 5-3-2 ofensivo nas suas equipas, com um libero e laterais ofensivos – nasceu a necessidade de encontrar o antídoto ideal. Esse antídoto era o criativo, o número 10, o único homem em campo com discernimento para rasgar uma defesa de cinco elementos ou para descubrir espaços livres num maranhal de homens. O primeiro grande génio local a herdar este ideal foi Luigi "Gigi" Riva. O médio criativo do AC Milan fez escola durante os anos 60 e liderou a sua equipa à vitória no Euro 68 e à final do Mundial de 70, bem como o clube milanês à vitória na Taça dos Campeões de 1969. A sua parceria com Gianni Rivera foi histórica e aí nasceu a base da ligação entre o génio criativo e o avançado letal que seriam santo e senha do futebol italiano das décadas seguintes. À medida que uns génios sucediam a outros também começavam a chegar do estrangeiro craques para a mítica posição. Os anos 80 viveram o inicio da era dourada da Série A e nos campos italianos passearam génios como Sócrates (Fiorentina), Zico (Udinese), Falcão (AS Roma), Platini (Juventus), Laudrup (AS Lazio e logo Juventus) ou Maradona (Napoli). A estes juntavam-se os meninos bonitos do Cálcio como Bruno Conti, o maestro da azzurra e da AS Roma, ou Altobelli. A figura do “regista” tornava-se num ícone desportivo.
Os anos 90 foram o expoente máximo do “regista” em campo e o aparecimento explosivo do genial Roberto Baggio popularizou ainda mais o termo. O “Bambino de Oro” despertou o seu futebol imprevisível e genial na Fiorentina e rapidamente passou para as hostes da Juventus onde se tornou no patrão do clube transalpino e da azzurra. Depois ainda passou pelos dois grandes de Milão e acabaria a carreira no modesto Brescia, onde mostrou toda a sua classe. Ao génio de Baggio juntou-se o talento de Roberto Mancini da Sampdoria e Gianfranco Zola do AS Parma. A estes três mitos sucederam outros nomes altamente populares junto do tiffosi. Primeiro Alessandro Del Piero, sucessor de Baggio na Juventus e na selecção, e em Roma o capitão da loba, Francesco Totti. A abundância de talentos era tal que o seleccionador italiano era sempre crucificado por ter de abdicar de um deles. No sistema não se mexe e a relação entre criativa e avançado manteve-se imutável ao longo dos anos. Se um homem teria de ir para o banco, iria, porque antes de mais, era apenas um homem. Baggio, Del Piero e Totti conviveram de forma complexa na azzurra mas afinal, o modelo foi coroado no Mundial de 2006, depois das finais perdidas em 1994 no Mundial e em 2000 no Europeu.

Por essa época o Cálcio vivia igualmente uma nova vaga de talentosos estrangeiros que bebiam a magia do ideal defendido pelos puristas apaixonados pelos primeiros “registas”. Foi a era de Rui Costa, de Zinedine Zidane, de Dennis Bergkamp, de Rivaldo e de Kaká. Jogadores modelo que se foram tornando figuras mundiais graças ao seu papel chave nas suas equipas. Hoje o cenário é bem mais negro e a primeira a nota-lo é a squadra azzura. Pirlo, um jovem regista, foi forçado pelo talento existente há uma década, a tornar-se num segundo médio, um pensador. Mas ele é hoje o único criativo que sobra no futebol italiano. Del Piero e Totti caminham a passos largos para o final de carreira e não há, pela primeira vez em mais de trinta anos, um relevo geracional à altura. A utilização de um segundo avançado como Giuseppe Rossi por Marcelo Lippi nos momentos mais complicados da Itália, é a prova viva de que alternativas há poucas. Os clubes pequenos deixaram de gerar pequenos génios (Montolivo acabou por seguir o caminho de Pirlo) enquanto que jovens promessas como Giovinco, teimam em não encontrar o seu espaço. Olhar para os planteis dos grandes clubes italianos e encontrar um regista é mais difícil que procurar uma agulha num palheiro. Um dos elementos mais históricos da centenária vida do Cálcio, o “regista” é cada vez mais um bicho raro, em vias de extinção. Resta saber se esta espécie ameaça ainda tem salvação.
